terça-feira, 8 de março de 2016

O que precisa ser dito... mais a maioria de nós não gosta de dizer



No começo desse ano, em Fevereiro, Francisca uma líder sindical campesina, negra e moradora de uma cidade do Maranhão, foi brutalmente assassinada e estuprada.
Seu corpo negro e gordo, foi encontrado nu e ensanguentado, marcado pela tortura e jogado numa poça de lama.
Na época do fato, não vi nenhum textão indignado de nenhuma feminista aqui do sudeste, nem muito menos de nenhuma feminista, nem mesmo das feministas negras da da high society virtual das revistas de esquerda e textões, ou da geração tombamento.
O que a morte de uma trabalhadora do campo, negra e gorda pode ter de glamoroso para nos? Quantos likes e um textão sobre isso no Facebook pode ter?
Ás vezes, tenho a impressão de que ser feminista negra em nosso mundo pequeno burguês onde as pessoas letradas e politizadas circulam, se resume a holofote e elogios, e um bocadinho de brigas virtuais e dramas pós modernos marcados por ser bloqueada no Facebook.
Hoje, dia 08 de Março, dia da mulher (sobretudo das mulheres brancas), eu me pergunto, afinal de contas: o que quer o feminismo negro?
Claro, que o capitalismo nos ensinou que os conceitos se consolidam a partir da noção de opostos, mas, muitas vezes nos vejo num permanente processo de negar o feminismo "branco", mas não nos vejo pensando e realmente elaborando nossas pautas e bandeiras.
É como se nosso feminismo negro, fosse um feminismo branco feito por mulheres de pele preta e quiçá desejando as mesmas coisas.
Mais no fundo, a gente não se olha, não se conhece, não se cumprimenta, não se pensa e sobretudo, não avança sobre a realidade.
Tenho nas minhas redes sociais muitas feministas negras atuantes nos círculos acadêmicos e culturais, mais nenhuma delas sequer escreveu um textinho sobre sermos todas Francisca.
Sabe o que têm de me deixado angustiada? É que no final das contas, somos e reproduzimos exatamente aquilo que questionamos: somos feministas negras que reproduzem o pensamento branco fantasiado de uma retórica preta, mas que tem pouco eco e reflexo na realidade.
Será que estas linhas são exagero da minha parte?
A imagem do corpo negro, gordo de uma mulher camponesa e não acadêmica, jogado em meio a lama, ensanguentado e torturado, me diz que não.
Se queremos emancipar as pretas, e por consequência os pretos, temos que repensar nossas táticas e estratégias, por que se ser diva fosse solução para opressão, as grandes atrizes e cantoras negras nunca teriam sofrido com o racismo.
Pé no chão e cabeça na luta.
Francisca presente! E todas nos também!