segunda-feira, 11 de julho de 2011

Assim caminha a humanidade

Retirei este post do blog da Lola - http://escrevalolaescreva.blogspot.com/. Tomei a liberdade de reproduzi-lo, de fato extremamente interessante e necessário.
 
Robson Fernando de Souza é autor do blog Consciência e é apaixonado por sociologia e meio ambiente. Ele me enviou um guest post interessantíssimo, mas longo, que tomei a liberdade de dividir em três. Esta é a primeira parte.

Nos livros e discursos engajados no combate à opressão contra parcelas minoritárias ou majoritárias da humanidade (e contra os animais não-humanos também), vemos uma outra opressão triunfando despercebida e impune. Algo hoje em dia mais simbólico do que prático, é verdade, mas emblemático a ponto de não poder ter sua relevância reduzida a zero. Esse símbolo de dominação e exclusão tem cinco letras e as feições masculinas de um homem.
Mesmo sem perceber, até aquelas personalidades –- muitíssimas delas mulheres –- muito engajadas em buscar a igualdade entre todos os sujeitos morais acabam consentindo e aceitando tacitamente (e inconscientemente?), ainda que numa perspectiva simbólica, o dogma de que os homens são os seres humanos por excelência, o centro da humanidade, os únicos dignos de nomear a espécie humana. Desde a Idade Média, existe o vício de chamar a humanidade pelos seus representantes masculinos.
História da palavra “homem”
Até a origem desse costume, o macho não necessariamente nomeava a humanidade na sociedade ocidental, embora já arrogasse superioridade social sobre as mulheres. A palavra homem de fato tem raízes em cognatos antigos que significavam não especificamente o masculino, mas o todo humano -– homo e mann, exemplos mais importantes, significavam “ser humano” mesmo. O que quer dizer que o cada vez mais polêmico vocábulo foi corrompido, não deliberadamente promovido, pela androcracia europeia e judaico-cristã.
O cristianismo e o pensamento grego, deduz-se, foram críticos em influenciar a masculinização dessa representação social da espécie humana, já que a Bíblia (especialmente em Gênesis) e filósofos como Platão e Aristóteles consideravam a mulher, respectivamente, apêndice e versão degenerada do macho.
Na Bíblia, Adão, o Homem (adm = homem em hebraico), o masculino, imagem e semelhança do Deus Pai, teve seu nome promovido a denominador de toda a espécie humana –- dali em diante, o masculino nomearia o conjunto que englobava humanos machos e fêmeas (“Este é o livro da história da família de Adão. Quando Deus criou o homem, ele o fez à imagem de Deus. Criou-os homem e mulher, e os abençoou, e deu-lhes o nome de homem no dia em que os criou”. Gênesis 5:1,2). Mesmo antes dessa nomeação “oficial”, o macho (Adão) era o primeiro ser humano, e precisava de um(a) ajudante. Como nenhum animal se adequava como seu braço-direito, veio a mulher, sua mulher –- assim nomeada “porque foi tomada do homem” –-, a partir da costela masculina.
Na sociedade grega clássica, o homem era o ser humano padrão desde a mitologia pagã local, segundo a qual os primeiros humanos eram homens e a primeira mulher, Pandora, veio como castigo de Zeus e era uma desgraça personificada. Platão “confirmou”, na obra Timeu, que os homens eram os primeiros seres humanos e as mulheres teriam surgido depois como uma “mutação degenerativa” em cujos corpos os homens covardes reencarnavam. Aristóteles radicalizou e teorizou que que “a inferioridade [da mulher] é sistemática em todos os planos –- anatomia, fisiologia, ética -–, corolário de uma passividade metafísica” (História das mulheres no Ocidente, de Georges Duby e Michelle Perrot).
Juntaram-se a misoginia grega e o patriarcalismo judaico-cristão –- a saber, tendo a mentalidade grega influenciado importantemente o pensamento dos primeiros filósofos cristãos -– e varreram culturalmente cada reino europeu, ao longo da Idade Média –- tendo o último reino pagão, a Lituânia, sido cristianizado no século 14. Sistematicamente os homens da Europa, ainda que já fossem dominantes socioculturalmente, foram elevados a um pedestal ainda mais radical, desequilibrando ao extremo a balança entre o peso e atividade masculino e a leveza e passividade feminina.
Nessa varredura, os verbetes que representavam os machos –- vir no latim, were no inglês, wer no alto-alemão arcaico -– se tornavam desnecessários, já que, como as mulheres estavam reduzidas a seres marginais reclusos no doméstico e os homens eram praticamente toda a parcela publicamente ativa da humanidade, os únicos seres humanos com full power, dizer “os homens” podia ser perfeitamente confundido com dizer “os seres humanos”, já que praticamente só havia eles como agentes sociais. Naquela supremacia androcrática, não parecia fazer mais sentido usar termos diferentes para os homens e a humanidade.
Então as palavras em questão -– vir, were, wer etc -- foram abandonadas como denominação dos homens e substituídas pelos termos globais nas línguas existentes e nas então nascentes –- man, mann, homem, hombre, homme (estas três últimas derivadas de homo) etc.