terça-feira, 3 de novembro de 2015

Da Buceta



O feminino (na perspectiva da grande maioria), na modernidade é essencialmente marcado pela BUCETA.
Tanto, que existem feministas que localizam ai o ponto central da opressão, e levantam a bandeira que por isso as camaradas transgênero não poderiam reivindicar para si o feminismo.
Eu, particularmente acho isso um erro, mais eu diria que é um erro ideológico (no sentido que Marx descreve a ideologia como a realidade invertida), por que se nossa opressão está tão somente em nosso órgão, basta negarmos sua existência e uso, que consequentemente a opressão deixará de existir. Acertei? Ou têm mais?
Do meu último post pra cá, tanta coisa aconteceu. Mais o fundamental, é o meu processo de religare com meus ancestrais.
É importante dizer, que assim  como os filósofos da Escola de Frankfurt entendem que a mitologia grega é uma explicação primária da realidade, é possível pensarmos que os itáns da tradição yorubà (as histórias dos Órixas, como conhecemos no Brasil), também são uma explicação da realidade.
No pensamento oriental (bora lembrar da geografia: o continente africano está no oriente e, portanto marcado, pela lógica do pensamento oriental) não existe o "masculino" e o "feminino" tal qual nos elaboramos no ocidente. O que existe são energias que se completam equilibrando-se e desequilibrando-se permanentemente.
Todos os dias aprendo no religare, que as energias negativas e positivas estão dentro de nós constituindo nossa essência.
Sendo positivo aquilo que o ocidente chama de feminino, por que é a energia da criação e da inteligência.
E o negativo, aquilo que o ocidente chama de masculino, por ser a energia da destruição e da irracionalidade.
O que potencializa um viés ou outro, é justamente as construções filosóficas sobre a vida, os indivíduos, a sociedade, a cultura, o sexo, o prazer, a felicidade e por ai vai.
Nós, optamos intencionalmente por valorizar a nossa essência negativa, ou em palavras ocidentais: o MASCULINO.
Mesmo nós mulheres portadoras da BUCETA, temos em nós também o negativo, mas em nossa formação fomos ensinadas a valoriza-lo e cultua-lo como algo fundamental na vida.
E ele tá ai, em tudo: no poliamor (quando o foco é a quantidade de parceiros e de surubas e a tal liberdade de não se "prender" a ninguém), na condenação em praça pública de mulheres que não conseguem romper seus monstrinhos internos e não conseguem simplesmente sair por ai bebendo todas e fumando - tal qual os homens, ou quando condenamos a maternidade e o casamento (mesmo sabendo, que para nós pretos e pretas, o casamento é algo negado historicamente, nós nuca tivemos o direito de constituir família, vinculo, afeto, camaradagem entre os iguais).
Ok, vocês dirão que casamento e maternidade não aponta para a libertação dos gêneros, mas tudo nesse mundão de Odudua que o pensamento branco, burguês, liberal aprisionou nessa bolha maligna chamada racionalidade tecnológica (lembra disso? é a vida em todas suas expressões moldada e marcada pela razão técnica consagrada com a industrialização; quanto mais racional e mais técnico melhor: do sexo a leitura de um livro).
Tudo em nós está contaminado pelo individualismo, pela segregação, pela violência, pela dominação.
Na boa, euzinha, aqui sozinha com minhas inquietações, penso que devíamos voltar pra BUCETA.
Não sexualmente, mais filosoficamente, deveríamos pensar mais no que significa  a BUCETA (seja a da Pandora ou seja a minha mesma ou a sua ou a da sua mãe ou de qualquer outra mulher viva ou morta), devíamos pensar nos possíveis desdobramentos de um mundo, onde o centro não fosse o falo, mais sim a BUCETA.
Talvez, uma corrente filosófica chamada a FILOSOFIA DA BUCETA para pensarmos a fundo as perspectivas de um mundo sem violência, sem dominação, paritário e permanentemente criativo.
Tenho pensado muito sobre isso, tenho pensado muito.


Ps: Não sei se todo mundo sabe, mais a Caixa de Pandora, nada mais é que  a BUCETA. E os homens escolheram contar que todas as coisas horríveis estavam ali, só não disseram que todo o poder de criar também.

Ps1: Meu religare chama candomblé.