segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Isso também é Brasil...




Vitória, Espirito Santo, Brasil.
Mas podia ser Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Maceió, Porto Alegre, Rio Branco, Cuiabá.
São jovens, na sua maioria pretos, mas todos pobres, e já dizia Caetano: pobre são como coisas.
O vídeo acima foram extraído do excelente post "Shopping Vitória: corpos negros no lugar errado", do blog Negro Belchior (clique aqui).
Já faz um tempo, que não escrevo no blog (a patrulha do cuidado negra, com o que você escreve, não pense muito, isso faz mal) me estressa demais, e também com as tarefas do mestrado e da vida, fui deixando na reserva a escrita por aqui.
Mas dessa vez, foi diferente. ver os videos e os últimos acontecimentos (como o caso dos meninos negros no Ceara que são barrados de andar no shopping por estarem de bermuda e chinelo), e, a eminência dos dados da minha pesquisa, me senti compelida a escrevinhar alguns pesamentos.
A Cidade de SP tem aproximadamente 2 milhões de jovens de 15 a 24 anos, desse total 35% vive em situação de privação, miséria e violência. Alguém ai, além de mim, acha isso assustador?
A imagem, dos meninos sendo submetidos a uma situação de vexamento, e a forma como os capatazes dos senhores de engenho os tratava, me lembrou muito as fotos da escravidão (é, os escravos também era obrigados a caminhar em fila indiana, ora com a mão na cabeça, ora segurando o ombro do negro da frente), e posteriormente, ao senta-los e coloca-los com a mão na cabeça e a cabeça entre as pernas (exatamente igual fazem com os presos durante as operações pente fino nas penitenciárias), me deixou enjoada.
Depois, quando a molecada pega no cano e vai pro arrebento, as pessoas se escandalizam.
Como esperar amor e fraternidade de quem só teve ódio, sofrimento e dor?
No penúltimo post, escrevi sobre o esvaziamento das experiências, que o mundo dos adultos está deixando para as novas gerações. Penso, que mais do que esvaziamento das experiências, nós não estamos deixando nada para nossos jovens, a não ser uma enorme divida e um buraco que muito dificilmente veremos tampados, ainda nos próximos trinta ou cinquenta anos.
Pode parecer exagero, mas só preto e ou pobre sabe o que acontece.
Me entristece, pensar que passa o tempo e as coisas ficam cada vez pior: a euforia dos indivíduos ao ver a PM oprimir a molecada preta e pobre é vergonhoso.
Realmente, deve estar na hora de termos consciência humana, porque a maioria de nós não é nem consciente e nem humano.
Começo o texto dizendo, que o vídeo podia ser de qualquer lugar do Brasil, podia mesmo, só não podia ser uma coisa: brancos, só não podia serem jovens brancos.


terça-feira, 13 de agosto de 2013

Que falta a experiências nos faz...


Recentemente, terminei de ler um livro chamado Três Ensaios Sobre Juventude e Violência.
No livro, a autora analisa três filmes: Aos Treze, Laranja Mecânica e Cama de Gato, a autora analisa as experiências juvenis da sociedade moderna, a luz das contribuições de Walter Benjamin.
Walter Benjamim, é um dos autores da primeira Escola de Frankfurt, e dentre tantas questões, em seus escritos, analisa a questão da experiência.
No livro, a autora, discursa que vivemos numa sociedade vazias de experiências, e que esse vazio é marcado pelas dificuldades dos adultos em adultecerem, e cumprirem seu papel de ajudar o jovem realizar a travessia entre a infância e a adultice.
Nosso papel enquanto adultos, segundo a autora, seria o de contribuir com experiências significativas para que os jovens, pudessem amadurecer, romper com o passado e continuar a história da civilização.
O fato, é que a sociedade moderna, esta vazia de possibilidades de experiências que possam ser vivências formativas, no sentido construtivo para a juventude.
De uma certa maneira, podemos usar o exemplo de um grande mercado, e nesse grande mercado das experiências, as prateleiras estão vazias.
Ao invés de laços fecundos, relações passageiras, liquidas e  rarefeitas.
Ao invés de uma formação solida, formação miojo com currículo minimo e cursos cada vez menores cronologicamente.
Ao invés da vivência familiar e comunitária, a vivência virtual, mediada pela tecnologia.
A autora denuncia, que somos adultos, que ao queremos ser eternamente jovens na aparência, interiorizamos essa juventude sem fim, e passamos a ser jovens na essência.
Sexo,drogas e rock and roll, típicos da juventude dos anos 50, nunca deixou de ser uma bandeira cultural,e hoje, segundo a autora, passa a ser a bandeira universal de qualquer individuo que queira estar conectado com os processos da modernidade.
Como se os personagens rebeldes daquela época  tivesse ganhado vida, no cotidiano da modernidade.
Veja, que estou falando aqui de modernidade, e não da liquidez pós moderna e suas novas e neo leituras do mundo.
Ainda não entendemos nem o impacto da modernidade no processo de individuação do individuo, quiça, a tal pós modernidade.
Essa dificuldade cultural de envelhecer, e junto com a velhice, carregar as marcas da experiência, como forma de clarear os caminhos dos mais novos e ajuda-los a cruzar a necessária ponte do amadurecimento, me preocupa, e as vezes me põe em angústia, sempre me pergunto que mundo estou deixando, em especial pros meus filhos.
A autora, termina o livro, dizendo que mais do que estigmatizar a juventude de hoje, e rotula-lá disso ou aquilo, devemos olhar para nós mesmos, e nos perguntamos que marcas estamos deixando na civilização para os que virão.
É preciso deixar que os jovens rompam com o passado rumo ao novo, mas, se continuarmos a viver sempre no afã do momento, sem se preocuparmos com a nossa travessia, vamos caminhar, mesmo sem querer, cada vez mais para o colapso da civilização e continuaremos na barbárie.
termino,perguntando para você, que está lendo essas mal traçadas linhas: qual a marca que você está deixando na historia,e por consequência, na civilização?


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Vamos falar de nós, meu bem!


A algum tempo, venho estudando a opressão da mulher,a partir do viés da Teoria Critica da Sociedade. Para quem não conhece, a Teoria Critica da Sociedade não é uma linha ligada aos neo- marxistas, nem ao pós modernismo.
Os frankfurtianos se dedicaram a estudar o individuo moderno, e para isso utilizam toda a escola filosofica alemã, com enfase me Marx e os escritos freudianos, pelo fato de Freud ser um dos pensadores que melhor traduziu o individuo moderno. 
Nessa relação dialética e histórica, tenho conseguido pensar algumas outras nuances da opressão da mulher. 
Penso, que a grande contribuição que a Teoria Critica possa trazer, seja o fato de pensar os processos de constituição do conceito de mulher. Na modernidade, o conceito de mulher emerge com a ideia da mulher para a vida social produtiva, tanto crianças quanto mulheres,eram sujeitos sociais que surgiram com a industrialização, e do ponto de vista conceitual, a definição utilizada foi a relação de diferenciação desses novos sujeitos para o individuo absoluto, o homem. 
Sendo assim, no processo da alteridade, a mulher passa a ser o não homem. E, portanto, passa a ser conceituada com todas as características opostas ao individuo pleno, o homem. Essa construção da mulher como um não homem, portanto como um individuo incompleto, é uma construção ideológica  que ao longo dos processos políticos culturais-econômicos da modernidade, essa concepção foi se afirmando e se corporificando.
A luta contra o machismo, não é só uma luta só campo das relações econômicas  é sobretudo uma luta no campo da ideologia e da cultura. 
Socialmente, a mulher só é mulher se estiver na presença do homem (essa não é a minha opinião, é apenas a forma como o conceito de mulher foi construído) . Comerciais de televisão, propagandas de revistas, filmes, novelas, seriados, revistas,sempre que a mulher aparece, ela esta associada a imagem do homem, como se ela fosse uma especie de um não homem. Se o homem é másculo? A mulher deve aparecer como frágil. Se o homem não é sexy? A mulher deve aparecer como sexy. E assim por diante. 
No livro Dialética do Esclarecimento, Adorno e Horkheimer, vão dizer que na cisão entre homem e natureza, a mulher foi deixando no campo das coisas naturais,e como natureza, precisava ser dominada, e assim, a mulher foi inscrita nos processos civilizatórios.
Por sua vez, a cultura naturalizou tanto isso, que lutar contra a opressão, é necessário uma luta contra nossas próprias crenças. Em um texto meu sobre o caráter afirmativo da cultura (publicado aqui), ou seja, sobre a função da cultura em afirmar a ideologia burguesa, pontuei que as mídias em geral, desde os contos de fadas infantis, passando pelas brincadeiras e terminando nos romances adultos, afirma de forma sutil, portanto ideológica, que a mulher é assim, inferior ao homem, de modo simples, esse discurso é construído.
Acho, e tão somente acho, que um dos desafios para as feministas contemporâneas, é conseguir avançar nas discussões feministas marxistas clássicas, no sentido de ampliar a compreensão sobre os processos contemporâneos de opressão da mulher.
Talvez hoje seja mais difícil falar de feminismo, já que ao que tudo indica existem vários feminismo, de todos os tons e tamanhos, mas é preciso continuarmos remando contra a maré, como diria uma camarada feminista.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Não passarão...





No final da semana passada, saiu o  Mapa da Violência de 2013, com dados que não são tão novos assim: o índice de mortalidade entre jovens continua muito alto, 33%. O número proporcional de jovens negros mortos, ainda continua alto,  8 jovens mortos a cada 100 jovens negros brasileiros, contra 1 jovem branco morto para cada 100 jovens brancos.
Hoje de manhã, estava assistindo ao Bom Dia Brasil, um jornal da Rede Globo, que passa na Globo News, e por causa do Papa Chico e da Jornada Mundial da Juventude, a Miriam Leitão, que é comentarista, só que de economia e política, fez uma participação sobre o problema da juventude brasileira.
Muito corretamente,ela falou sobre o índice de desemprego juvenil , que chega a 33, 4% entre jovens de 15 a 29 anos,retomou os dados do Mapa da Juventude,apontou a violência em que os jovens estão inseridos, e pasmem, falou até dos jovens do sexo feminino, que representam 39% dos jovens que estão fora da escola e portanto fora do mercado de trabalho.
O problema da juventude brasileira, principalmente da juventude pobre e negra (com ênfase para as jovens e homossexuais jovens), não é novo, é antigo. Na verdade é um problema mundial, cada nação com seu quinhão.
Aqui no Brasil,a coisa tem ficado cada vez mais assustadora, nossa juventude a tempos está na ponta da faca e do revolver, e o Estado, esse balcão de negócios da burguesia, não faz nada, além de matar e excluir nossos jovens.
Existem ações, poucas ações, acho que existem mais boas intenções do que ações reais que visam solucionar o problema.
Agora, o Governo Federal tá vindo com um tal de Juventude Viva, que ao que tudo indica, parece mais piada do que qualquer outra coisa. 
E o Governo Municipal de SP, está querendo institucionalizar o FUNK, e mais uma vez, aqueles que não cumprirem as regras estarão fora, marginalizados, criminalizados e excluídos.
A gente não quer enquadrar a molecada, a gente quer que eles sejam livres, como os jovens burgueses, livres para serem o que quiserem, e que permaneçam vivos, bem vivos.
Falando em vivo, me lembrei de um rapaz negro, jovem, que devia ter ali uns 18-19 anos.Nesse dia, no dia em que ouvi suas duras palavras pro Coordenador da Juventude da Cidade de SP, ele dizia que a juventude pobre, negra, trabalhadora nunca dormiu. E é verdade, como é que a gente dorme com o barulho de tantos tiros?
Mas, a gente espera que o Judiciário e a Policia acorde, e encontre o assassino do Daleste.
A morte dele é muito emblemática nos tempos de chumbo que a periferia vive, os outros mc's morreram na surdina. Ele morreu no palco, enquanto fazia sua arte e buscava seu sustento e sua inclusão na sociedade do consumo.
Estranho mesmo, é que ele contava de um enquadro, e caiu baleado. Agora a Policia vem com papo de crime passional???
Espero o dia, que a gente vai deixar nossa juventude ser o que quiser.
Menos estatística. 
Por que de ser os números que compõe o frio Mapa da Violência, a gente já tá Phd.


Racistas! Hey, otários! Fascistas, nos deixem em paz!!!


 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Boca suja!


Estava conversando com o Marcos, uma conversa trivial.
Perguntei pra ele, qual o palavrão mais feio que ele costuma falar, quando ele tá bem bravo.
(Mas,antes de você continuar lendo, já aviso que este texto contém palavrões, dos mais variados. Aviso dado, continuemos!!!)
O meu é buceta, o dele é puta que pariu.
De repente me dei conta, que mais do quer ter conotação sexual, a maioria dos palavrões são machistas e homofóbicos.
No caso dele, nada é pior de sua mãe ser uma puta, isso pros meninos é a morte, talvez pior do que ser mandado ir tomar no cú.
Para nós mulheres, o que pode ser mais feio do que a buceta?
E, assim, jogamos toda nossa aversão sexual e sexualizada na linguagem.
Me lembrei do prazer infantil dos meus filhos, em dizerem palavrões, caralho e eita porra é o preferido pela molecada.
Não sei se isso tem haver com a descoberta da sexualidade infantil ali, tão ingenua e saudável, ou se tem haver com a vontade de ser adulto, afinal, palavrão é coisa dos adultos, dos meninos e meninas grandes.
Há quem diga, que um vai se fuder bem emendado cura qualquer neurose.
Outros, mais instruídos,que dizer palavras de baixo calão é coisa de gente ignorante.
Há uma polêmica entre os intelectuais, sobre o uso do palavrão na academia.
Eu me lembro, na infância, do Costinha e suas piadas sujas sobre sexo,palavrões e orgias.
Nem mesmo a ameaça de ir pro inferno ou as reprimendas de meu pai, que menina direita não falava palavrão, foram os suficientes pra tira-los do meu hábito linguístico.
Me tornei atéia e de esquerda... Pobre papai, deve pensar até hoje o que fez de errado.
E você, o que acha?
Palavrão é coisa de gente suja e ignorante?
É coisa de rebelde barbudo e comunista?
É coisa de feminista mal amada?
Ou faz parte do nosso cotidiano?
Bom, eu, preciso de um terapeuta, pra descobrir por que pra mim, buceta é a coisa mais suja que se pode ser dita!!!

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Quem tem medo do lobo mau????


Meu blog anda abandonado,isso é verdade.
Mas andava meio preocupada e sem vontade de criar.
Mas,ontem,estava lendo um texto do Freud sobre o Mal estar da Civilização,e várias coisas me ocorreram.
Bom,hoje vendo o FB,me dei conta de como as pessoas são felizes.
As vezes acho que preciso tomar a dose diária de felicidade do restante da população.
Pra Freud, a felicidade é algo inatingível, e que o amor, bem,o amor é um capítulo a parte.
Fiquei pensando nos lobos maus que existem por ai.
Alguns tem medo da velhice, outros das doenças, outros da criminalidade, outros do casamento, outros da paixão, mas ninguém tem medo de ser feliz.
Ao mesmo tempo, que me pergunto,quem é que pode ser feliz nesse mundo?
Passei os últimos 5 anos, tentando me localizar numa determinada lógica, que me partes passou a ser a minha lógica, em partes contém elementos que me contradizem.
Mas,como diriam Caeteano: esse papo já tá qualquer coisa, e eu eu já tô pra lá de Marracchi... 
Este post era só um qualquer coisa, sobre as coisas que ando pensando e não me deixam escrever.
Eu vi a morte e ela estava viva,e isso me assusta, a morte viva a nos espreitar a vida.
Inté a próxima!


         "...Vocês devem tomar cuidado com o lobo, que é muito mau e muito perigoso. Se ele entrar aqui em casa, devorará todos vocês, inteirinhos, da cabeça aos pés. Ele muitas vezes se disfarça, mas é fácil reconhece-lo logo..." (Grimm,2008,pp167)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Uma grande rebelião juvenil!


Uma grande rebelião juvenil, é o que estamos assistindo agora pela tv!
Escrevo esse post com lágrimas nos olhos, seja pela minha situação pessoal, seja pelo grande levante dos nosso jovens.
Um novo Brasil nasceu nesse mês de Junho, e seguirá num rumo que jamais imaginamos.
Lindo, ver nossos jovens, nas ruas, tomando os espaços públicos e reivindicando.
Mais lindo ainda são as jovens!
A crise que se abre para a burguesia, é uma crise que eles não estão prontos para resolver.
Um impasse, um levante, uma multidão, uma revolução.
Os 0,20 centavos foi a gota d'água no nosso copo cheio da exploração, mas estamos nas ruas gritando pelo fim da corrupção, pelo fim da violência policial, por educação de qualidade, por saúde pública e de qualidade, por transporte público e de qualidade, um grito pela vida.
Pela vida dos mais de 1600 jovens assassinados na periferia de Sp e do Brasil no último ano, pelos jovens presos, pelos jovens nas drogas.
Todos me dizem, todos os dias, que enquanto houver vida haverá esperança, que devo lutar até o fim. 
Que esse Junho seja um começo para todos nós, para mim e para nossa juventude.
Chega de exploração, racismo, machismo, homofobia, corrupção, miséria, pobreza, violência policial.

Vamos dar um grito de VIVA! E que possamos trazer boas novas para nossos filhXs,pais/mães e irmãos/irmãs...

Pelos que aqui estão, pelos o que não estão, pelos que virão!!!!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

A gente não quer só o fim do 3,20...


A gente quer o fim do 3,20...
A gente quer passe livre e com qualidade...
A gente quer casa decente pro filhos da gente...
A gente quer saúde digna e com qualidade...
A gente quer vaga na creche perto de casa...
A gente quer comida quente cinco vezes por dia...
A gente quer trabalho com salario digno...
A gente quer o fim do Estatuto do Nascituro...
A gente quer salario minimo de 2600 reais como diz o Dieese...
A gente quer parto humanizado...
A gente quer o fim da violência contra as mulheres...
A gente quer ensino superior para pretos e pobres nas instituições públicas...
A gente quer FGTS, Férias, 13ª salario e INSS...
A gente quer qualidade de vida com parque a áreas arborizadas...
A gente quer saneamento básico, porra...
A gente quer espaço de lazer e de brincar para as crianças...
A gente quer cultura, a nossa cultura...
A GENTE QUER VIVER E NÃO TER A VERGONHA DE SER FELIZ...
A GENTE QUER MAIS DO QUE O FIM DOS 3,20...
A GENTE QUER SER GENTE, GENTE BOA, GENTE LIVRE...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

As tristezas dessa vida!


Poucas coisas me deixam triste ou me inspiram tristeza, mas a imagem de uma mulher solitária bebendo num bar, depois de um dia de trabalho, com a expressão cansada e vencida, apertam minha alma.
As pesquisas apontam que as mulheres sempre são minoria em relação ao uso de drogas, vicio em álcool e envolvimento no crime.
Penso que esses dados tenham eco na realidade. Ontem fui no centro espirita que frequentei a muito tempo, com essa coisa toda do tumor, minha mãe acha que isso é um castigo por ser ateia, ai para acalma-la (e talvez me acalmar) fui lá. Mas, já não consigo mais sentar lá e ouvir a palavra de Deus em vão.
Ontem, sentada lá, fiquei pensando em duas coisas: primeiro que a cada dez pessoas 8 eram mulheres. Daí fiquei pensando, por que a maioria das pessoas são mulheres? Uma possível explicação, é o fato de que segundo os frankfurtianos, a cisão homem-natureza, colocou a mulher no campo da natureza, bem como a religião. Esse processo de separação,objetivou a dominação,ou seja, que para progredir,o homem precisava dominar a natureza e tudo que havia ou estava próximo dela. Meu orientador, costuma colocar uma coisa, que acho fundamental, é que a mulher não só representa a natureza, mas representa fundamentalmente a natureza sexual que o homem precisou reprimir para que pudesse seguir rumo a civilização.
Pois bem, retomando a questão da maioria feminina nas religiões, acho que isso se explica, com o fato, da mulher buscar na religião um apoio para sua fragilidade construída a partir das relações culturais, é como se o discurso consolador das religiões, discurso esse que confirma sua submissão e sua necessidade de submissão. A maioria das mulheres tem uma vida de cão, e de repente você vai num lugar que diz que sua vida de cão é uma dádiva, isso pode ser um alivio.
Na lógica da cisão homem-natureza, e a necessidade de dominação do homem, tenho a impressão que o homem se aproxima da religião, com o intuito de dominação das massas religiosas, em 5 anos frequentando o centro espirita, nunca vi uma mulher palestrante, ou seja, nunca vi uma mulher que dominasse os ensinamentos de cristo a ponto de ser sua profetiza, mas sempre vi muitas mulheres nos serviços auxiliares.
Quando vejo uma mulher, num boteco, bêbada, depois de um dia de trabalho, me sinto mal e fico pensando o que o sistema tem feito com a gente.
O alcoolismo é uma doença, que mata, mas que ninguém liga. O que faz uma mulher, desistir de tudo que nos é oferecido como "alternativa" para aguentarmos essa vida e se entregar, é uma coisa que me inquieta.
Para mim, não existe nada mais triste nessa vida.
É uma medida extrema, e eu imagino, o quão de sofrimento, essa mulher já não viveu.
Mês de maio,mês das mães. Mãe, a coisa mais importante da nossa cultura, a coisa mais sagrada que nos ensinam.
Nada mais triste, que ver uma mãe, uma mulher, uma trabalhadora,uma mulher negra, ser carregada para casa pelos filhos,simplesmente porque ela não aguentou mais as dores dessa vida.
Que venha Junho,porque esse Maio,já era. 

domingo, 12 de maio de 2013

(In) Feliz Dias das Mães!


Outro dia vi no Facebook alguém que escreveu o significado dos dias das mães. Não me lembro em detalhes, mas tinha um fundilho católico.
Bem, o capitalismo tem o mérito de transformar tudo em mercadoria, e os dias mães, a segunda maior data do varejo brasileiro, não é diferente.
Além de mercantilizar com o lance dos presentes, ainda coisifica a maternidade a tornando algo inatingível.
Bom, vamos começar pela lei, adoro a lei e sua capacidade de normatizar tudo.
Pela lei, só somos mães até o cabra ou a cabra atingirem a maioridade aos 18 anos, e acho isso perfeito, porque aos 18 o sujeito ou a sujeita deve ter condições de se virar no mundão.
Mas a sociedade, ao sacralizar a maternidade, nos empurra para um mal estar sem fim, e nos obriga a criarmos com  a mesma devoção devida a um bebê cada marmanjo barbado, e os marmanjos barbados que casaram com nossas filhas.
Sinceramente, eu não vejo grande vantagens em ser mãe: trabalho sem férias, descanso, prestigio, retorno, salário. E nunca para, só aumenta.
Mesmo o tal do amor materno, eu me questiono se de fato existe, o que penso, é que filho é um projeto tão grande, que requer tanta dedicação, que devotamos a ele o mesmo amor que um fumante devota a um maço de cigarro. E só. 
As crianças crescem, desenvolvem personalidade, que nem sempre agradam a mãe, vai viver sua vida, dar as suas cabeçadas, aprender a correr nesse mundão e a vida segue.
A maternidade nada mais é, do que uma função social, que se tornou culturalmente, algo mágico e divino.
Esse discurso do mágico e divino tem duas finalidades: nos oprimir, por que ficamos presa aos filhos, e nos enganar para que aceitemos de bom grado a (in)felicidade de ser mãe.
Ser mãe pra mim é isso, ser feliz e infeliz ao mesmo tempo.
Depende de como surgiu o projeto criança na sua vida, depende de como desenvolver o projeto criança, depende se você tem grana pra pagar baba, comprar Pampers, pagar convênio, comprar papinha da Nestlé e Nan. Depende.
Em regra, no capitalismo se você tem dinheiro, você pode comprar a sua felicidade. Se não tem, bem...ai é outra história. 
Hoje eu desejo que só por hoje, as mães dos presos, seja na FEBEM ou nas detenções, sejam menos humilhadas nas revistas, hoje eu desejo que as Mães de Maio daqui e da Argentina sintam menos a dor de ter seu projeto assassinado impunemente, hoje eu desejo a todas as mulheres que passam fome para que seus filhos tenham de comer possam se alimentar dignamente, hoje eu desejo que todas as mães que apanham de seus maridos com medo de sair de casa e sem saber como cuidar dos filhos sozinha se sintam amparadas e confortadas e rompam com o ciclo de violência, hoje eu desejo que as mães que se acabam no crack e no álcool sintam-se bem com sigo mesmas e superem o vicio rumo a uma vida mais humana.
Hoje, eu desejo, que todas as mulheres oprimidas e exploradas, possam se libertar da opressão, começando pelo peso da maternidade.
(In)Feliz Dias das Mães a Todas Nós!

Ps: Amo meus projetos crianças (João e Pedro), mas esse dito amor, não me impede de perceber que a maternidade em via de regra é uma cadeia invisível, implacável e opressora.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando o corpo não é meu...


Uma das características dos crimes de guerra é a aniquilação da identidade do povo vencido.
Uma das formas de fazer isso é matar todos os homens, todas as crianças, estuprar as mulheres e garantir o fim da etnia ou povo vencido.
Foi assim na ex-Iugoslávia, é assim em todos os lugares em guerra.
Talvez, haja uma pequena diferença entre uma guerra e outra, mas o pano de fundo é o mesmo.
Pra se ter uma idéia, na ex- Iugoslávia, haviam campos de estupros coletivos,onde as mulheres eram presas e estupradas dias e dias por vários soldados.
Tenho impressão, que a prostituição das belas croatas tenha a ver com isso.
Em casos de guerra, é nítido o poder do estupro.
Mas em sociedades como o Brasil, Índia, Estados Unidos, o que está por trás do estupro?
Os números das mortes em nosso país, são de uma guerra, isso é fato, mas podemos afirmar que aqui no Brasil o estupro é usado como crime de guerra?
Quando aconteceu o primeiro estupro da história da humanidade?
Será que os portugueses foram os primeiros estupradores?
Numa sociedade dita civilizada como a nossa, com leis e tudo o mais que se chama de civilização, o que faz os homens tratarem as mulheres tão brutalmente?
Quem se lembra do caso de Queimados? Do cara que pagou outros homens para estuprar duas convidadas suas em uma festa de aniversário pro seu irmão, cujo presente foi o estupro?
Me enjoa lembrar disso,assim como enjoa muitas outras histórias: os estupros da praça Tahir, os estupros nas Vans do Rio de Janeiro, os estupros nos coletivos nos horários de pico aqui em SP, e me enjoa principalmente, saber que nesse exato momento, ao menos uma mulher está sendo estuprada, e outra, e outra, e outra. Assim como o relógio não para, os estupros também não. Pode ser que a de agora esteja sendo morta também.
Em guerra ou em regiões bárbaras é possível racionalizar o estupro, mas numa sociedade civilizada como a nossa, como se justifica?
Veja bem, digo que é possível racionalizar, mas não defender. Violar o espaço sagrado do corpo não se justifica por nada, mas em casos de guerra, dentro do contexto da guerra, é possível racionalizar o processo.
Fico pensando, se a opressão estética pelo peitão, pelo bundão. Pela "liberdade" sexual, pelos comportamentos padronizados, pelo ser sempre sexy, pela estética impecável também não são uma forma de estupros contra nós.
Afinal, a muito tempo, nosso corpo deixou de ser nosso.
Fazemos dele o que a moda do momento pede, mesmo que doa, temos que fazer o que a sociedade patriarcal pede de nós.
A sociedade patriarcal também lucra com nossa "liberação sexual", por que se a tempos existe a mulher pra casar e a mulher pra trepar, bem, alguém tem que ser a do sexo casual não é mesmo?
Não, antes que me acusem, não estou dizendo que a virtude, a monogamia ou qualquer outra coisa seja a saída. Estou dizendo que temos que pensar de forma mais complexa os meandros da dita liberdade.
Por que em via de regra, liberdade é escravidão e ignorância é força.

Ps: a grande sacada da sociedade estupradora,é  nós fazer crer que queremos, como queremos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Funk Sim!


Primeiro de Abril!
Em meio o caos que é minha vida, em meio as angustias da pós, finalmente consegui terminar esse texto.
Ele surgiu, como reflexo de um artigo que enviei pra um encontro de estudos feministas, marxismo e educação, uma pequena discussão que eu propus sobre o caráter afirmativo da cultura no funk.
De lá pra cá, já pensei muita coisa sobre isso.
Mas ontem, aconteceu uma coisa que me inquietou ainda mais.
Estava aqui na sala de casa assistindo ao Lolla Palloza, que passou na tv a cabo: é um festival de música supostamente alternativa para um público esmagadoramente jovem e branco, os tais hippisters (acho que é assim que escreve).
No mesmo minuto, que o Criolo cantava no palco, aqui na rua de casa rolava o famoso pancadão do funk, e enquanto a juventude branca e burguesa de SP curtia seu som, seu lazer, a molequecada preta e pobre daqui da vila levava esculacho da policia.
As duas cenas: a da tv e da rua daqui da vila expressam exatamente o sentido e o significado de ser jovem na sociedade capitalista.
Se os jovens brancos e burgueses não pudessem pagar pelo seu lazer, certamente tomariam as ruas de seus bairros, que é exatamente o que acontece com os jovens pretos e pobres.
Só pra ter uma ideia, do caos que é a coisa,  os dados do Mapa da Juventude da Cidade de São Paulo de 2005/2006, descrevem, dentre outras questões relativas aos jovens paulistanos, as formas de lazer e os espaços para o lazer utilizados na cidade. E pasmem, além de poder pagar pelo lazer, os jovens brancos e burgueses podem usufruir dos equipamentos públicos como parques e praças, por que tais equipamentos, estão na sua grande maioria, localizados nas regiões centrais da cidade, que segundo o mapa, possuem menos jovens e são as mais ricas.
Agora eu pergunto: que raio de formulação de política pública é essa, que favorece a minoria rica? 
E não é só os espaços de lazer que estão no centro, lá estão o trabalho, a saúde, a educação: as pequenas ilhas de excelência criada pelo Estado, como por exemplo, o Parque da Juventude, que fica localizado na região central da Cidade, região essa que tem o menor índice de jovens por metro quadrado, a cada 10 moradores 3 são jovens.
Enquanto isso, aqui no fundão, a duas-três horas das ilhas de excelência ou do centro da cidade, como queiram, a densidade demográfica juvenil é de 7 jovens para cada 10 habitantes.
A cada 10 moradores do Capão Redondo por exemplo, 7 tem entre 15-29 anos. Desses 7, 5 estão fora da escola, 6 estão desempregados ou em subemprego (telemarketing é subemprego, para quem não sabe), 3 estão no crime, 5 são mães com um ou mais filhos e por ai vai. 
Agora, vamos pensar: longe do centro, dos serviços públicos de lazer, por exemplo, sem emprego e portanto sem dinheiro pra pagar pelo lazer em festivais super caros, o que resta pra moçada dos fundões da Cidade?
Pancadão na rua!!!
Podem dizer que o funk é obsceno, mas o tchê tchê re tchê tchê também é, podem dizer que eles bebem e usam droga, mas uma balada de eletrônica também tem bebida e muita droga.
O problema, o nosso problema é que além de sermos pobres, somos pretos. E ser preto nesse país, é um problema maior do que ser obsceno ou drogado.
Pra juventude branca e burguesa Lolla Polloza, pra juventude pobre e preta, tiro de bala de borracha e gás de pimenta.
Por que batuque na cozinha, sinhá não quer! 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Vamos todos para Palmares!



Esses dias eu estava pensando, onde seria a nossa Palmares?
Na música, o poeta fala do processo da fuga dos escravos para palmares: do caminhos, dos percalços, dos inimigos e da glória de finalmente chegar a Palmares.
Eu penso, que ir pra Palmares,é se libertar, é encontrar o lugar onde sejamos nós, com a nossa origem, com a nossa raiz.
De maneira geral, se a gente for pensar que os processos de cada um tem muitos pontos em comum com o coletivo, vamos perceber que muito de nós está nesse caminho de libertação.
Mas, para ser livre é preciso primeiro se perceber preso. Para ser livre é preciso saber o que é liberdade.
A maioria dos pretos e pretas que eu conheço não se acha preso, e também pensam que liberdade é poder de consumo.
Mas, para mim, ser livre é poder andar na rua e as pessoas não me olharem de um jeito estranho por causa da cor da minha pele.
Para mim ser livre, é passar no hospital, e o médico me designar a mesma atenção que ele designa para a mulher branca.
Para mim ser livre, é ser o que eu quiser, do jeito que eu quiser,como eu quiser com quem eu quiser.
Nós, todos nós, homens, mulheres, brancos, negros, nós não somos livres. 
E o pior, sem grilhão nos pulsos, achamos que poder usar o cabelo black power e poder comprar roupa com temática africana, nós torna contemplados, incluídos, inclusos e portanto livre.
Qual é a nossa origem, onde fica a nossa Palmares?
Essa semana li um texto do Freud, que eu recomendo para quem se interessa pelas questões de formação dos indivíduos, chamado A Psicologia das Massas e a Análise do eu, onde ele vai discutir o processo de massificação que a sociedade esta inserida e as implicações disso para a formação do individuo.
É mais ou menos assim: os processos de formação da sociedade não permite que o individuo solidifique seu ego (seu eu), fazendo com que ele não tenha uma identidade própria e sim a identidade que a massa determina: ele pode ser hippie, pode ser roqueiro, pode ser alienado, pode ser engajado, mas todos esses tipos são determinados pela massa.
O processo de formação da identidade, se ocorrer de forma correta, se baseará na construção da identidade a partir de um modelo de ego (modelo de eu),e da critica permanente dos outros indivíduos (o processo da diferenciação ou da critica é necessário como elemento que possibilita a capacidade de analise e construção de novas possibilidades de ser do ego).
A falsa democracia que vivemos, onde ser livre se resume em poder consumir, faz com que nosso ideal de liberdade se resuma ao que temos,e o que temos define quem nós somos.
Se você é do Movimento Hip Hop, mas não usa calça larga nem as marcas de produtos ligadas a esse movimento, você não é do Hip Hop. E por ai vai. 
Me lembro, que quando trabalhei numa ong, cujo publico alvo eram os homossexuais, o meu então chefe, que é homossexual, disse que existem lugares, produtos, viagens, alimentos, amigos, baladas especificas que o gay deve frequentar, senão ele é um gay qualquer e não pode privar do acolhimento do grupo dos outros gays que vão nesses lugares e fazem essas coisas. E já dizia o Mano Brown: ninguém quer ser coadjuvante de ninguém.
E assim, se perdendo nas falsas liberdade, na falsa ideia de igualdade, estamos cada vez mais longe de nossa Palmares, de nossa libertação.
Esquecemos quem são os bandeirantes, esquecemos quem foi Raposo Tavares. Esquecemos que do senhor  não se pode ser amigo, mesmo que hoje possamos comer a mesma comida que ele come. Mesmo que tenhamos dinheiro pra comprar essa comida, mesmo que estudemos na mesma universidade da filha dele.
Senhor é senhor e escravo é escravo.
Uma vez senhor, sempre senhor. Uma vez escravo, escravo até que lute pra se libertar.
Mas, quem de nós luta pela nossa libertação?

Ps: Quem não conhece a música Vamos pra Palmares do Dugueto Shabazz, pode clicar aqui e ouvir essa perola negra da nossa musicalidade popular.

Ps 2: a foto deste post, mostra o que espero que seja minha Palmares: um lugar onde possa me encontrar com minha história, com minhas origens, com as minhas negras raízes. Seja na África, seja no Brasil, mas não no capitalismo.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Mesmo que seja eu...



A vida podia ser como música.
Nas letras de música até a decepção amorosa é leve.
Tenho demorado mais para escrever no blog, por que me irrita esse gente chata que fica me corrigindo e dizendo o que devo escrever e como devo escrever.
O blog é um espaço pessoal, quem quiser ler que leia, fico feliz quando as pessoas curtem e se identificam com as minhas brisas,mas não estou escrevendo aqui uma tese de doutorado e nem um artigo.
São só reflexões de uma cabeça pensante.
Foi por isso que fiz o blog, e pretendo doravante voltar a esse objetivo.
Por esses dias estive pensando, como não passamos de sombras.
Somos uma mancha, um borrão,do que poderíamos ser como seres humanos, como civilização.
De todos os compositores da MPB eu acho o Cazuza o mais inteligente. Não que ele tenha feito músicas como o Chico Buarque, mas pela sagacidade e sinceridade doida de suas letras.
É como se os olhos do Cazuza vissem o mundo como ele é,  e suas mãos o descrevesse com a mesma sinceridade de seu canto desafinado.
Mesmo quando fala de amor, ele fala da verdade sobre o amor como ele é.
Primeiro, eu não sei se existe o "amor" realmente e nem a tal "felicidade" que tanto falam. Acho que isso é mais criação da industria cultural para poder nos vender esses produtos,do que qualquer outra coisa.
Poucas pessoas tem relacionamentos estáveis e bem sucedidos, a maioria das pessoas tem relacionamentos que são em boa dose frustados ou completamente sem sentido: violentos, desrespeitosos, se sentem rejeitados e insatisfeitos.
Mas,os grandes romances da história da televisão, música,cinema,teatro,literatura vem nos ensinando a séculos e séculos que o amor é assim, não é mesmo?
O que sempre me pergunto às vezes é quem deve forjar quem: a realidade deve forjar o imaginário ou o imaginário deve forjar a realidade? Será que eles devem emergir de uma relação dialética, da tensão entre ambos?
O que vejo no cotidiano é que o imaginário formata de tal forma a realidade que não conseguimos distinguir mais as coisas, e separar o joio do trigo como diz o ditado.
Eu penso,que em partes isso acontece por que deixamos de nos tornar indivíduos,  ou seja, no nosso processo de formação ao longo da vida não nos diferenciamos mais dos outros: ao invés de querer ser diferente da estrela global ou do novo intelectual da moda, fazemos tudo para ser igual: falamos igual,nos vestimos igual, tentamos ser exatamente igual.
Qual o motivo de revistas como a caras vender tanto? Simples, lá eles mostram como os astros vivem, como é a casa, como é a comida, como é a roupa.
E a gente que vive a realidade, se frusta por que não pode ser igual, e ai fica doente, entra em depressão, se enche de droga,cerveja, pra vê se assim, pode esquecer a vida fudida que leva.
Acho isso muito complexo,ao mesmo tempo que é tudo muito simples. O problema do capitalismo não é só a exploração e nem a divisão social do trabalho (embora uma coisa leve a outra), o grande problema do capitalismo é o que a exploração e a divisão social do trabalho fez com a gente.
Essa é a grande questão.
Já que eu comecei falando de música, termino aqui com uma música, uma das minhas preferidas do Cazuza:



"São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
São todos seus cicerones
Correm pra não desistir
Dos seus salários de fome
É a esperança que eles tem
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem"

Um trem para as estrelas - Cazuza

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

De braços sempre abertos....



Não sou católica,mas a gente sabe da influência que o cristianismo tem na nossa sociedade.
Principalmente na construção de conceitos como casamento, amor, fidelidade,homem, mulher,maternidade,paternidade e por ai vai.
A imagem da virgem Maria, sempre placida e de braços abertos, pronta para receber qualquer um de qualquer maneira e inundar nos de amor e compreensão  guarda em si a mais clara definição do papel da mulher em nossa sociedade.
Nós mulheres temos que ser assim, sejamos católicas, candomblecistas  feministas, revolucionárias, budistas, ateias, rica, pobre, negra, branca, latina, norte americana, africana  asiática  Não importa, sempre nos cobram que estejamos com os braços abertos.
Sempre temos que ceder primeiro, sempre temos que entender mais, sempre temos que nos dedicar mais; para que os homens possam fazer o que deles é esperado: conquistar e destruir.
Mesmo que sejamos nós, as que conquistam e destrõe (a poderosa da Alemanha Angela Merkel e a Hilary Clinton nos EUA que o digam), sempre é esperado de nós que nossos braços estejam abertos.
Quem não se lembra do escândalo envolvendo os Clinton e o sexo oral da estagiaria? E a cara dela diante das câmeras enquanto o marido fanfarão pedia desculpas pro estadunidenses?
Os filhos choram, e é  nos nossos braços, que eles pedem apoio e conforto. O companheiro tem problema, é nos nossos braços que eles procuram compreensão e apoio.
E nós? Nós não precisamos de nada disso, nós somos aquela que esta sempre de braços abertos.
As vezes isso é consciente, as vezes não. Ás vezes fazemos isso e nos resignamos com nossa função de Virgem Maria, as vezes fazemos por que alguém tem que fazer o serviço sujo.
Eu? Eu só queria um Virgem João, para que eu não precisasse fazer todo o trabalho sujo.
Na sociedade administrada que vivemos, cuja relações são fragilizadas e esvaziadas, onde a vida não tem sentido ou significado que não seja a próxima viagem no álbum do Facebook, ou a próxima palavra de ordem virtual, as virgens Maria se multiplicam e se acomodam: apoiar, acolher e acomodar o outro é preciso.
Não sei, mas cada dia que vivo sobre a Terra, vou me convencendo que nada mais tem jeito. Estamos todos fadados ao nosso fardo ou ao nosso prazer.
Prazer e fardo convivem juntos, numa relação permanentemente dialética.
Desconstruir essa concepção do ser mulher é desconstruir a forma como a sociedade existe e funciona.
Que consigamos construir uma sociedade com mais  Joanas que matam dragão, do que Virgem Marias que estão sempre de braços abertos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Por que a gente é assim?


Odeio festinha de criança. Só não odeio mais do que reunião de pais.
Penso, que o que essas duas coisas tem em comum é o quão patético são essas atividades.
Na reunião de pais, o que me irrita profundamente é o tom maternal  - psicótico das professoras para conosco, as imbecis mães. Odeio quando se dirigem a mim e me chamam de "mãe"  e dizem: Olha mãe, presta bastante atenção, por que eu vou explicar. É como se elas não soubessem conversar conosco, pessoas adultas, como se fala com adultos. 
No caso das festinhas das crianças, é um ritual tão sem sentido e bobo, que faz com que sejamos forçados a sorrir e acenar o tempo todo. Sempre há um clima tenso do tipo: olha como sou chique, olha a festa que fiz pro meu filho. E sempre rola um racha entre as famílias da mãe e do pai. E, isso não é coisa de pobre não. Desde a época que eu trabalhava com buffet, já era assim. Alias, quanto mais grana, mais competitivo e mais patético.
Gosto de reunião de pessoas queridas, que se juntam para celebrarem mais um ano de vida de uma criança querida por todos. É diferente. 
Mas na verdade, não é esse o tema do post, quer dizer, tem haver também.
Ontem vi um filme, chamado Muito além do método, e relata a relação de Freud e Jung. Já vinha algum tempo pensando, por que somos assim.
Por que nos mutilamos, por que insistimos em nos animalizar cada vez mais. Nós, seres humanos, estamos nos coisificando e se coisificando cada vez mais, e quanto mais eu penso, menos sentido e saídas eu vejo para o mundo.
Poderia usar milhares de exemplos banais do cotidiano, mas, para não fugir muito,vou ficar com a reunião de pais.
Em tese, a reunião de pais, deveria ser um espaço onde professora e família, iriam trocar impressões sobre o desenvolvimento e aprendizagem da criança, mas o que nós observamos é o seguinte: os pais estão apreensivos por que não sabe o que os espera, ou estão agressivos porque estão cansados dos problemas que os filhos lhe causam (afinal, a maternidade/paternidade é algo lindo, ninguém diz que o bebê babão cresce e os problemas deixam de ser cólicas e podem ficar bem, bem sérios). As professoras colocam seu maior salto, sua melhor maquiagem e sua melhor roupa; nos olham com aquele ar superior e algumas vezes de nojo frente aquele bando de mulheres sentadas. Não sabem estabelecer conosco um dialogo adulto, nos tratam como se fossemos estúpidas, e sempre tem a frase de auto ajuda cristão sobre as dadivas da maternidade, o sermão sobre o papel da família  que nunca cumprimos e termina com o sermão 2 sobre o quanto elas se esforçam para educar nossos filhos (já que nós não fazemos isso).
Isso me deixa tão irritada, por que sempre parece que sou um lixo de mãe, mas ela que estudou e usa salto sabe mais do que eu, e por isso, "me ensina" como ser a família.
Fico pensando, qual a dificuldade das pessoas de olharem o todo:a professora se desdobra para educar 45 crianças, e tem o SARESP, e tem seus problemas, e tem a sondagem. OK.
Mas nós, pais e mães, também temos muitas coisas, e na sociedade da ilusão que vivemos, sempre há uma distância entre o que deve ser e o que é de fato.
Toda essa criação dos contos de fada sobre família  maternidade, casamento, atrapalha muito nossa capacidade de entrarmos em contato com a realidade para elaborar e interferir na mesma.
A gente fantasia demais, cria estereótipos demais, superestima e espera coisas que não são possíveis.
A minha grande pergunta é: por que a gente é assim? Por que a gente precisa fingir ser algo que não? Por que por o maior salto para representar a professora que você gostaria de ser? Por que gastar dinheiro com um festão, e tentar representar a família Doriana que você queria ter? Por que não podemos simplesmente encarar a realidade, de que a vida é uma droga, e que para muda-la é preciso de muita coisa, principalmente perceber a realidade como ela é?
Freud diria que é preciso mostrar ao paciente a realidade, para que ele se conscientize sobre ela. Jung diria que o paciente pode escolher o que é e quem quer ser.
Eu fecho com Freud. Triste, duro, sombrio, pouco esperançoso, mas, verdadeiro. Muito verdadeiro.

Ps: antes que digam que estou me restringindo a uma discussão sexista, quando me refiro só as professoras, alerto, que escrevo no blog somente sobre minhas experiências pessoais. Desta forma, só tenho ido em reunião de pais, feitas por professoras da Educação Infantil. E odeio cada minuto que tenho que ficar nas malditas reuniões.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Eu, tu, eles...



Esse feriado, foi marcado por duas coisas dignas de nota: o aniversário da "bela" São Paulo e o incêndio na boite em Santa Maria - RS.
Antes do feriado, teve uma audiência pública aqui na quebrada, que teve a presença do traidor Netinho de Paula (já já explico o porque de traidor).
Sexta foi um dia de debate no facebook, sobre o por que não amamos SP (havia eu e mais um pequeno grupo de realistas sobre o que é a selva de pedras) e domingo foi outro embate sobre o que qualificamos como tragédia.
No dia 25 de Janeiro, a trilha sonora foi Um homem na estrada também do Racionais, uma música do vermelho anos 90, como diria o Edy Rock, fazer o que 500 anos de Brasil e o Brasil nada mudou. No domingo da tragedia,  a  gente aqui dessa cidade em guerra foi de Negro Drama.
Oh sim, morreram 245 jovens com futuros brilhantes por causa da ganancia dos capitalistas.
Mas, nesses 512 anos de Brasil quantos jovens com futuro brilhantes foram mortos nessa guerra particular? 245? Não, existe um número oficial de quantos jovens foram mortos na mão da policia, em incêndios em penitenciarias e na FEBEM e nas favelas, quantos jovens se mataram no crack por que mataram seu futuro brilhante. Não, nós não temos esse número, muitas vezes não temos nem os corpos para chorar nossas vitimas.
Se vocês me permitem, queria fazer uma analise sociológica sobre essa nossa guerra particular.
Adorno  e Marcuse vão dizer que um dos elementos de uma sociedade fascista é a paralisia da critica. Isso por que os indivíduos se acomodam ao sistema, se adensam uns nos outros. O fato do trabalhador dirigir o mesmo carro que o patrão, e o preto estudar na mesma universidade do branco, dão a falsa ideia de que há democracia e possibilidade para todos. Por isso, cabe a educação formar (formação no sentido grego) os indivíduos para que eles se emancipem e não caiam nas ciladas do fascismo.
Quando a gente pensa no fascismo, já lembramos dos alemães e dos judeus, mas temos que pensar que essa é uma das maneiras que um Estado pode exercer o fascismo. No Brasil, e em muitas outras democracias também temos um estado democrático fascista, ou a gente não consegue ver aqui uma politica deliberada de 512 anos de extermínio das ditas minorias?
Na fatídica e cômica audiência publica que houve aqui na quebrada com a presença do traidor Netinho de Paula, traidor sim,porque usou nossa cor e nossa historia para se promover e se eleger e agora tudo que faz é não fazer nada, alguém fez uma fala dizendo sobre uma nota do comandante da PM para os soldados darem preferencia nas abordagens para negros e pardos. Disseram que isso foi racismo por parte da PM, mas esperai minha gente, vamos pensar um pouco.
Adorno vai dizer, que nossa preocupação não deve ser com o racismo em si, por que ele é consequência e não causa, nossa preocupação tem que ser com o que faz um individuo se tornar racista. Estatisticamente, os bandidos são pretos e pardos.
Nossa pergunta tem que ser: porque os pretos e pardos se tornam bandidos? Quando encontrarmos a reposta, temos que nos perguntar: o que vamos fazer para que isso não aconteça?
Não sabemos de nossa história, não sabemos de onde viemos, não sabemos...
Precisamos saber, para encontrar alguma saída coerente e consequente para nossa guerra em particular.
Marcuse, parafraseando Walter Benjamin, disse que nossa esperança está nos desesperançados.
Sinceramente, enquanto buscarmos uma forma de equilibrar as coisas, não vamos romper nunca, em outras palavras, enquanto houver esperança haverá fascismo.
Temos que deixar de acreditar em Netinhos e Haddads. Nossa esperança jaz nos morros e favelas, morta com tiros de automáticas no meio da cabeça.
Netinho usa terno Armani e anda com segurança, Haddad nunca andou de coletivo as 6 da tarde de Pinheiros sentido Grajaú.
Não sei se será possível, talvez seremos todos mortos pelo homem branco, já estão matando nossa história e nossa juventude, em pouco tempo, o que sobrará de nós???

Ps: o mais cômico e trágico da tal audiência pública, é que o cara que fez a melhor fala, um cara da Agência Solano Trindade, que fez a fala mais coerente, no final foi todo sorridente tirar foto com o Netinho de Paula, ou seja, foi dar as mãos pro inimigo. É, uai, inimigo, porque aquele que não olha pelos seus, principalmente quando usou e usa os seus para ter sucesso e fama, é traidor, inimigo, é escória. 


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Se ela fizesse ...


Essa história não é real, no Brasil aborto é crime. 
A mulher pode ser presa e julgada como um assassina fria e cruel. 
Se um dia me perguntarem se conheço alguma mulher que já abortou, negarei e nego, infelizmente, esse é um segredo que é só nosso.
Ela tinha 15 anos, estava gravida de seu primeiro filho.
Sua mãe, gentilmente lhe convenceu a cometer o fato, não havia escolha: o que decidir?
Ela tomou 4 comprimidos, teve doze horas de trabalho de parto.
Chorava baixinho, sua mãe não queria que ninguém soubesse. Passou a noite com dor e com medo, e se Deus brigasse?
Mas, ela sabia, não podia ter a criança. Como ia viver com um marido de 19 anos, mãe aos 15? E a escola? E as pessoas?
É verdade, ela transou e gozou. Foi bom. Ficou gravida. A camisinha estorou.
Pensava e chorava, pedindo para quem quer que fosse (poderia até ser Deus, se ele não estivesse muito bravo),  que não precisasse ir para o médico.
Pela manhã, sozinha, no banheiro de casa, espeliu o feto, caiu na privada. Ela olhou e pensou: que triste!
Deu descarga, tomou banho e apenas sorriu quando disse: acabou mãe.
Ela cresceu, virou mulher, teve filhos.
Mas, ela sempre pensa no que teria acontecido!
É assim a vida, as mulheres são coisas...
Coisas que os homens querem brincar, coisas que os homens gostam de caçoar.
Mas e a verdade? A verdade, é que no Brasil por ano, morrem 180 mulheres vitimas de aborto inseguro.
E, quem sabe quantas morrem por dentro? Quem sabe quantas mulheres perdem uma parte de si, sozinhas em casa, em clinicas, seja do jeito que for?
Quem sabe da dor, da culpa, do medo?
Quem sabe?
Se ela fizesse um aborto, e se pudesse contar com o apoio e orientação, se ela pudesse dizer e compartilhar. Se ela pudesse.
Se todas elas, todas nós, pudéssemos um dia ser gente de verdade, sem aborto inseguro, sem estupro, sem violência doméstica, sem assedio sexual, sem jornada quíntupla, sem opressão estética.
Se a gente pudesse ser gente...
Se a gente pudesse... 
Talvez, ela não fizesse...

sábado, 12 de janeiro de 2013

Ela é mais macho que muito homem



Quem de nós nunca precisou desentupir um esgoto?
Quem de nós nunca precisou trocar um chuveiro queimado ou um botijão de gás?
Quem de nós nunca ficou horas em pé num coletivo depois de um dia de trabalho (e em alguns casos sendo encoxada por um maldito que não sabe controlar suas pulsões sexuais)?
Quem de nós nunca se queimou tentando evitar que o ferro de passar roupa não caísse no nossx filhx, e apesar da dor lascinate da queimadura, não soltou uma única lagrima? 
Quem de nós nunca sofreu 5, 6, 7, 8,12 horas de trabalho de parto, com coragem e determinação até a hora da saída do bebê?
Quem de nós nunca foi trabalhar com uma puta cólica, e ficou firme até o fim do expediente?
Quem de nós nunca levantou as 4, 5 horas da madrugada,para arrumar os filhos, a casa, a comida antes de ir pro trabalho/estudo?
Quem de nós nunca se sentiu magoada com a separação, mas tirou forças de onde não tinha e seguiu em frente por causa dxs filhxs?
Quem de nós nunca precisou construir uma casa ou rejuntar um piso, porque o machista do pedreiro resolveu te enganar por que era mulher?
Quem de nós nunca precisou passar horas no PS de algum hospital e teve que brigar para que seu filho fosse atendido com decência? 
Quem de nós nunca precisou por algum machista em seu devido lugar, e ter a paciência feminista de explicar para ele que mulher não é objeto?
Quem de nós nunca se sentiu humilhada por ser mulher em algum momento da vida?
Quem de nós nunca sentiu dor fazendo depilação com cera quente, porque algum idiota em algum momento da historia da humanidade, decidiu que mulher deve se depilar e que isso é sinal de higiene pessoal?
Quem de nós nunca se queimou enquanto cozinhava, cuidava da criança, pensava nos problemas financeiros e nas tarefas da semana no trabalho?
Quem de nós nunca teve o bico do peito dilacerado por um bebê esfomeado, e chorou enquanto amamentava, vendo seu peito sangrar?
Quem de nós nunca teve vontade chorar em meio a uma consulta ginecológica  quando o animal do médico, foi grosso e rude com suas dúvidas sobre seu próprio corpo, mas segurou as lagrimas como forma de manter o pouco da dignidade que se pode ter, por ter nascido mulher? 
Quem de nós nunca se sentiu enraivecida quando outra mulher ofende sua moral lhe chamando de puta ou vagabunda, e neste exato momento pensou: tem alguma coisa errada, deveríamos nos unir?
Quem de nós nunca foi direta ou indiretamente obrigada a fazer sexo com um parceiro só para agrada-lo, em qualquer momento da vida, mesmo que na hora você tenha dito para você mesma que ele não fez por mal?
Quem de nós nunca passou por nenhuma dessas ou de outras experiências femininas e cotidianas em nossas vidas?
Qualquer mulher, é mais macho que qualquer homem!

sábado, 5 de janeiro de 2013

Mais valia do lar



Talvez, muitas mulheres ou homens que leiam esse escrito, não compreendam o quão degradante e opressor é o trabalho doméstico,e até achem que estou exagerando, afinal alguém tem que lavar, passar e cozinhar, e isso é muito nobre não é mesmo?  Todo mundo precisa de casa limpa, comida e roupa não é mesmo?
Mas façamos um exercício. Vamos imaginar, que não houvessem as mulheres para cuidar da casa, dos filhos e dos doentes gratuitamente. Vamos imaginar que os patrões tivessem que pagar para alguém realizar essas atividades.
Quanto se cobra para cuidar de uma criança, decentemente? Incluindo as noites de sono perdidas amamentando , os cabelos brancos de preocupação, o esgotamento de nervos com as birras infantis, as horas cozinhando papinha e trocando fraldas? Uns 800 reais é o suficiente? Digamos que sim.
Quanto se cobra para lavar louça, cozinhar, limpar a casa, lavar a roupa, passar a roupa, tirar o pó, limpar os armários e os azulejos, lavar o banheiro,aspirar a casa duas vezes por dia, aguar as plantas, organizar os brinquedos,arrumar os lençóis, trocar o lixo e as toalhas do banheiro, fazer a lista de compra e de feira, ir ao mercado, arrumar as capas do sofá? Uns 1000 reais é suficiente? Digamos que sim.
Quanto se cobra para levar um doente ao médico,tirar sua temperatura de hora hora em hora,administrar a medicação na dosagem e horário correto, dar banho,trocar as fraldas, cuidar do bem estar do doente? Uns 1200 reais é suficiente?Digamos que sim.
Quanto se cobra para levar as crianças na escola, acompanhar a lição de casa, ir nas reuniões de pais, costurar o uniforme,verificar se tem as coisas do lancinho  arrumar a bolsa e a lancheira,resolver as brigas com os coleguinhas,consolar pelo fim do namorico, levar no cinema, buscar da balada? Uns 800 reais? Digamos que sim.
Agora, quanto sairia se fossemos pagar mensalmente para cada mulher que executa todas essas tarefas um salário? Ela receberia um salario bruto de 4600 reais,porém, devo lembra-los que esse é um trabalho que não tem adicional noturno, nem adicional por insalubridade,sem ferias,folgas, descansos, horário de almoço. São 24 horas por dia, 168 horas por semana, 720 horas por mês, 8.760 horas por ano, durante toda a vida adulta de qualquer mulher que tenha filhos e não possa pagar para alguém fazer aquilo que culturalmente se destinou como sua função no modo de produção capitalista.
O trabalho doméstico não remunerado,desqualificado, desrespeitado, desvalorizado,porém, extremamente necessário para que os trabalhadores consigam produzir cada vez mais, nunca é criticado ou teorizado pelos  marxista e pelas feministas.
O trabalho doméstico é uma especie de mal necessário, mesmo que seja algo completamente alienante para a mulher.
Se estivermos numa roda de bate papo com intelectuais, e uma mulher disser que sabe cozinhar ou lavar,a olham com cara de: grande coisa. Mas, quando um ilustre intelectual,abre a sua magnifica boca,e diz que sabe cozinhar, já se ouve: oh, fulano cozinha, que magnifico, que belo, que homem.   
Isso sempre me deixa irritadíssima,e eu sempre me pergunto: porra por que até nisso, os homens são mais valorizados. Ele não deveria saber cozinhar uai, como todo mundo deveria, homens e mulheres?
Mas é como,se ele saísse da sua grandiosa pose de racional e objetivo,e se permitisse fazer uma coisa tão simplória e coisificada como cozinhar, e isso faz dele uma pessoa altamente evoluída.
Quem desenhou a tirinha acima, teve uma excelente sacada (e eu espero que tenha sido uma mulher), por que todas nós somos oprimidas e/ou exploradas nesta sociedade. E,os homens, sempre levam vantagem disso. Quer eles queiram ou não.
Conheço homens coerentes com suas posições políticos e ideológicos, mas ainda assim, só são coerentes, porque suas companheiras exigem essa postura fazendo com que eles assumam o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos/as como uma tarefa politica também.
Qual o meu desejo de ano novo?
Mais coerência e consequência por favor, principalmente entre os revolucionários e as revolucionárias de bom coração.

Ps: Uma boa dica de leitura,é o livro Se me deixam falar... de Moema Viezzer.