sexta-feira, 29 de maio de 2015

Amores líquidos, Tinder e a nova jontex (ultra sensível)


Uma vez conheci um cara, que me disse que gostava de trocar fotos com pessoas do Tinder, veja bem, fotos picantes e picosas.
Na época, o tal Tinder era o fervo entre a turminha das redes sociais, e eu pobrecita que sou, não tinha acesso a tal aplicativo.
Pois bem, o tempo passou, mudei de aparelho e cai na burrada em instalar o aplicativo.
Burrada, não por que não goste de fotos picantes e picosas, mais por que o  aplicativo é no minimo curioso, para não dizer estranho.
A minha primeira impressão é que só existem homens brancos, saradíssimos e que vão pra Europa, no tal aplicativo.
Segundo, é o machismo absurdo, que normatiza as relações virtuais.
Por exemplo, se o cara for teu match mais você puxar papo no inbox, ele não retorna, por que até no mundo virtual a boa máxima de que os homens devem tomar a iniciativa, vigora e com status de verdade católica.
Ai te perguntam: é casada? Digo sim. Silêncio. Tem filhos? Digo dois. E então, acontece a parte que mais gosto: os comentários regulatórios sobre minha libido, meu corpo e a falta de televisão na minha casa (detalhe, em casa tem duas tvs, com tv a cabo hein!). 
Outro dia, um cara me disse que ia me mandar um pacote de Jontex ultra sensível, para ver se eu aprendia a usar camisinha e não ter mais filho.
Eu, do alto da minha sutileza hipopotâmica de feminista, comunista, trotskista, radical ao cubo respondi docilmente: minha conta é tal tal tal, não esquece de mandar a pensão, por que, se tá preocupado com a quantidade de filhos que tenho ou terei, é por que quer me ajudar a sustentá-los (mandei até carinha feliz hein!).
Eu tento viver a pós modernidade, ser descoladinha, trocar fotos bucetantes e picosas pela rede dos computadores.
Eu queria viver amores líquidos com Jontex ultra sensível em encontros marcados pelo Tinder.
Mais sou chata demais, feminista demais, radical demais e sem paciência demais.
Não sei ser sexy, dócil, meiga e cordata.
Defeito de fabricação e formação; o tempo do barraco de palma na Brasilândia foi duro, e fez de mim uma pessoa bruta.
Bruta porém livre.
O aplicativo continua lá, e eu continuo me divertindo com as fotos e as caras dos boys brancos hétero sexy de meia idade. Alguns tentam puxar papo, mais no primeiro "adugue", já pedem pra sair! 
Como diria Mano: a vida é sofrida, mais não vou chorar ;)





quinta-feira, 28 de maio de 2015

Um Merlot faz você feliz!


Vivemos tempos difíceis. A felicidade anda cada vez mais estranha, ou cara! Depende do ponto de vista.
Na minha infância, felicidade era ter o pai em casa, ou danone na geladeira. Hoje, ser feliz implica ter aquele peso, aquela roupa, aquele emprego, aquela viagem, tomar aquele vinho, namorar aquela pessoa, militar naquele espaço.
Há um tempo atras eu pensava, que isso era coisa do mundo adulto, por que nossa noção de mundo está ligada as nossas experiências imediatas, e, já que no mundo dos adultos, tudo se resume a pagar e comprar (e portanto trabalhar), eu pensava que todas essas coisas eram dessa fase da vida. 
Mais hoje vendo as crianças, assistindo os desenhos, lendo as histórias, eu começo a perceber que no mundo delas, as coisas também são assim; ser feliz é ter aquele brinquedo, estudar naquela escola, ter aquele amigo, usar aquele tênis, jogar aquele jogo.
Fico pensando afinal, o que é a felicidade?
Me parece que ela é um ideal inatingível, mais que fomenta a economia. Mesmo, quando a felicidade é um estado de espirito, esse estado de espirito só pode vir depois de um estado de compra. 
Para mim, a maior merda de tudo isso, é que para muitos de nós, o estado de compra não é tangível. As vezes acho, que é por isso que hoje os hipermercados mais parecem um shopping: por que ai, nós que somos a ralé da cadeia consumista, vamos lá comprar comida, fazemos um cartão de crédito e podemos consumir de tudo um pouco, e saímos felizes, por que lá é lugar de gente feliz.
Bem, aos 30 anos, aprendi que a felicidade é branca, magra, jovem e usa GAP, talvez Collins, só não lojão do Brás.
Me lembro, de uma mãe de um adolescente infrator que eu atendia, era uma mulher muito interessante. Sempre que ia no seu barraco, fazer visita, gostava de ouvi-la falar sobre sua vida. Uma vez, enquanto fumávamos um cigarro e bebíamos café requentado, ela sentada na porta do barraco, descabelada, chorava e me dizia: "que vida de merda, meu filho preso, minha filha puta de traficante, meus meninos sem roupa, e a única coisa que a novela me manda fazer é ir na manicure, isso é vida Jaque? Que merda de mundo!".
Demorei muito pra entender as coisas que ela dizia, e hoje (acho) eu entendo. 
O comercial do Pão de Açúcar me diz: um Merlot faz você feliz! O programa Saia Justa me diz: desapegue que você vai ser feliz, mais não esqueça de pegar sua calça jeans que te emagrece e sua bolsa Channel. A novela me ensina que se eu for uma pessoa humilde, que sei meu lugar, no final, vou ser feliz.
E a vida continua: meninos morrem aos 14 anos, meninas são estupradas dentro do banheiro da escola, mães visitam seus filhos na cadeia, homens morrem aos poucos esmagados pelo trabalho e falta de perspectiva.
Vai ver, perto da casa deles não vende Merlot, por que lá não é lugar de gente feliz.