segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Se ela fizesse ...


Essa história não é real, no Brasil aborto é crime. 
A mulher pode ser presa e julgada como um assassina fria e cruel. 
Se um dia me perguntarem se conheço alguma mulher que já abortou, negarei e nego, infelizmente, esse é um segredo que é só nosso.
Ela tinha 15 anos, estava gravida de seu primeiro filho.
Sua mãe, gentilmente lhe convenceu a cometer o fato, não havia escolha: o que decidir?
Ela tomou 4 comprimidos, teve doze horas de trabalho de parto.
Chorava baixinho, sua mãe não queria que ninguém soubesse. Passou a noite com dor e com medo, e se Deus brigasse?
Mas, ela sabia, não podia ter a criança. Como ia viver com um marido de 19 anos, mãe aos 15? E a escola? E as pessoas?
É verdade, ela transou e gozou. Foi bom. Ficou gravida. A camisinha estorou.
Pensava e chorava, pedindo para quem quer que fosse (poderia até ser Deus, se ele não estivesse muito bravo),  que não precisasse ir para o médico.
Pela manhã, sozinha, no banheiro de casa, espeliu o feto, caiu na privada. Ela olhou e pensou: que triste!
Deu descarga, tomou banho e apenas sorriu quando disse: acabou mãe.
Ela cresceu, virou mulher, teve filhos.
Mas, ela sempre pensa no que teria acontecido!
É assim a vida, as mulheres são coisas...
Coisas que os homens querem brincar, coisas que os homens gostam de caçoar.
Mas e a verdade? A verdade, é que no Brasil por ano, morrem 180 mulheres vitimas de aborto inseguro.
E, quem sabe quantas morrem por dentro? Quem sabe quantas mulheres perdem uma parte de si, sozinhas em casa, em clinicas, seja do jeito que for?
Quem sabe da dor, da culpa, do medo?
Quem sabe?
Se ela fizesse um aborto, e se pudesse contar com o apoio e orientação, se ela pudesse dizer e compartilhar. Se ela pudesse.
Se todas elas, todas nós, pudéssemos um dia ser gente de verdade, sem aborto inseguro, sem estupro, sem violência doméstica, sem assedio sexual, sem jornada quíntupla, sem opressão estética.
Se a gente pudesse ser gente...
Se a gente pudesse... 
Talvez, ela não fizesse...