sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Eu acho que ser mulher...



Vi essa foto no Facebook. Fico pensando quem escreve uma idiotice dessa. E o pior, em mulher que compartilha e tem mulher que curte,e ainda posta comentário escrito: somos foda!.
É uma tentativa de valorizar aquilo que nossa sociedade determina como  os traços da personalidade feminina? Por que se for isso, temos sérios problemas nessas frases. 
Ou será essa foto uma tentativa de nos ridicularizar, oprimir e inferiorizar mais?
Será que todas as mulheres são fofas (carinhosas), complexas (complicadas), malucas (mentalmente incapaz), obsessiva ( é, tipo uma patologia psicológica), sentimos frio (isso ficou confuso,porque acho que todo ser vivo percebe as mudanças climáticas, ou não?), viramos onça (ou seja, nunca podemos ser racionais, porque quando deixamos de ser maluca, complexa, confusa, nos portamos como um animal irracional), mas na verdade somos seres movidos por hormônios e emoções ( logo, não temos nenhuma chance de sermos racionais, e se não somos racionais somos objetivamente inferior ao homem,ser dotado da capacidade plena de raciocinar e decidir, correto?), inventamos a doçura (será que foi a mulher que inventou o açúcar?) , e minha preferida: nós gostamos mesmo de criar e recriar (ou seja, nós gostamos de ser mãe,é de ficar em casa criando receitas novas para nossos homens racionais).
Isso me lembrou,um livro que durante anos foi best seller aqui no Brasil, chamado Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? - uma visão cientifica e bem humorada de nossas diferenças, escrito por dois charlatães, quero dizer, pesquisadores  norte americano.
Veja,o livro é uma tentativa de explicar cientificamente as diferenças entre homens e as mulheres e pretende promover a paz entre os sexos, propondo que cada um aceite suas características biológicas, ou seja, a tese central do livro é que homens e mulheres são diferentes biologicamente e que nada pode mudar isso.
De todas as besteiras da foto acima,e de todas as coisas idiotas e absurdas que o livro aborda, a que mais me incomodam é a naturalização da maternidade.
A forma como ambos tratam a maternidade como algo completamente natural a mulher. Como se uma das características das mulheres, ou a principal coisa que faz da mulher mulher é a maternidade, isso claro depois de ter um homem só pra si.
Talvez, eu fique presa a essas duas questões: a maternidade e ter um homem só para si, porque acho que de todas as coisas que me foi ensinado pelas mulheres da minha família e pela sociedade como um todo (novelas, filmes, livros,contos de fada e etc), é que uma mulher de verdade só é mulher quando tem filho e se é capaz de segurar seu homem.
Já discuti isso em outros posts (Santa Puta, Sobre filhos e cachorros),e tenho a impressão que quanto mais tento fugir disso, mais isso me persegue.
Acho muito fascinante,quando mulheres que conhecem meu companheiro, dizem para ele: posso ser melhor que sua mulher! Não seria mais simples,se ela só fosse o que ela é? Porque essa necessidade mortal de competir e ser melhor, ver quem fica com o macho primeiro, quem cuida do filho melhor, quem é mais magra, mais bem vestida, mais descolada? 
Lógico que a competição está na pauta do dia do capitalismo, todos somos competitivos. Mas se um cara perder uma mina pra outro cara, ela era puta. Se uma mina perde um cara pra outra mina, ela não foi mulher de verdade. Somos sempre a culpada.
Em todos os lugares, em cada pedacinho do cotidiano, está lá a dose diária de submissão e subserviência.
Eu acho que ser mulher é algo que precisa ser revisto e repensado pelas próprias mulheres.
Para começar a pensarmos isso, indico três filmes Tomboy, A fonte das Mulheres e A Vênus Negra 
São três histórias diferentes, de diferentes tempos e partes do mundo. Histórias fortes e tristes : dor,sofrimento,perda, angustia, humilhação, violência...
São histórias de mulheres comuns. História reais ou que podem ser reais.
Histórias que dizem o que é ser mulher em qualquer tempo, em qualquer lugar. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Amélia que era mulher de verdade!


Adoro o Facebook! Rola cada preciosidade por lá, uma delicia!!!
Antes de ler este post, sugiro a você car@ leitor/a que veja o vídeo antes (caso você não tenha visto). Você só contextualizará nossa discussão de hoje depois de assisti-lo.
Para quem já teve o enorme prazer em vê-lo no Facebook, podemos começar.
A muito tempo, venho abordando em algumas postagens aqui no blog, o fato de que a mulher é ensinada o tempo todo e por tudo a ser submissa, e que no fundo da alma deles, os homens gostam mesmo é de mulher submissa.
Para que fique bem clara minha argumentação, vou usar três exemplos do cotidiano, para explicar o quanto as abobrinhas que as religiosas do vídeo ai em cima dizem não é tão incomum no mundão fora da igreja e dos templos, e que inclusive, muitas de nós multiplicamos em nosso cotidiano a máxima da submissão, quer consciente ou inconsciente.
Eu como feminista, marxista e revolucionária que sou, fiquei estarrecida logo de cara quando elas dizem: elas tem carreira e não sabem pregar um botão. 
Na hora me lembrei de uma tarde, em que fui participar do curso sobre as Mulheres e o capitalismo, promovido pelo Partido que eu militava. Bem, estávamos todas reunidas, um grupo de mulheres de vários setores e extratos diferentes da classe trabalhadora e num determinado momento conversávamos sobre o trabalho doméstico e seu caráter opressor e explorador (como dizemos o trabalho domestico é a mais valia do patrão sobre a mulher do operário, pois já que existe alguém que lava, passa, limpa, cozinha e trepa com operário de graça, o patrão se isenta de acrescentar essas despesas no custo do salário); lá pelas tantas, uma camarada bancária disse a seguinte frase: nunca aprendi a cozinhar, lavar, limpar a casa ou pregar um botão, e neste momento a dirigente do curso perguntou para ela: mas alguém faz isso na sua casa correto, e quem é que faz, a bancária respondeu: "minha" empregada. E disse isso, com um orgulho inigualável, finalizando assim: eu não sou mulher para fazer esse tipo de coisa, não nasci para isso, nasci para trabalhar (detalhe viu, trabalho doméstico não é trabalho, trabalho mesmo é o dela no banco) e não pregar botão.
Ok. 99% das mulheres que tenho contato no meu facebook se indignaram com essa questão do saber pregar botão como uma das principais tarefas das mulheres, mas nesse mundo, alguém tem que pregar o botão né mesmo? E quem é que prega o botão enquanto as feministas modernas discutem a libertação sexual no boteco entre uma cervejinha e outra????? Uai, as mulheres pobre e negras que por sua condição de lupén fazem do trabalho doméstico seu oficio. E para quem nunca precisou exercer esse oficio, a submissão é principio fundamental: ser piamente submissa aos gostos e desejos da patroa, que certamente acha que limpar o ladrilho com cotonete é algo essencial para a higiene da casa. 
Perceba que no vídeo  todas são brancas, devidamente maquiadas e vestidas com toda a pompa necessária a posição que ocupam, e certamente elas também não sabem pregar um botão; mas cabe a elas como pastoras ensinar suas discípulas, que certamente são de outra classe social ou mais pobres a como sem portar. Claro, que as religiosas do vídeo, defendiam para elas também essa submissão, afinal é um dos principais princípios cristãos. Mas, essa necessidade da mulher submissa, extrapola esse limite do templo e esta muito firme em nosso inconsciente e cotidiano.
Outro exemplo, sobre como a submissão está conosco lado a lado todos os dias de nossa vida, está localizado nas bancas de jornais e revistas e atende por nome de revista de assuntos femininos, também conhecida por NOVA, MARIE CLAIRE, GLOSS, BOA FORMA e afins. 
Bem, quem lê o blog sempre deve se perguntar qual meu problema com essas revistas. E eu digo: a quantidade de merda ideológica que constam em suas páginas e a quantidade de mulheres ditas modernas que leem essas ideologias, e que interiorizam esses conceitos sem nem perceber. E, não por acaso, justamente o conceito de submissão. Nós somos ensinadas a sermos submissas desde o óvulo, passando pela escola com os contos de fadas e isso vai sendo inculcado em nós até a morte: filmes,novelas, livros (poxa, esse tal de 50 tons de qualquer coisa, é um manual horrendo a submissão), series de tv, reality shows, religião, revistas, pornografia e etc.
Absolutamente tudo que for feito pela indústria cultural voltado para homens e mulheres, terá um toque ideológico da submissão como pano de fundo. Absolutamente tudo.
E então, chegamos no terceiro ponto, meu velho e chato argumento que homem gosta mesmo é de mulher submissa. Nem é tão culpa deles isso, afinal, foram educados numa sociedade que diz o tempo todo que a mulher é menos que o homem (mas menos no sexo, não podemos esquecer o poder da Pandora). Musicas como a da Amélia, a pornografia, a publicidade (como na maioria das profissões, o meio publicitário também é majoritariamente masculino), reforçam essa concepção. 
Um bom exemplo? Comercial de cerveja: o foco é os homens, as mulheres estão ali só para azarar. Isso só reforça o imaginário popular que homem vai pro boteco para espairecer, discutir futebol, falar de politica; mulher não, ela vai para paquerar com as amigas. Qualquer reportagem de qualquer jornal que envolva boteco,  é sempre essa a caracterização da matéria. Mais um bom exemplo ideológico da mulher submissa: a mulher submete sua vida, sua rotina ao homem, seja para alimenta-lo, vesti-lo, satisfaze-lo, adora-lo. 
Poxa, a gente não pode ir pro boteco discutir feminismo? Claro que não, se um grupo de mulheres forem vistas desacompanhadas de machos em um boteco, é obvio que elas estão lá para paquerar e são obrigadas a ouvirem as cantadas mais estupidas e nojentas e sorrirem felizes por serem desejadas. 
Qualquer pessoa é contra a forma de submissão proposta pelas religiosas, é ultrajante em pleno século XXI, até os homens são contra. 
Mas, e contra a submissão politica, cultural e econômica? Dessas submissões, quant@s são contra?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Chorei até ficar cansada....


Há um conceito sobre normalidade. Em estatística, esse conceito é estipulado pela média do comportamento das pessoas, que acaba virando um padrão. O problema, é que no capitalismo, os padrões são criações pautadas na necessidade do lucro: aquilo que gera lucro é tido como normal. Embora, cada vez menos, existam pessoas que estejam dentro desse "normal".
Confesso que passo muito longe dele, embora, todos os dias, tome minha dose de normalidade.
Mas sofro, porque volta e meia me pegando imaginando como deve ser feliz a vida de quem é normal.
Você sabe, as pessoas normais ué, todas aquelas que são como a Bailarina do Chico Buarque. Todas as pessoas do mundo, ou a sua grandíssima maioria, são perfeitas como a Bailarina.
No fundo tenho inveja de quem é assim Bailarina: gente que não sente ciúmes, que não tem medo, que não sente dor, que não fica doente, que não desiste, que nunca erra, que sempre tem auto estima, que tá sempre belo, que tá sempre magro, que é sempre confiante!
Eu sou torta, sem começo e sem fim, sem garantia ou validades.
Ás vezes acho que as pessoas deviam ser como flores plásticos: já nascem perfeitas e nada lhe faz mal.
Não há nada mais trágico que uma flor morta... nada mais doído do que uma flor que depois de tanto perfume e esplendor, morreu e secou, sozinha num vaso.
Dias como o de hoje, me fazem pensar na vida. É como se o tempo cinza, me deixasse cinza também.
Penso nas coisas que já vivi, nas pessoas que conheci. Nas pessoas que amei e a vida me levou. Penso nas pessoas que não souberam me amar, e na dor que elas me causaram. Penso nas coisas que perdi: meu pai, minha filha, as ingenuidades que se foram.
Penso o quanto tudo isso foi me deixando mais dura, menos viva.
Por que se vive? Qual o sentido de tanta dor e sofrimento? Fome, guerra, racismo, homofobia,machismo, violência, trem lotado, falta de grana... por que vivemos?
Por que levantamos todo dia e nos olhamos no espelho e pensamos que hoje vai ser diferente?
Sempre que buscamos nos humanizar, criamos a meta de sermos cada vez mais Bailarina e menos gente: não sofrer, não amar, não errar, não sentir, não doar.
Hoje eu só chorei, até ficar cansada e adormeci...
Sem espelho, sem olhos vermelhos, só as flores do canteiro.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Que a Tigresa possa mais que o Leão!


Estava terminado um texto do mestrado, e ouvindo essa música do Caetano (TIGRESA), e fiquei pensando quando existirá um mundo, onde ser mulher não será uma maldição?
Tenho trabalhado em um artigo sobre a educação sexual dos jovens, onde discuto, que essa formação é originada nos filmes pornográficos. 
Há uma lacuna na sociedade sobre quem deve educar as novas gerações em relação a sua sexualidade: desde o próprio sexo em si até o uso ou valor social do sexo, e claro, sobre machismo e homofobia.
Como nem a escola e nem a família assume para si essa tarefa digna, e, a religião mistifica e oprimi,quem faz as vezes de construir tais conceitos e possibilitar as experiências para os jovens acaba sendo a industria cultural (rádio, tv, filme,revistas e agora a internet como um todo).
O problema, é que o conceito de sexualidade da indústria cultural é um conceito violento: o sexo como instrumento de dominação do forte (homem branco - raras vezes o não branco ) sobre o fraco (homossexual,mulher, negr@, animal). E desta maneira, as novas gerações vão construindo sua concepção e sua forma de ver e lidar com a sexualidade.
No texto A Boceta de Pandora, discuto um pouco sobre o pseudo poder que a buceta tem em relação aos homens,pseudo poder esse legitimado pela pornografia como um todo. Desse conceito de poder da buceta, se desdobram muitas coisas, inclusive o fato de que toda puta (prostituta) é feliz e gosta do que faz, que a prostituta é mais emancipada que a mulher que não é prostituta, justamente por gostar de sexo e utilizar esse gosto para obter lucro.
Não podemos dizer, que sejam só os homens que tem sua sexualidade formada a partir da pornografia, muitas mulheres também consomem a pornografia, e de certo, essas mulheres devem concordam com esses homens.
A questão que chama minha atenção, e estou dividindo com os leitor@s do blog, é que essa leitura sobre a sexualidade feminina, pautada pelo fundo de opressão da pornografia é um problema, não só por inculcar que a violência é a única saída para a satisfação, mas por incentivar a alienação dos sujeitos com seus próprios corpos.
Do ponto de vista sexual, homens e mulheres são alienados em relação a sua própria sexualidade.
É mito achar que os homens são sexualmente mais satisfeitos e que conhecem melhor seu corpo por isso são mais capazes de sentirem prazer do que a mulher. O fato é que na loteria biológica  os homens deram sorte e nasceram com o órgão sexual exposto. O fato de ter aquele treco ali balançando o tempo todo, faz com que eles percebam o prazer intrínseco na coisa. 
Mas ao mesmo tempo, nem sempre sabem fazer uma mulher realmente ter prazer, mesmo que passem bastante tempo consumindo a pornografia.
Se a formação em todos os campos da vida é permanente, a formação sexual também o é. Se aprende sobre sexo e a sexualidade o tempo todo e em todos os momentos de nossa vida, e medida que a alienação se aprofunda; a relação do sujeito com seu próprio corpo se aprofunda cada vez mais: desde o uso de acessório, fantasias sexuais, instrumentos,animais, violência.
Cada vez menos, conseguimos estabelecer com nosso próprio corpo uma relação direta de prazer, ou precisamos do outro, e se o outro não quiser, tudo bem, eu forço, porque só se realiza através da violência (quem achar que eu exagero, dá uma olhadinha nos sites de vídeo pornô que 99% dos filmes trabalha com a violência explicita ou implicitamente).
Obviamente, o aprofundamento da alienação e da barbárie no inconsciente dos sujeitos, vai se objetivar nas relações sociais e culturais, uma passada rápida no youtube dá conta de ilustrar a quantidade de videos sobre casos de abusos de filhos e irmãos contra mãe, avós, tias, irmãs. É de arrepiar a alma.
Se nós já chegamos no fundo do poço, a última barreira é o que ainda se tem como sagrado: a família. E, é impressionante o número de videos pornográficos  contos, histórias sobre relações forçadas com mães, irmãs, primas, tias, filhas...
Qual o limite do prazer? Esse limite é ditado pela moral? 
Qual o certo e o errado do prazer?
E, o que mais me inquieta, por que nessa selva, a tigresa nunca pode mais que o leão?
Por que as mulheres sempre devem usar sua sexualidade para satisfazer os homens? 
Afinal sempre é assim, os homens querem ter várias parceiras, mas não querem ofender a moral vigente, então alardeiam o fim da monogâmica, e pressionam as mulheres (suas parceiras e possíveis parceiras) a serem livres também, criam regras e regras sobre isso, mas poucos se preocupam de fato com a libertação sexual, social, econômica, politica e cultural da mulher. O que eles querem mesmo é gozar sem culpa!
Agora, quero deixar bem claro para os homens feministas pós modernos: liberdade sexual sem igualdade cultural, acadêmica  econômica (principalmente), política e racial se chama bordel e não liberdade.
No bordel sim, as mulheres vivem sua liberdade sexual (já que para os homens liberdade sexual é sinônimo de quantidade de parceiras), mas continuam submissas aos gostos de seus clientes e as ordens de seus cafetões.
Faço minhas as palavras do poeta: [...] Ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar, e que vai poder ser o que quis inventando um lugar. Onde "a humanidade" e a natureza feliz vivam sempre em comunhão... e a Tigresa possa mais que o Leão[...]

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Espelho, espelho meu...



Sempre que eu ando de trem, gosto de observar as pessoas.
Desde que escrevi o Post "No Brasil a pobreza tem cor, sexo e idade!" , fiquei pensando sobre a estética. 
No livro  " A situação da classe operária na Inglaterra" do Engels, ele descreve como vivem os operários nos bairros pobres da Inglaterra, em um capítulo ele descreve os operários fisicamente e dá detalhes dos malefícios do trabalho escaldante (jornadas de 16 horas diárias para os adultos e de 12 horas para as crianças) na constituição física e na aparência dos trabalhadores, sobretudo das mulheres.
Hoje no trem, fiquei imaginando o que Engels escreveria sobre a aparência das mulheres trabalhadoras (pq afinal, elas trabalham em média 18 horas por dia, entre o trabalho assalariado,o trabalho domestico,a maternidade e o transporte coletivo).
Veja, o ideal de beleza ensinado a muito tempo para meninos e meninas, desde os contos de fada, é ser branca, com cabelo liso, se possível de olho claro, jovem (se der pra ter peitão e bundão os homens agradecem). 
Existem alguns artifícios que podem fazer qualquer mulher bonita, porque afinal não existe mulher feia, existe mulher desarrumada  ,mesmo que ela trabalhe igual uma escrava e sofra com o calor no coletivo lotado na ida ou na volta entre sua casa e trabalho.
Fiquei olhando para as mulheres a minha volta, e pensando que de repente a forma como os programas de comédia retratam as mulheres pobres não é caricatura, pode ser real. Vi mulheres com o corpo deformado pela maternidade e pelo trabalho pesado (ao contrário do que as feministas da Gloss e Nova pensam, trabalho doméstico é bem pesado, por isso que elas pagam uma miséria pra outra fazerem o que é degradante demais para elas). Vi mulheres que tentam se enquadrar nesse padrão doentio de beleza - o padrão burguês), que compram roupas e sapatos da moda, usam maquiagem mesmo sem saber como usar os acessórios, se preocupam em manter seus cabelos lisos e tudo isso se torna cômico porque eu via mulheres descabeladas depois de um dia de labuta e com o rosto maquiado, derentendo de tanto calor, já que no trem, o ar condicionado nunca funciona.
Fiquei pensando porque fazemos isso? Porque nos desesperamos para alcançar esse padrão que nunca será nosso?
Hoje de tarde estava numa reunião, só com professoras doutoras, todas refinadíssimas em seus saltos, seus cabelos lisos e suas maquiagens perfeitas, e fiquei pensando na diferença entre os dois mundos.
Lembrei também sobre as luvas brancas: no período colonial e escravocrata no Brasil as damas que tinham condição de ter escravas, usavam luvas brancas como sinal de distinção e poder econômico  As luvas deviam estar sempre branquíssimas, pois quanto mais branca, mais evidente era que elas não realizavam o trabalho doméstico e portanto tinham posses para terem escravos domésticos.
Essa analogia da luva, me lembra muito a cena do trem e da reunião: obviamente as doutoras de maquiagem impecável, unha perfeita, saltos finíssimos são as mulheres da luva branca  e as trabalhadoras de maquiagem derretida as escravas. 
Porém, hoje estamos no capitalismo, a aparência é tudo: ninguém quer parecer escravo né mesmo. Então hoje, as escravas do Século XXI se esforçam para parecer com suas senhoras: se elas não sabem falar francês e comer um sushi, elas tentam usar a mesma roupa, o mesmo corte, a mesma maquiagem. E pensam, que assim, a fria distância entre o patrão e o trabalhador se desfaz na loja de departamento ou na concessionária de carro.
Nos falta espelho, para nos olharmos e vermos quem realmente somos, para descobrirmos quem podemos ser.
No fim, já dizia Engels em seu excelente livro de 1800 e algumas décadas: a diferença entre os proletários e a burguesia já começa no berço, e, eu acrescento:  só termina com a revolução.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Filme Indicação: J. Edgar (2012)


Não sou uma especialista de cinema (na verdade male mal sou especialista em alguma coisa, talvez em vagabundice).
Mas, mesmo assim, gosto muito de cinema, e escolho filmes para assistir como quem escolhe a melhor comida pra ser devorada. 
Este filme do Di Caprio é muito bom. Uma das melhores atuações dele que já assisti. A dobradinha Clint Eastwood e Di Caprio ficou muito boa.
De fato,o que me chamou a atenção no filme (além das ótimas cenas, envolvente história e excelente atuação), é o conflito secundário (ou não), que envolve o J. Edgar (protagonizado pelo Di Caprio).
Antes deixa eu explicar a história do filme: esse cara o J. Edgar foi o criador do FBI, isso, nos anos 10 do século passado. O filme inicia com os ataques dos anarquistas italianos a alguns políticos norte americanos (a mesma situação do filme Saco e Vanzzeti), a ameaça revolucionária era tão grande ao EUA naquele período, que eles criam uma divisão secreta para combater tais ameaças; e é ai que surge a figura do J. Edgar. Poderosíssimo,  chantageava todo mundo pra ter o que queria e poder estruturar tudo o que hoje sabemos ser o FBI.
O conflito secundário a que me referi,é o fato dele ser homossexual. Não é uma coisa explicita no filme, mas a medida que a história se desenvolve, torna-se nítida a homossexualidade do personagem principal.
Tem uma cena do filme, em que o J. Edgar está num quarto do hotel com seu assistente e ele diz pro assistente que vai se casar (ah,os dois estão de roupão e parece que acabaram de tomar banho), rola uma briga feroz por ciúmes, e o final o J. Edgar grita: não vá embora, eu te amo!
Ali, naquele momento, eu me dei conta o quão terrível é o conceito de heteronormatividade: ele amava sinceramente o outro, mas não podia manifestar este amor, não podia tocar ou beijar o ser amado em público e não podia vivenciar a experiência completa desse amor.
Ao longo do filme ele cria formas de manifestar esse afeto sincero, são formas confusas e doloridas.
Pela primeira vez na minha vida, entendi, o conceito de "sair do armário" - porque o armário sufoca, esconde, nega, oprime.
Não sou homossexual, e nem imagino o horror que deve ser negar a si mesmo, mas penso que vale a pena ver o filme, observar essa questão e pensar: e se fosse comigo?
Fica a dica para as férias!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

No Brasil a pobreza tem cor, sexo e idade!

Essa foto é muito emblemática!
Proponho aqui, o exercício de analisarmos esta imagem e compreender os significados implicitosna mesma.
Uma mulher negra, esteticamente feia (sim, é tão engraçado porque até nós negros, a achamos feia) com elementos esterotipados sobre a mulher pobre: desdentada, que tenta manter os cabelos penteados, exageradamente enfeitada (seja na maquiagem, nos acessórios ou na roupa muito florida). Atrás dela, uma mulher feia também, mas, politicamente emancipada (afinal ela representa a mulher que é presidenta da república). E em volta das duas, mulheres brancas e esteticamentes agradáveis e muito suculentas para os machos espectadores.
Podemos dizer que é uma imagem machista e racista? Machista com a mais absoluta certeza, agora racista... temos que considerar algumas questões primeiro.
Nas minhas andanças academicas pesquisando sobre a juventude brasileira, pude identificar algumas coisas; a primeira delas é o que perfil da juventude pobre brasileira se traduz da seguinte maneira: jovens entre 15 e 24 anos, marjoritariamente feminino, negro e pobre.
Fiquei me perguntando, afinal os negros são pobres, por que são mulheres e jovens? As mulheres jovens são pobres, porque são negras? Os jovens pobres são pobres, porque são negros e mulheres?
Claro, que aqui no texto estou trabalhando com a tendência populacional, mas de toda maneira os dados são bem claros quando descrevem o perfil dos pobres brasileiros e vão incluindo: baixa escolaridade (as mulheres são a maioria quando se trata de fracasso escolar e abandono da escola), por ter baixa escolaridade acabam sendo absorvidas pelo mercado informal e pelo subemprego, por estarem no sobemprego estão mais vulneravéis a violência e a criminalidade.
Além disso, não são contempladas com politícas de saúde, portanto acabam tendo muitos filhos, contraindo doenças como a AIDS e o HPV, e por terem dificuldade em bancar sua autonomia financeira, sofrem da violência doméstica por parte de seus companheiros.
Por mais estúpido que pareça, uma foto como aquela lá em cima, não é racismo: é o retrato da realidade.
Os dados oficiais sobre a população brasileira, sobre a violência em territorio nacional, sobre empregabilidade e escolaridade vão apontar que o Brasil pratica o racismo insitucionalmente (pois desde as leis abolocionistas vai excluindo o negro da sociedade e o empurrando para a miséria) quanto ideologicamente, pois a partir do discurso (seja televisivo, politico, cultural, sexista) vai legitimando o racismo e naturalizando -o.
Tomando as analises do Marcuse: quando a realidade deixa de ser alvo da critica e se normatiza, quando as consciências de opressor e oprimido tornam-se uma só, é sinal que estamos imersos na barbárie.
Penso que só nós resta o socialismo, como única saída viavél e necessária para o caos que vivemos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Santa Puta



Nem santa, nem puta! É assim que a maioria das mulheres que eu conheço gosta de se auto intitular.
Fico pensando qual o peso que está por trás de cada expressão dessa.
A puta a gente já sabe, afinal a puta é aquela que faz o que quer com seu corpo, inclusive vender o prazer que ele pode proporcionar.
Mas e a santa? O que é uma mulher santa? Existem mulheres santas? As mulheres santas, como elas são?
A maioria das feministas de vanguarda dizem que não querem rótulos, que querem ser o que quiser; mas não podemos desconsiderar o valor da linguagem. O viés ideológico das palavras, e principalmente a relação de poder que marca as palavras e a forma como elas são usadas.
Outro dia, estava conversando com uma jovenzinha evangélica e, que queria se relacionar com um homem casado. Ela dizia que sempre saia com homens casados por que não gostava de se envolver, e que embora fosse virgem, não se considerava nem santa e nem puta. Que sabia fazer um homem sentir prazer, mas embora fosse evangélica e sua religião condenasse o sexo antes do casamento ainda mais com homens casados, não se considerava uma puta, mas também não era uma santa evangélica dessas que não sabem o quer.
Veja, é uma jovem de 20 anos! Depois dessa conversa fiquei pensado o peso ideológico dessa expressão para nós mulheres  para o nosso processo de formação de identidade do ser mulher, a nossa construção de gênero. Ela me disse, que a mulher dele devia ser a santa, porque era casada e tinha um papel a desempenhar, e que ela era livre e podia sair com quem quisesse e quantos quisesse.
De repente, fiquei pensando que o mundinho oprimido das mulheres se resume a 2 grupos:
1º As solteiras - que disputam com as casadas seus machos (portanto as putas)
2º As casadas - que devem se comportar de acordo com sua posição social (portanto a casada)
Eu não pauto minha vida por essa ótica, mas se pensarmos bem, tudo leva a crer que é assim mesmo que a coisa funciona. Algumas pistas: liga no rádio, e espera tocar uma música, o enredo fatalmente vai ser, ela me quer, eu tô na noite, mas eu sou seu! Os homens são o máximo e sempre há mulheres disputando-os, e a que quer tem que mostrar pra ele que é melhor (mas um embate entre a santa e a puta). Abra uma revista dessas para mulheres tipo NOVA, MARIE CLAIRE, GLOSS e tantas outras porcarias, sempre haverão matérias sobre como segurar seu marido, como saber se ele está com a outra, dicas infalíveis de sedução que vai faze-lo esquecer todas as outras.
Isso sem falarmos nos filmes, novelas, romances. Sempre há a tensão entre ele e elas.
Se a santa é socialmente legitimada, a puta é socialmente necessária. E, nessa tensão entre a moral e o prazer vamos formando nossa identidade enquanto mulher.
Eu nunca tive problema nenhum em afirmar minha identidade PUTA, lamento que outras mulheres tenham receio de se assumir e investir nesse discurso falido de que não queremos rótulos. Nós rotulamos o tempo todo: mãe, feminista, médica, faxineira, advogada, amante e por ai vai.
Assumir sua identidade te ajuda a perceber quem você é, qual sua história, quais seus caminhos!
Experimente sair do armário, e assumir quem você é.
Só se liberta, quem se percebe acorrentado!

Ps: no meio dessa tensão politico ideológica presente na linguagem, cabe uma discussão muito pertinente sobre os Relacionamentos Livres, e seu suposto caráter libertador. Afinal, esse papo de ser livre é coisa de Santa ou de Puta?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Boceta de Pandora

 

Já que o projeto de pesquisa não sai, vamos falar dela: A Boceta de Pandora.
Já faz alguns dias que tenho andado com isso na cabeça, só matutando e matutando.
Alguns meses atrás fui assistir uma peça sobre Prometeu, e a peça era divida em quatro cenários que eram utilizados simultaneamente pelos atores e contavam a mesma historia em versões diferentes.
Por obra do cosmo, fiquei do lado que mostrava que a caixa de Pandora na verdade era a Boceta dela e que dali saíram todas as coisas maravilhosas para os homens mas também a desgraça que se abateu sobre o mundo doravante. Na peça, era encenado que os prazeres e a vida que emanavam da Boceta de Pandora, também seriam motivos de guerras entre os homens. Que para ter todo o conhecimento necessário para o progresso da civilização o homem teria que beber do leite que escorria de Pandora, mas teria que negar o desejo que emanava de sua Boceta.
Quando lembro dessa passagem da peça, fico pensando sobre o "mal" que se esconde em nós. Ou melhor, sobre o mal que a humanidade diz estar em nós.
Em muitas passagens, em todas as culturas e religiões, haverá explicação sobre nossa natureza malévola  e essas explicações servirão de justificativa para a legitimação de nossa opressão.
Se para Adorno, o mito já era uma tentativa de esclarecimento, ou seja, através da mitologia os povos antigos já buscavam maneiras de se esclarecer para superar a barbárie a violência em que estavam imersos através da razão; de certo mitos como o da Pandora e da Eva são formulações que intentam esclarecer alguma coisa.
Fico pensando que poder oculto é esse que descansa entre nossas pernas? Quão subversivo pode ser gerar a vida? Que força é essa que temos que desconhecemos?
Na nossa boceta damos a vida a humanidade, damos conhecimento (grandes cérebros de grandes homens saíram de uma boceta), damos o prazer. 
Marcuse, em Eros e a Civilização, ao analisar do ponto de vista da filosofia os escritos de Freud, elabora reflexões muito profundas sobre a pulsão de Eros (criação) e o prazer: para evoluir o homem teve que abrir mão de seus desejos imediatos e sublima-los, domestica-los, molda-los as necessidades da civilização rumo ao progresso, mas hoje no atual processo de coisificação que vivemos, a dessublimação desses instintos acontece no sexo puramente.
Eu observo as novelas, filmes, series e percebo como esse poder oculto da Boceta é demonstrado de maneira latente: a loira fatal, a amante poderosa, a viúva negra dos contos policiais.
Mas, na vida real nós ganhamos menos, somos vitima da violência domestica, estudamos menos, somos diariamente humilhadas com piadas e assédios moral e sexual, por isso me pergunto onde está todo esse poder, será que de fato ele existe?
Somos privilegiadas por gerarmos a vida, mas também somos malditas por tudo que em potência adormece em nós.
Somos escravas de nossas bocetas: bocetas que hora são sinônimo de libertação, hora sinônimo de opressão. 
Mais uma vez a realidade se demonstra cindida: entre aquilo que se concebeu por ser e aquilo que de fato o é.

domingo, 25 de novembro de 2012

Palestina Livre



Com a retomada dos ataques a Gaza, o FaceBook tem pipocado de imagens sobre a Palestina e sobre as belíssimas mulheres palestinas.
Aqui nos trópicos, hoje é dia latino americano e caribenho de combate a violência contra a mulher, e fiquei pensando, como deve ser o cotidiano das mulheres árabes em Gaza.
Ninguém nos conta nada sobre isso! A única coisa que sabemos sobre isso são as fotos belas que circulam pela internet dessas mulheres. Quem são, como vivem, o que fazem: isso não se fala.
Procurei na internet coisas sobre isso e não tive muito exito, mas me lembrei de um livro chamado "A história oculta do sionismo" de Ralph Schoenman. Embora, no livro o autor não fale especificamente das mulheres árabes em Gaza, ele nós dá pista da história do Sionismo e do genocídio contra o povo árabe que sempre viveu em Israel.
Vejo também nas redes sociais, e ouço na rua muitas coisas absurdas; coisas de pessoas que não conhecem essa história antiga, que começou no século XIX, sempre com o apoio da Europa Ocidental, e depois de 1941 com o apoio dos Estados Unidos também.
Recomendo a leitura do livro, ele tem informações fundamentais para compreender este processo.
Mas vou reproduzir aqui, um trecho de um livro chamado " A muralha de ferro" de Jabotinsky de 1923, que é citado no livro " A história oculta do sionismo". Este livro (A muralha de ferro), para os sionistas é uma referencia para sua articulação política. 
É um texto forte, mas que para os que ainda tem dúvida sobre a legitimidade da luta do povo árabe, deixa bem claro a compreensão que os israelenses tem sobre sua ações:

"Não cabe pensar em uma reconciliação voluntária entre nós e os árabes, nem agora nem num futuro previsível. Todas as pessoas bem-intencionadas, fora os cegos de nascimento, compreenderam a muito a completa impossibilidade de se chegar a um acordo voluntário com os árabes da Palestina para transformar a Palestina de país árabe em um país de maioria judia.Cada um de vocês tem uma ideia geral da história das colonizações. Tente achar ao menos um exemplo de colonização de um país que aconteceu com o acordo da população nativa. Tal coisa nunca aconteceu.
Qualquer povo nativo considera seu país como seu lar nacional, do qual devem ser donos absolutos. Nunca aceitarão outro mestre voluntariamente. Assim ocorre com os árabes. Conciliadores entre nós tentam nos convencer de que os árabes são uma especie de tolos que serão enganados com formulações que ocultem nossos objetivos básicos. Nego-me redondamente a aceitar essa visão dos árabes palestinos.
Eles têm exatamente a mesma psicologia que nós. Olham a Palestina com o mesmo amor instintivo e o mesmo autêntico fervor com que qualquer asteca olhava seu México ou qualquer sioux contemplava sua pradaria. Qualquer povo lutará contra os colonizadores enquanto lhe reste um fio de esperança de que eles possam evitar o perigo da conquista e da colonização. Os palestinos lutarão dessa forma até que que não haja mais o menor lampejo de esperança.
Não importam as palavras com que expliquemos nossa colonização. A colonização tem seu próprio significado, pleno e imprescindível, compreendido por qualquer judeu e por qualquer árabe. A colonização tem um só objetivo. Tal é a natureza dessas coisas. E tentar mudar seu caráter é impossível. Foi necessário desenvolver a colonização contra a vontade dos árabes  palestinos e a mesma situação se dá hoje.
Inclusive, um acordo com os não-palestinos representa o mesmo tipo de fantasia. Para que os nacionalistas árabes de Bagdá, de Meca e de Damasco aceitassem pagar um preço tão alto, eles teriam de negar-se a manter o caráter árabe da palestina.
Não podemos dar nenhuma compensação pela Palestina, nem aos palestinos, nem aos demais árabes. Portanto, é inconcebível um acordo voluntário. Qualquer colonização, ainda que a mais restrita, deve-se desenvolver desafiando a vontade da população nativa. Portanto, a colonização somente pode continuar e desenvolver-se sob um escudo de força que incluía uma muralha de ferro que jamais possa ser penetrada pela população local. Esta é nossa politica árabe. Formula-la de qualquer outro modo seria hipócrita.
Mediante a Declaração Balfour ou mediante o Mandato, é indispensável a força externa para estabelecer no país as condições de dominação e defesa pelas quais a população local, independente de seus desejos, veja-se privada da possibilidade de impedir nossa colonização. Em termos administrativos ou físicos. A força há de jogar seu papel, com energia e sem indulgência. A respeito disso, não há diferenças substanciais entre nossos militaristas e nossos vegetarianos. Uns preferem uma muralha de ferro formada por baionetas judias, outros uma muralha de ferro composta por baionetas inglesas.
À censura estúpida de que esse ponto de vista não é ético, respondo: "é totalmente falso". Essa é a nossa ética. Não há outra ética. Enquanto os árabes tiverem a menor esperança de impedir-nos, eles não venderão essas esperanças por nenhuma palavra doce nem por nenhum bocado apetitoso, por que não nos enfrentaremos como gentalha e sim como um povo, um povo vivo. E nenhum povo faz concessões tão grandes sobre questões tão decisivas, a não ser quando não lhes resta nenhuma esperança, até que tenhamos tampado qualquer brecha na muralha de ferro."

Essa passagem do livro, é suficiente para explicar e dizer tudo que deve ser dito sobre a prática sistemática de genocídio e extermino de Israel.
Conhecer a história sempre nos liberta e nos possibilita reelaborar o passado para um futuro melhor. Conhecer a real história sobre Gaza e Israel, conhecer a história entre o crime e a Policia do Estado Brasileiro, conhecer a historia da opressão do Homem sobre a Mulher pode nos dar indicativos para construirmos a mudança real que tanto necessitamos.
Dedico este post a figura silenciosa das mulheres palestinas e latino americanas. 
Dedico este post a nós: mulheres invisíveis que lutamos pela nossa libertação, pela libertação de nosso povo. Junto com os homens, pois a luta é dos homens, das mulheres, das crianças, dos índios,  dos palestinos, dos favelados, dos pretos, dos pobres, dos oprimidos e dos explorados.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O simulacro de Salve Jorge!


O maior engodo da história!
Hoje, na palestra da noite, o professor da UERJ começou contando o por que a pacificação das favelas cariocas é um simulacro: porque faz algo supostamente (a PM e o Exercito dizem que expulsam os traficantes e bandidos, mas na prática ele levam atrás dele o crime de volta, numa nova roupagem), mas na verdade nada do que deveria ser feito acontece de fato - é uma simulação.
Disse, que no Alemão, depois da pacificação, a policia exigia que os comerciantes registrassem os traficantes, para que os mesmos voltassem pra favela como trabalhadores, e poderem traficar em paz. Que a PM e o Exercito, estão vendendo armas pros traficantes de Manguinhos na Baixada Santista, que chegam caminhões aos montes na favela, caminhões carregados de armas.
Que as pessoas ficam restritas as regiões que moram, por que cada canto da cidade tem seus donos. E que a única diferença é que no Morro manda o burguês através do traficante e na zona sul o burguês com o apoio do governo.
Depois da palestra, fiquei pensando, que coisa maluca é essa que acontece aqui no Rio de Janeiro. Não que em SP, não role a mesma ideologia e divisão entre as regiões da cidade, mas quando se é de fora fica mais fácil analisar.
Ouvindo o professor falar, fiquei impressionada com o tamanho da coisa, e pela primeira vez, pensei no impacto na subjetividade das pessoas uma novela como a Salve Jorge.
Como deve ser para as pessoas que moram no Alemão, depois de tudo que foi a ida do exercito para lá ver tamanha invenção!
E o pior, para as outras pessoas que não sabem de nada. As outras pessoas das outras comunidades que serão pacificadas, vão ver essas mentiras e pensarão que será assim também com elas. 
Quantas gurias não devem estar por ai se achando uma Morena a espera de seu Capitão, General ou sei lá o quê?
Outra coisa que fiquei pensando, é em como o Rio de Janeiro é uma farsa. Quer dizer, o Rio das novelas não é o Rio real que vi nesses dois dias.
É que nem SP do PSDB: só existe na campanha eleitoral a cada 2 anos!
O mais maluco disso tudo, é pensar que é um politica institucional e global de extermínio. Não existem mais muros, as coisas estão imersas no mesmo contorno: acha um motivo e bora exterminar - na Bahia, tem que matar os traficantes, no Rio é a mesma coisa, em Sp também, na Palestina os rebeldes (se pudessem diriam que lá também tem traficante, mas se não entra nem comida, como vão dizer que entra droga né mesmo).
Dessa forma, o capitalismo vai varrendo os indesejáveis do mundo: todos aqueles que estão entre eles (os malditos burgueses) e o lucro (maldito lucro).
E assim foi, e assim vai continuar sendo. Tem morrido uma média de 15 jovens por noite em SP, aqui no Rio isso já aconteceu. 
Não é por acaso que o alvo são jovens: desde a questão de diminuir a taxa de crescimento (vai ficar um abismo entre as crianças e os adultos fazendo com que a população diminua), até do ponto de vista subjetivo, estão matando as nossas possibilidades de mudança, que são as novas gerações.
Estamos vivendo imersos num grande engodo, e me pergunto quando vamos despertar criticamente para a realidade!
Mas não vamos esperar que o cantar da hora seja dado pelo opressor.
Reitero: só a luta nos liberta! Sempre!

domingo, 18 de novembro de 2012

Você já amou alguém de verdade?


Ontem eu assisti Don Juan!
Fiquei encantada com a história!
Nem preciso falar do Deep, como sempre magistral. Mas, a própria história já falava por si mesma.
A ideia da dupla realidade: ele nasceu no México ou no Queens? As máscaras que escondem quem somos ou possibilitam sermos quem quisermos. O conceito de normal e da intervenção para a normalidade, como por exemplo, os psiquiatras e os remédios. O medo daquilo que é tido por diferente.
Viajei na história, e depois do filme fiquei pensando se é possível amar de verdade.
Afinal, o que é verdade na sociedade plastificada que vivemos?
Acho que nem o Don Juan amou de verdade, ou será que as 1532 mulheres com quem ele transou podem ser consideradas 1532 amores verdadeiros?
Outra aspecto do filme que achei muito interessante é quando ele chega no quarto da Sudana e acha que não poderá esquecer o amor do passado, mas descobre rapidamente que o amor não é indivisível, e que ele pode amar quantas mulheres quiser sem que uma coisa diminua a outra, ou um amor apague do coração o outro.
E a medida que a história vai se desdobrando, vão surgindo vários elementos importantes que acenam com questões que contribuem para pensarmos os relacionamentos afetivos.
O que faz uma pessoa assumir a identidade de Don Juan? Existem muitos homens assim, mas também existem mulheres (ou deveria existir).
Na compreensão dele, amor é possibilitar a mulher que ela sinta prazer, que através dele, ela consiga entrar em contato consigo mesma. E, nas horas em que ele está com ela, ele a ama profundamente. Embora tenha suas escolhidas como a Dona Ana (aquela com quem quer dividir sua vida), ele não nega a amar da mesma maneira outras mulheres. Não é perfeito isso?
Mas na vida real, aqui embaixo da linha do Equador, as pessoas tem um pavor enorme de amar.
Demonstrar amor é sinal  de fraqueza, de inferioridade. E obviamente, já que os homens não amam, só nós mulheres amamos (porque fomos ensinadas assim), sempre somos ridicularizadas por isso. Talvez, por ter medo de amar outro adulto, nós mulheres criemos aquela áurea de amor eterno com noss@s filh@s, porque nesse caso quem vai nos recriminar?
Por outro lado, acho que esse medo do amor (principalmente dos homens de serem amados, a menos que eles permitam que os ame, ai tudo bem), também tem muito do conceito de amar Deus sobre todas as coisas: se Deus é único, meu amad@ também deve ser e devo ama-lo acima de tudo, porém, assim como exijo de Deus a salvação da minha vida e a minha felicidade, exijo do ser amad@ a mesma coisa.
Diria Bordieu que isso é o habitus, a moral judaico cristã que está inculcada em nós que nem nós damos conta disso.
No livro Justine do Marques de Sade, Juliette é atéia, e por isso, se relaciona livremente com seus parceir@s (embora tenha interesses econômicos, em alguns momentos ela também os amou) e não sofre com suas escolhas e consequências  faz o que deve ser feito e vive feliz como se pode ser. Já sua irmã Justine, sofre por acreditar que assim como deve amar a Deus como todas as coisas, deve amar e se "entregar" a um homem só, porque o amor é único; o resultado é que sofre demais com as experiências que a vida lhe proporciona: afinal, na época de Sade a sociedade já estava inserida nos primórdios da ideologia da Sociedade Industrial (lembra, onde tudo virá mercadoria, e o prazer deixa de ser sublimado e se torna realidade nua e crua - sexo também é mercadoria).
Espero que na sociedade livre, o amor também seja livre, e que assim como Don Juan, amemos com sexo e sem sexo, porque na relação estabelecida entre ele e Don Octavio, havia amor: amor fraterno e cúmplice (um precisava do outro: a história de um impulsionava o outro).
Eu conheci um Don Juan uma única vez. Mas como todos nós sujeitos do nosso tempo, ele não soube amar.

sábado, 17 de novembro de 2012

Sobre crianças e cachorros...



Período de mudança de casa, torna difícil escrever.
Mas, em meio ao caos, ontem aconteceu uma coisa magnifica.
Fazia tempo que não tomava banho com os meninos. Como é divertida as curiosidades infantis!
Depois de massagem, origami no cabelo e de cantar João e Maria do Chico (meu mais velho chama João, ele adora músicas que tenham o nome dele).
Fiquei pensando por que escolhi ser mãe? Na verdade, acho que de uma certa forma a maternidade me foi imposta também, e eu só aceitei a imposição.
Na minha família (e acho que muita mulher vai se identificar com isso) nosso passaporte para a vida adulta é se tornar mãe. 
Não é sair de casa, não é perder a virgindade, não é tomar um porre, não é fazer faculdade. É ser mãe.
Ser mãe te dá acesso ao mundo secreto das mulheres: suas conversas, suas receitas, seus chás, seus banhos afrodisíacos. 
Então, eu penso, que ter sido mãe foi meu rito de passagem.
Minha passagem para a vida adulta: seja pelo reconhecimento do meu grupo, seja com as coisas da vida mesmo (trabalho, perseverança, paciência, dedicação).
Por um tempo, tentei ser a mãe que todo mundo diz que devo ser: meus filhos em primeiro lugar, a maternidade como centro da minha existência. Mas, com a chegada do feminismo, comecei a pensar o que é de fato ser mãe.
Não tenho uma reposta sobre isso, vou me tornando mãe a medida que eles vão crescendo. Aprendendo e ensinado. Me preocupo em educa-los dentro da moral revolucionária, me preocupo com o machismo. Mas não faço dos meninos o centro da minha vida.
É preocupante mulheres que endeusam seus filhos e filhas, declaram amor eterno e único. Normalmente fazem isso quando os danados são bebês.
Acho que é mais difícil amar um cabra de 17 anos, que só quer saber de baladas e skate, não toma banho, não arruma o quarto, só quer saber de encher a cara de sábado e pegar a próxima mina.Normalmente não vejo mães declarando seu amor por figuras como essa. São poucas!
Quando vejo essas declarações de amor eterno por uma criatura de 4 meses, penso que a maternidade deve ser algo tão frustante para algumas de nós, que temos que reafirmar esse ideal monogâmico e principesco de maternidade o tempo todo (eu amo você eternamente meu filho, você é meu principezinho, minha princesinha, vou te fazer feliz para sempre, estarei sempre com você).
Não penso muito sobre a maternidade, pelo incrível que pareça.
Vivo a maternidade a medida que meus filhos crescem. Minha experiência com crianças me ajuda muito, minha formação acadêmica também. Não sei se existe esse amor assim, desmedido.
Já pensei várias vezes como seria a vida sem eles.
Mas, sem eles não haveria banho com massagem e penteado de origami, nem discussões filosóficas acaloradas sobre a coisa inacreditável que é: sobre nós mulheres não termos pipi.
Queria falar sobre os cachorros, e sobre o quanto nos é enfiado guela a baixo o senso materno, que entre parir e ter cachorrinhos, algumas mulheres (normalmente as burguesas, ou pequenos burguesa, ou as que puderam estudar mais) tem filhotes e os tratam como filhinhos.
Mas a sala tá cheia de criança, e já ouvi mais de 100 : Oh mãe!
Fica para a próxima, inclusive li um artigo de uma revista de estudos feministas que discute sobre a maternidade: afinal ser mãe é um imperativo biológico, social ou cultural?





quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Quem vai me responder?

Pelo incrível que pareça esse post começa cheio de dúvidas.
Sei o que estou pensando mais não sei por onde começar. Meu erudito preferido diria que pelo começo. Mas minha cabeça tem andando cheia de dúvidas!
Não sei se consigo escrever tudo que venho pensando e realmente não sei onde está o começo.
Essa semana tô Kid Abelha demais, e ao ouvir as músicas fiquei pensando que essas mesmas caraminholas que martelam na minha cabeça já passaram pela cabeça de outras pessoas.
Mais uma vez, o que me move, é a "guerra" afetiva que são os relacionamentos.
O eterno cobiçado jogo de sedução. Ok, pode ser que eu não saiba brincar desse jogo (na verdade acho que nunca soube  e nem sei se quero aprender).
Por que as pessoas gostam tanto de brincar de gato e rato e fazem das relações um eterno jogo de conquista?
Sabe, tipo blusinha tomara que caia: cai mais não cai, fica ali na metade do caminho.
Por que as coisas não podem ser objetivas? Por que as coisas não podem envolver afeto?
Por que é um pecado mortal se apaixonar?
É tão bom a sensação da paixão. 
Por que não se pode demonstrar afeto, desejo, saudade? Afinal de contas, o que nos difere dos outros animais?
Por que criamos essas regras malucas e descabidas? Por que? Por que?
Passei os últimos dias pensando sobre isso, e consegui algumas pistas, que acho que precisam ser amadurecidas.
Um indicativo que me pareceu interessante (e tenho achado muitas pistas nas reflexões do Marcuse naquele livro a Ideologia da Sociedade Industrial), é que essa necessidade de competição, de valoração (lembrei da historia do taco e da garantia - poxa isso me deixou sentida, inquieta) tem a ver com o consumo, com a produção em massa, com a massificação das relações e a coisificação das pessoas.
Viramos objetos, e assim nos tratamos. O que pode ser mais instigante que um jogo de cartas, onde cada jogador tem que saber como se portar e como utilizar suas cartas?
Quando penso essas coisas me sinto tão descontente com o mundo e acho que nada mais tem jeito. Estamos contaminados por essa imundice que é o capitalismo, mais do que podemos supor.
Minha triste constatação é que sou produto com defeito. 
Não seria aprovada no teste de qualidade do capitalismo, acho muito coisificado essa coisa toda de  saber jogar.
Penso, que talvez isso seja assim pela minha meninice. 
Por essa mania desenfreada que tenho de amar, de estabelecer afeto.
Porque pra mim, o que me torna humana é a minha parca capacidade de sentir afeto, de doar afeto.
Mas não sei, hoje não sei nada.
Por mais confusa que eu pareça, gosto de doar o que tenho de melhor, seja lá o que isso for,
Não sei, ficou uma escrita meio intimista essa, sem grande analises. 
Hoje estou cansada, hoje eu só quero um abraço apertado e a incerteza de que tudo dará certo.
É assim, coisas da vida na cidade grande.
Coisas dessa cidade que não ama e não nos deixa amar.
Coisas que talvez alguém saiba entender e depois me explicar.

Ps: escrevo no blog porque quem pensa na velocidade que eu penso, precisa extravasar. Chega uma hora que a cabeça não comporta tantas inquietações. Tem gente que pinta, que desenha, que bebe, que cheira, que canta, que dança. Eu escrevo, eu só penso e escrevo. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sobre tacos e afins...


O capitalismo tem umas coisas interessantes.
Desde de pequenas, nós mulheres vamos aprendendo com as mulheres mais velhas como é uma mulher de verdade.
Coisas uteis como se livrar da cólica menstrual ou das espinhas, até coisas ultra ideologicas como se garantir para não perder seu macho.
Gosto de escrever aqui no blog sobre coisas que não saem da minha cabeça, e que ao escreve-las, vou descortinando minhas próprias limitações.
Esse tema sobre "confiar no seu próprio taco" e " você tem que se garantir", me perseguem desde minha adolescência lá na Brasilândia, onde o machismo impera e os meninos fodões eram literalmente disputados a tapa pelas gúrias na porta da escola.
Mas, ouvir isso de um homem adulto, formado, foi muito impactante. Depois disso, fiquei pensando o que tem por trás de duas frases tão comum na boca das pessoas, principalmente mulheres.
Acho que toda mulher, que já ouviu isso de um cara, ficou deveras ofendida. Porque é agressivo uma pessoa dizer para você: "se você não se garante minha filha, então deixa para lá, gosto de mulher que confia no seu próprio taco, que se garante. Se não se garante não faça".
Poxa, na hora pensei: que merda cara! 
Depois, passei o domingo refletindo sobre tudo isso, sobre o quanto nossa feminilidade é legitimada pelos homens o tempo todo. Tudo é feito para agradar e seduzir os homens: lingerie, corte de cabelo, maquiagem, até o pé da gente, o jeito que pintamos a unha de nosso pé é pensado como uma forma de ser sexy para seduzi-los.
E a partir daí, nós vamos buscando o aval dos homens para sermos mulheres atraentes.
Ok, confesso que também tenho essa postura, ás vezes me percebo mendingando o aval para me sentir sexy e atraente. Em partes isso tem haver com nossa formação para sermos submissas, e tem haver com o fato do mundo ser pensando sempre sobre a lógica masculina (lembra o papo de sermos a outra?).
Outra coisa que fiquei pensando sobre esse papo de "se garantir" tem um viés extremamente economicista.
Me lembra muito produtos que para serem consumidos, que para serem comprados pelos consumidores precisam ser atraentes e estarem na garantia (ninguém quer coisa velha, fora de moda ou vencida). E mais uma vez, nos torna, a todos, homens e mulheres, produtos a serem consumidos. Como diria o Marcuse, é a ideologia da sociedade industrial que torna tudo produto industrialmente preparado, portanto produtos em massa.
Essa ideologia estabelece um padrão de qualidade a ser seguido e as pessoas precisam se moldar a isso. Pé bonito é branquinho, com unha feitinha, lisisnho. Mulher bonita tá bem maquiada, bem vestida, bem escovada, bem magra (e bem infeliz, porque viver se preocupando com a balança e com a moda deve deixar qualquer um sempre insatisfeito). E, nos somos educados a achar belo somente esse padrão, e vamos nos pautando por ele em nossa vida. Tenso e complicado. Mudar nosso próprio olhar, exige muito esforço e muita reflexão.
Mais cedo, o Marcos me explicou que o taco da conversa era o taco de sinuca, porque remete a jogada, mira, precisão, habilidade, confiança do jogador. Ai nós rimos, porque eu disse: "fudeu, sou péssima com sinuca, sou miope, enxergo torto, não sei bater na bola, sou terrível com essas coisas".
Por isso pus a foto do taco mexicano, acho que cozinho melhor e porque as vezes queimo que nem pimenta.
No fundo, esse papo de jogada, taco e garantia me cansam, porque acho tudo isso muito pasteurizado.
Não jogo, não aposto, não invento.
Não sei rodar, é verdade. Por isso preciso de bons parceiros, porque embora não saiba nunca a hora de rodar, adoro uma boa música e ficar bem agarradinho, pele com pele!

Ps: era pra ter sido um post divertido, mas tá chovendo tanto em SP, que é impossível não ficar úmido também (dia de chuva nos deixa molhados emocionalmente, introspectos).

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Abaixo o enguiço dos neurônios!


Uso pouco o Twitter. Mas essa semana rolou uma discussão bem localizada entre algumas pessoas, dentre elas uma que eu sigo na rede, em torno do tema dessa musica do Kid Abelha, e mais especificamente sobre o fato da mulher que assume sua liberdade e emancipação sexual ser tida como "vagaba" (para usar termos polidos, porque aqui na minha terra ela vai ser puta mesmo).
Fiquei pensando em como o mundo anda maluco demais.
Nessa semana também, conheci um jovem, que participa da Rede Relações Livre - SP (não sabe o que é clique aqui), que assim como eu se aproximou do grupo para ter elementos para uma reflexão teórica e racional sobre os relacionamentos não monogâmicos (seja ele qual tipo for, como eu descobri lendo os textos da RLi).
A questão que me deixou em alerta foi o seguinte: será que esse movimento da RLi é mais uma das manifestações da ideologia da sociedade industrial (onde tudo vira produto e portanto deve ser consumido em massa, sem reflexão, analise ou critica), ou se trata de uma manifestação natural dos sujeitos como forma de se libertarem da opressão imbuída no relacionamento monogâmico? 
Se for uma manifestação natural das pessoas como forma de se libertar da opressão, então legitimamente é um processo revolucionário, e todo e qualquer processo revolucionário muito me interessa. Principalmente se for um processo que possibilita a libertação da mulher de seu papel histórico de a outra (a outra criatura criada a imagem e semelhança da perfeita criatura Adão). Somos sempre as que vem depois, e é possível que no movimento da RLi nós deixemos de ser a outra para ser a parceira, no sentido mais igualitário possível.
Esse jovem que eu conheci, é ligado a música e etc, e eu acho que se no meu caso pelo nosso meio social, eu e o Marcos sofremos uma pressão pela monogamia, no caso dele, o movimento é o contrario: deve haver uma pressão pelo amor livre.
Gostei muito de ter conhecido a RLi, me trouxe  muitas questões para pensar que tipo de relacionamento afetivo, sexual, social, político, econômico, cultural quero ter com o Marcos e com outros parceir@s.  A RLi foi uma indicação do meu já famoso ex-amigo, que já tem essa concepção de relacionamento como sua forma de relacionar-se com suas parceir@s.
Coisas bem interessantes são retratados nos textos e videos, desde  como assumir essa opção relacional e  questões como a emancipação social, sexual, emocional, politica e até econômica da mulher são elementos que considero muito de vanguarda e portanto esclarecedores.
Pensar o casamento no seu contexto econômico, e por consequência que a monogamia não é coisa de casais, é principalmente uma construção cultural que influencia os solteiros e a forma como os homens se relacionam com as mulheres as dividindo entre as de casar e as de "comer" (como coisa que são eles que comem nessa relação), e a forma como as mulheres se relacionam com os homens, jogando sobre eles ora sua salvação (o príncipe encantado) ou sua desgraça (o cafajeste).
Penso que o máximo que podemos fazer é construir com o outro a nossa liberdade, e só sendo livre, talvez, seja possível ser feliz.
Refletir os processos sempre é um bom indicativo para o esclarecimento e por consequência para a emancipação.
Que tenhamos mais prazer, menos controle, mais amor e menos opressão.
Mas, também não nos iludamos. Só a luta muda a vida!
Lutemos então, por um mundo onde amar seja tão natural quanto pensar, desejar, procriar, construir e ser feliz!
Afinal prazeres já temos de menos, produtos já temos demais!

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Redução da Idade Penal: 7 motivos para dizer não!



Há 22 anos, mais precisamente no dia 13 de Julho de 1990, era Promulgado o Estatuto da Criança e do Adolescente, como resultado direto da mobilização da sociedade civil como uma forma de garantir os direitos fundamentais a infância e juventude brasileira.
A concepção de infância e juventude no Brasil estava pautada pela lógica da doutrina da irregularidade (o filme Pixote: a lei do mais fraco 1981 - clique aqui para assistir, vai explicar bem a situação irregular da maioria esmagadora das crianças e jovens do Brasil até 1990).
Não é que após a promulgação do ECA a coisa modificou, mas pelo menos agora, há uma lei que determina que a infância e a juventude são objetos de atenção prioritária na formulação de politicas publicas e por isso mesmo são objeto de proteção integral (onde Estado, Sociedade, Família e a própria criança e adolescente também são responsáveis por si mesmos - conceito de protagonismo juvenil).
E, justamente, após 22 anos da promulgação de uma lei de vanguarda, não ter ocorridos mudanças significativas sobre a situação da infância e juventude no Brasil, que trago este post, para refletirmos sobre o porquê nós pais, educadores,jovens, sociedade como um todo, devemos dizer não a REDUÇÃO DA IDADE PENAL.
Abaixo apresento 7 motivos do porque dizer não:

1º -5,5 milhões de crianças entre 5 e 17 anos fazem algum tipo de trabalho no Brasil (dados da BBC Brasil), mesmo que elas consigam conciliar trabalho e escolarização, seu rendimento cai muito o que a leva a deixar o estudo, e quando adultos, comporem aquilo que Marx chama de mão de obra de reserva (trabalhadores que ganham baixos salários, trabalham sem direitos trabalhista, em sub-empregos ou como mão de obra semi escrava).

2º - De 48,4 milhões de pessoas entre 0 e 14 anos no Brasil, apenas 75% estão na escola, embora a Educação Básica no Brasil vá da Educação Infantil (inicio ao O ano de vida) até o Ensino Médio, o número expressivos de crianças na escola vai compreender a faixa etária de 7 a 14 anos, desconsiderando dois fatores ligados a necessidade da educação infantil: a garantia do desenvolvimento pleno e sadio e o fato de a maioria esmagadora dessas crianças serem de famílias trabalhadoras, o que coloca sua inserção na educação infantil como uma necessidade para a manutenção econômica de suas famílias  e portanto de sua existência.

3º - As crianças e adolescentes são as mais expostas a violência, sejam pelo fato de seus pais estarem no circuito da violência (presidiários ou ex-presidiários, traficantes,ladrões,prostitutas),morarem em regiões de favela sem saneamento básico e sem acesso aos serviços públicos elementares como acompanhamento médico na primeira infância crucial para o desenvolvimento.

4º - Os jovens pobres e miseráveis tem mais dificuldade em se inserir ao mercado de trabalho, muitas vezes por terem uma formação escolar defasada e de péssima qualidade, e essa dificuldade se torna um dos fatores determinantes para a entrada ao crime.

5º - As jovens entre 10 e 17 anos se tornam mãe muito precocemente, seja por falta de informação adequada e por dificuldade em acessar os serviços básicos de saúde (se já é ruim para as mulheres adultas que são mães fazerem o planejamento familiar e aprender a se prevenir,  quiça para essas meninas, afinal saber sobre sexo e sua própria sexualidade é coisa de puta).

6º - Segundo o Mapa da Violência, publicado recentemente,a cada 2 jovens brancos que morrem no Brasil, 20 jovens negros são assassinados, vitimas de extermínio por parte da policia ou grupos organizados por ela ou pela disputa de gangues e traficantes.Enquanto os dois jovens brancos mortos, serão vitima de acidente de transito na grande maioria das vezes.

7º - A dificuldade em criar, gerir e implantar politicas publicas para esse setor, demonstra o atraso politico do Governo Brasileiro com essa parcela da população (Programas como o PROJOVEM cujo objetivo é promover a formação escolar e profissional de jovens entre 14 e 24 anos oriundos dos setores mais pobres da classe trabalhadora, é a prova que são politicas ineficazes, seja pelo grande numero de abandono dos alunos, seja pela taxa de desemprego dessa faixa etária que não diminui, mesmo após 6 anos de projeto).

Eu poderia passar a tarde escrevendo vários motivos do porquê dizer não a Redução da Idade Penal, mas penso que os 7 motivos acima dão uma ideia geral da situação irregular (mesmo que a lei diga que não, que agora o paradigma é da proteção total e integral desses jovens) das meninas e meninos do Brasil.
Acredito, que antes de comprarmos discursos do Datena ou do próprio Facebook e até do Twitter, devemos nos informar mais, pensar,discutir, ponderar. Nossa juventude está imersa num universo de privação dos direitos e violência sistemática  e aceitar esse discurso de que eles são os geradores da violência, por isso devem ser punidos, é culpabiliza-los pelo descaso histórico que a Sociedade e o Poder Público lhes destinam.
Na prática a FUNDAÇÃO CASA já é uma cadeia. Tem dúvidas, veja esse vídeo de uma unidade desativada do Tatuapé, e pense qual a diferença disso que é mostrado para um presidio? As novas unidades não são diferentes.
Nossa juventude esta morrendo, cada dia mais. Os que não morrem na bala, morrem em vida porque não podem sonhar. Ai vão pro crime mesmo, como quem sabe um jeito de buscar a vida, mesmo que a vida bandida.
O  que me incomoda, é saber que entre o Pixote de 1981 e o Pixote de 2012, a única diferença são os anos que se foram. Nada além disso, mais nada.