terça-feira, 30 de outubro de 2012

Punany

Ontem eu tava zapiando a tv e em um dos canais da tv fechada, estava passando um programa sobre tendencias e comportamentos sexuais pelo mundo.
Sobre as formas que as pessoas em diversos países se relacionam sexualmente, é um programa interessante, que descreve desde bizarrices até coisas bem interessantes.
No programa de ontem um dos blocos tratou sobre um movimento norte americano chamado Penetração Mental (clique aqui para saber mais).
A coisa é mais ou menos assim: é um grupo de poetas todos negr@s que realizam intervenções artísticas cujo conteúdo dos poemas e das manifestações corporais é o erotismo. Achei uma delicia a ideia e a forma como a coisa é feita, por dois motivos que vou explicar.
Bom, o primeiro é o fato de serem negr@s buscando uma forma de exercer sua sensualidade e sexualidade entre os iguais e longe do estereotipo branco hétero burguês do homem negro reprodutor como cavalo e da negra animalizada e insaciável.
Segundo, porque qualquer movimento que trabalhe no sentido de me possibilitar, enquanto mulher negra, me perceber e reconhecer em mim a minha ancestralidade sempre são muito bem vind@s.
Demorei muito tempo, para desconstruir a forma como os homens (fundamentalmente os brancos) me olhavam: apenas como um objeto/brinquedo sexual exótico,  a negra que deve ser submissa e insaciável,  bem a gosto da pornografia que dita muitas vezes os fetiches e as fantasias sexuais (nunca soube ou li algum texto do Adorno ou do Marcuse que falasse da pornografia e da industria cultural, mas ontem vendo o tal programa, cheguei a conclusão de que até nossas fantasias são construídas pela industria cultural).
Ontem, enquanto via o programa me lembrei de muitas vezes da forma como a mídia e os veículos de comunicação (sejam eles pornô ou não), retratam a mulher negra. 
Automaticamente me veio a Chica da Silva na cabeça: uma mulher negra, forte, incrivelmente sensual e com um ar de selvagem, animalizado (e era justamente por isso que os homens da novelinha  - e os tele espectadores, piravam na personagem). 
Me lembrei também de um artigo que li sobre a construção do imaginário da mulher brasileira a partir da Juma de Pantanal e da Gabriela de Jorge Amado (quem quiser ler o artigo clique aqui), e que ambas eram mestiças, mas tendiam para a etnia negra. As duas personagens eram incrivelmente burras e submissas aos seus parceiros, todos brancos obviamente, e ricos é claro.
Veja, que ainda não entrei na pornografia propriamente dita, porque não é comum filmes, videos, fotos com mulheres negras (homens negros são mais bem aceitos), e podemos dizer segurante que a esmagadora maioria desse material envolvendo mulheres negras é de extrema violência e submissão, e as negras assumem no enredo das historinhas um papel sempre muito animalizado e de muita submissão (tudo bem que os filmes pornôs vão girar sempre me torno da violência e submissão etc etc etc, mas com as negras sempre acho que é como se as equiparassem a uma égua ou qualquer coisa do gênero).
Muito embora, esse grupo de Poetas Punanys, que trabalham com o conceito de Penetração Mental, ou seja, a estimulação sexual a partir de vivencias corporais sem penetração e felação e da declamação de poemas, o que é mais fascinante é o estimulo que essa vivência ocorra entre homens e mulheres negras principalmente como forma de autovalorização e de respeito a origens e a cultura negra, é por demais importante esse processo de imersão em nós mesmos negros e negras.
Não que eu seja contra as relações interraciais, ou que defenda que homens negros só devem se relacionar com mulheres negras e vice versa, mas estamos tão desprovidos de identidade, de autoestima, de valorização, que conhecer esse movimento me pareceu algo muito libertador. 
Para se libertar temos primeiro que nos reconhecer oprimidos, para então subverter a ordem e se emancipar.
Fiquei com essas coisas na cabeça, e achei que cabia aqui essa reflexão.
Existem muitas coisas para pensarmos sobre sexualidade, principalmente nos marcos do capitalismo.
Mas, se a mulher branca burguesa é oprimida, penso que a mulher negra é explorada e oprimida. Só uma olhada bem rápida nos programas do tipo A Liga (Tv Bandeirantes) sobre prostituição, 90% das putas e das travestis são negras, pardas e nordestinas: trabalham na rua, se expõe ao risco da violência e das doenças, ao crime e ao tráfico. Enquanto os outros 10%, são as putas de elite que atendem em flats chiquérrimos para os executivos darem umazinha no horário do almoço.
Escolhi a imagem acima, porque ela me lembrou uma pessoa muito querida (embora hoje não tenhamos o mesmo contato, mais enfim, coisas dos muros), com quem conversei muito sobre essas e outras coisas, e a quem devo muito das reflexões que me afloraram no último período. 
A imagem, me transmite a sensação de liberdade e de subversão  porque afinal, o que há de mais libertador que uma mulher poder sentir e transmitir prazer, num processo consciente de si mesma com seu corpo?
Se um dia for aos Esteites, vou procurar ir nas apresentações  dos Poetas Punanys.Deve ser magnífico.
Ah, esqueci de dizer lá em cima, o que quer dizer Punany. 
Punany é uma gíria caribenha falada pelas negr@s e caribenh@s para designar a vagina. 
Na tradução, Punany quer dizer flor cheirosa.