terça-feira, 30 de abril de 2013

Quando o corpo não é meu...


Uma das características dos crimes de guerra é a aniquilação da identidade do povo vencido.
Uma das formas de fazer isso é matar todos os homens, todas as crianças, estuprar as mulheres e garantir o fim da etnia ou povo vencido.
Foi assim na ex-Iugoslávia, é assim em todos os lugares em guerra.
Talvez, haja uma pequena diferença entre uma guerra e outra, mas o pano de fundo é o mesmo.
Pra se ter uma idéia, na ex- Iugoslávia, haviam campos de estupros coletivos,onde as mulheres eram presas e estupradas dias e dias por vários soldados.
Tenho impressão, que a prostituição das belas croatas tenha a ver com isso.
Em casos de guerra, é nítido o poder do estupro.
Mas em sociedades como o Brasil, Índia, Estados Unidos, o que está por trás do estupro?
Os números das mortes em nosso país, são de uma guerra, isso é fato, mas podemos afirmar que aqui no Brasil o estupro é usado como crime de guerra?
Quando aconteceu o primeiro estupro da história da humanidade?
Será que os portugueses foram os primeiros estupradores?
Numa sociedade dita civilizada como a nossa, com leis e tudo o mais que se chama de civilização, o que faz os homens tratarem as mulheres tão brutalmente?
Quem se lembra do caso de Queimados? Do cara que pagou outros homens para estuprar duas convidadas suas em uma festa de aniversário pro seu irmão, cujo presente foi o estupro?
Me enjoa lembrar disso,assim como enjoa muitas outras histórias: os estupros da praça Tahir, os estupros nas Vans do Rio de Janeiro, os estupros nos coletivos nos horários de pico aqui em SP, e me enjoa principalmente, saber que nesse exato momento, ao menos uma mulher está sendo estuprada, e outra, e outra, e outra. Assim como o relógio não para, os estupros também não. Pode ser que a de agora esteja sendo morta também.
Em guerra ou em regiões bárbaras é possível racionalizar o estupro, mas numa sociedade civilizada como a nossa, como se justifica?
Veja bem, digo que é possível racionalizar, mas não defender. Violar o espaço sagrado do corpo não se justifica por nada, mas em casos de guerra, dentro do contexto da guerra, é possível racionalizar o processo.
Fico pensando, se a opressão estética pelo peitão, pelo bundão. Pela "liberdade" sexual, pelos comportamentos padronizados, pelo ser sempre sexy, pela estética impecável também não são uma forma de estupros contra nós.
Afinal, a muito tempo, nosso corpo deixou de ser nosso.
Fazemos dele o que a moda do momento pede, mesmo que doa, temos que fazer o que a sociedade patriarcal pede de nós.
A sociedade patriarcal também lucra com nossa "liberação sexual", por que se a tempos existe a mulher pra casar e a mulher pra trepar, bem, alguém tem que ser a do sexo casual não é mesmo?
Não, antes que me acusem, não estou dizendo que a virtude, a monogamia ou qualquer outra coisa seja a saída. Estou dizendo que temos que pensar de forma mais complexa os meandros da dita liberdade.
Por que em via de regra, liberdade é escravidão e ignorância é força.

Ps: a grande sacada da sociedade estupradora,é  nós fazer crer que queremos, como queremos.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Funk Sim!


Primeiro de Abril!
Em meio o caos que é minha vida, em meio as angustias da pós, finalmente consegui terminar esse texto.
Ele surgiu, como reflexo de um artigo que enviei pra um encontro de estudos feministas, marxismo e educação, uma pequena discussão que eu propus sobre o caráter afirmativo da cultura no funk.
De lá pra cá, já pensei muita coisa sobre isso.
Mas ontem, aconteceu uma coisa que me inquietou ainda mais.
Estava aqui na sala de casa assistindo ao Lolla Palloza, que passou na tv a cabo: é um festival de música supostamente alternativa para um público esmagadoramente jovem e branco, os tais hippisters (acho que é assim que escreve).
No mesmo minuto, que o Criolo cantava no palco, aqui na rua de casa rolava o famoso pancadão do funk, e enquanto a juventude branca e burguesa de SP curtia seu som, seu lazer, a molequecada preta e pobre daqui da vila levava esculacho da policia.
As duas cenas: a da tv e da rua daqui da vila expressam exatamente o sentido e o significado de ser jovem na sociedade capitalista.
Se os jovens brancos e burgueses não pudessem pagar pelo seu lazer, certamente tomariam as ruas de seus bairros, que é exatamente o que acontece com os jovens pretos e pobres.
Só pra ter uma ideia, do caos que é a coisa,  os dados do Mapa da Juventude da Cidade de São Paulo de 2005/2006, descrevem, dentre outras questões relativas aos jovens paulistanos, as formas de lazer e os espaços para o lazer utilizados na cidade. E pasmem, além de poder pagar pelo lazer, os jovens brancos e burgueses podem usufruir dos equipamentos públicos como parques e praças, por que tais equipamentos, estão na sua grande maioria, localizados nas regiões centrais da cidade, que segundo o mapa, possuem menos jovens e são as mais ricas.
Agora eu pergunto: que raio de formulação de política pública é essa, que favorece a minoria rica? 
E não é só os espaços de lazer que estão no centro, lá estão o trabalho, a saúde, a educação: as pequenas ilhas de excelência criada pelo Estado, como por exemplo, o Parque da Juventude, que fica localizado na região central da Cidade, região essa que tem o menor índice de jovens por metro quadrado, a cada 10 moradores 3 são jovens.
Enquanto isso, aqui no fundão, a duas-três horas das ilhas de excelência ou do centro da cidade, como queiram, a densidade demográfica juvenil é de 7 jovens para cada 10 habitantes.
A cada 10 moradores do Capão Redondo por exemplo, 7 tem entre 15-29 anos. Desses 7, 5 estão fora da escola, 6 estão desempregados ou em subemprego (telemarketing é subemprego, para quem não sabe), 3 estão no crime, 5 são mães com um ou mais filhos e por ai vai. 
Agora, vamos pensar: longe do centro, dos serviços públicos de lazer, por exemplo, sem emprego e portanto sem dinheiro pra pagar pelo lazer em festivais super caros, o que resta pra moçada dos fundões da Cidade?
Pancadão na rua!!!
Podem dizer que o funk é obsceno, mas o tchê tchê re tchê tchê também é, podem dizer que eles bebem e usam droga, mas uma balada de eletrônica também tem bebida e muita droga.
O problema, o nosso problema é que além de sermos pobres, somos pretos. E ser preto nesse país, é um problema maior do que ser obsceno ou drogado.
Pra juventude branca e burguesa Lolla Polloza, pra juventude pobre e preta, tiro de bala de borracha e gás de pimenta.
Por que batuque na cozinha, sinhá não quer!