terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sobre o corpo e a maternidade


A coisa mais gostosa, quando nosso filho é bebê, é ficar deitado sentindo a pele macia e novinha do bebê.
Mas, a medida que os filhos crescem, os momentos de contato pele a pele vão diminuindo.
Gosto tanto de ficar deitada com os meninos na cama, brincando, se beijando: a gente brinca de salão de beleza, brinca de massageador, brinca de guerra de coceguinhas...
Sempre fico com a sensação, de que mesmo quando forem adultos, eles saberão que meu corpo ainda é um espaço deles, e que desde o tempo da gestação, não há uma barreira entre nós.
É uma coisa simbólica, mas acredito que no físico, o simbólico se concretize; e que ao poder tocar meu corpo sem pudor, eles sentirão que eu estou sempre ao alcance deles.
Cresci, e me lembro muito pouco de poder tocar minha mãe ou meu pai, nem mesmo depois de adulta. Um simples abraço é motivo de constrangimento.
Demorei muito, para compreender a função afetiva e emocional de tocar o outro. Foi preciso conviver cotidianamente com meu companheiro, que pude vislumbrar a infinitude que é a relação dos corpos.
Que muito antes, de ser um objeto sexualizado, o corpo é um território, onde o outro pode chegar a mim, e eu posso ter o outro, mas aprendi também, que meu corpo é a parte mais importante de mim, da minha existência.
Muito mais do que ensinar meus filhos a não mentir ou não roubar (até por que, um dia pode ser necessário roubar e mentir), muito mais do ensinar a moral e os bons costumes, gosto de pensar que ensino para meus meninos, que o mundo pode ser tudo que quisermos, que o amor começa por se amar e amar sua família, amigos, camaradas.
Permito que meus filhos tenham acesso ao meu corpo, por que assim, no processo de desvelamento da vida, juntos, podemos sentir e ter uns aos outros.
Não existe lugar melhor do que o aperto dos bracinhos pequenos e os beijinhos com gosto de bala de maça verde.
Que um dia, ser mãe nos torne menos escravas do cuidado infantil e doméstico, e sim, mulheres que se constroem e se percebem como sujeitos históricos na dialética da vida com as crianças e os jovens.
Que ser mãe, seja um processo de amadurecimento e fortalecimento da humanidade que há em nós mulheres, e não uma cadeia de obrigações morais e um labirinto de síndromes e traumas.

Ps: Escrevo esse post pensando numa amiga querida, a Iara Domingos, mãe fresca e que sempre me lembra (eu, a mais calejada) da dor e da delicia de se descobrir materna.