domingo, 18 de novembro de 2012

Você já amou alguém de verdade?


Ontem eu assisti Don Juan!
Fiquei encantada com a história!
Nem preciso falar do Deep, como sempre magistral. Mas, a própria história já falava por si mesma.
A ideia da dupla realidade: ele nasceu no México ou no Queens? As máscaras que escondem quem somos ou possibilitam sermos quem quisermos. O conceito de normal e da intervenção para a normalidade, como por exemplo, os psiquiatras e os remédios. O medo daquilo que é tido por diferente.
Viajei na história, e depois do filme fiquei pensando se é possível amar de verdade.
Afinal, o que é verdade na sociedade plastificada que vivemos?
Acho que nem o Don Juan amou de verdade, ou será que as 1532 mulheres com quem ele transou podem ser consideradas 1532 amores verdadeiros?
Outra aspecto do filme que achei muito interessante é quando ele chega no quarto da Sudana e acha que não poderá esquecer o amor do passado, mas descobre rapidamente que o amor não é indivisível, e que ele pode amar quantas mulheres quiser sem que uma coisa diminua a outra, ou um amor apague do coração o outro.
E a medida que a história vai se desdobrando, vão surgindo vários elementos importantes que acenam com questões que contribuem para pensarmos os relacionamentos afetivos.
O que faz uma pessoa assumir a identidade de Don Juan? Existem muitos homens assim, mas também existem mulheres (ou deveria existir).
Na compreensão dele, amor é possibilitar a mulher que ela sinta prazer, que através dele, ela consiga entrar em contato consigo mesma. E, nas horas em que ele está com ela, ele a ama profundamente. Embora tenha suas escolhidas como a Dona Ana (aquela com quem quer dividir sua vida), ele não nega a amar da mesma maneira outras mulheres. Não é perfeito isso?
Mas na vida real, aqui embaixo da linha do Equador, as pessoas tem um pavor enorme de amar.
Demonstrar amor é sinal  de fraqueza, de inferioridade. E obviamente, já que os homens não amam, só nós mulheres amamos (porque fomos ensinadas assim), sempre somos ridicularizadas por isso. Talvez, por ter medo de amar outro adulto, nós mulheres criemos aquela áurea de amor eterno com noss@s filh@s, porque nesse caso quem vai nos recriminar?
Por outro lado, acho que esse medo do amor (principalmente dos homens de serem amados, a menos que eles permitam que os ame, ai tudo bem), também tem muito do conceito de amar Deus sobre todas as coisas: se Deus é único, meu amad@ também deve ser e devo ama-lo acima de tudo, porém, assim como exijo de Deus a salvação da minha vida e a minha felicidade, exijo do ser amad@ a mesma coisa.
Diria Bordieu que isso é o habitus, a moral judaico cristã que está inculcada em nós que nem nós damos conta disso.
No livro Justine do Marques de Sade, Juliette é atéia, e por isso, se relaciona livremente com seus parceir@s (embora tenha interesses econômicos, em alguns momentos ela também os amou) e não sofre com suas escolhas e consequências  faz o que deve ser feito e vive feliz como se pode ser. Já sua irmã Justine, sofre por acreditar que assim como deve amar a Deus como todas as coisas, deve amar e se "entregar" a um homem só, porque o amor é único; o resultado é que sofre demais com as experiências que a vida lhe proporciona: afinal, na época de Sade a sociedade já estava inserida nos primórdios da ideologia da Sociedade Industrial (lembra, onde tudo virá mercadoria, e o prazer deixa de ser sublimado e se torna realidade nua e crua - sexo também é mercadoria).
Espero que na sociedade livre, o amor também seja livre, e que assim como Don Juan, amemos com sexo e sem sexo, porque na relação estabelecida entre ele e Don Octavio, havia amor: amor fraterno e cúmplice (um precisava do outro: a história de um impulsionava o outro).
Eu conheci um Don Juan uma única vez. Mas como todos nós sujeitos do nosso tempo, ele não soube amar.