sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Quando lavar o banheiro se tornou um ato político .


Ah, o FaceBook.
Nada como ele para agitar essa tarde quente e monótona. 
Como diria o poeta: dias quentes e longos pagando paixão.
A pessoa que vos escreve, postou lá em terras virtuais (é, a terra dos amores eternos - SQN), que o seu compa tem feito com muito zelo as tarefas domésticas. Algo, como se fosse uma comemoração.
E, de fato, um homem lavar o banheiro, na sociedade machista que vivemos, deve ser muito bem comemorado (e usado de exemplo, para que outros homens aprendam).
Por que afinal de contas, ser feminista liberando a companheira para sair com quantos parceir@s quiser é fácil (até por que, o cara também se beneficia disso). Duro mesmo é cuidar dos filhos por igual, cuidar da casa por igual e assumir seu machismo sem recalque.
Esse papo todo de banheiro e opressão, me lembrou um trecho do livro do Marcuse - A ideologia da sociedade industrial, quando ele explica o processo de dessublimação repressiva.
É mais ou menos assim: para o desenvolvimento da civilização, o homem (ser humano) teve que reprimir suas pulsões sexuais, e sublima-las para outras atividades produtivas, mas hoje, no atual estagio de desenvolvimento tecnológico da sociedade industrial, o homem não precisa mais fazer esse controle excessivo; o problema, é que o processo inverso da sublimação, o que Marcuse chama de dessublimação, acontece de forma arbitrária ao desejo do individuo, e isso devido, a cisão entre o desenvolvimento da cultura (desenvolvimento das forças produtivas) e o desenvolvimento da civilização (desenvolvimento ou formação dos indivíduos). 
Ok, o ser humano vive no espaço, numa realidade completamente artificial (graças ao desenvolvimento tecnológico) mas, aqui na Terra, a humanidade morre de fome, devido a má distribuição e ao mau uso dos recursos naturais e produtivos.
Se, pensarmos no campo da luta feminista, temos a mesma questão posta.
O homem moderno, reconhece que a mulher não é sua propriedade, e que deve ser livre para se relacionar com outros parceir@s, e ai vemos o PoliAmor, As Relações Livres e etc,  e cabe frisar, que toda essa discussão de poliamor e afins, é uma discussão fortemente marcada pela teorização, ou seja, cultura (cultura no sentido que a teorização estaria dentro do campo do desenvolvimento tecnológico, enquanto técnica ou algo teórico, portanto técnico). Mas, as pequenas coisas, ligadas ao cotidiano, não teorizadas, como o trabalho doméstico ou a não garantia de creche nos espaços de militância (porque na maioria das vezes nos espaços de militância, são os homens que dirigem e decidem as coisas), acabam caindo no esquecimento ou sendo banalizadas e naturalizadas.
Obviamente, a libertação da mulher do seu espaço de opressão, está ligada a todos os campos: politico, sexual, emocional, domestico, materno, escolar, acadêmico, econômico, profissional, religioso e tantos quantos surgirem e forem necessário.
Homens, entendam meus queridos, toda e qualquer relação entre um homem e uma mulher (e aqui não estou falando biologicamente, escrevo para qualquer individuo que se reivindique homem ou se reivindiquem mulher) estará fatalmente marcado pela relação assimétrica de poder entre os gêneros. 
Relação essa criada e legitimada em nossa sociedade; no entanto, o que fará essa relação ser o mais igualitária possível é a nossa capacidade de estarmos atentos e de sermos fortes para lidar com a opressão que nos ronda feito um fantasma.
Caminho longo e difícil.  Sejamos honestos com nós mesmos, e vamos nos dando puxões de orelha sempre que necessário.
Para mim, até que se prove o contrário, todo e qualquer homem é meu inimigo (mesmo meus filhos, que saíram das minhas entranhas), é a luta pela libertação, que nos mostra quem é nosso/a compa.
Se precisar dizer será dito, se precisar cobrar será cobrado. Quer gostem ou não.
Já perdi amigos, desfiz laços familiares consanguíneos, e vire e mexe sou olhada de canto de olho em vários lugares. 
Mas isso, faz parte da minha escolha de dizer não a submissão. Pode ser meu pai, meu marido, meu chefe, meu orientador, pode ser DEUS. Sempre que eu me sentir ameaçada ou oprimida, direi não e reagirei a altura.
Que nada nos defina, a não ser a liberdade.