sábado, 22 de novembro de 2014

A urgência do feminismo negro e o cotidiano da mulher preta!



Quem tiver estomago, capacidade emocional, veja esse vídeo que circulou essa semana pela internet (clique aqui).

Eu vi, mas sem ouvir o áudio, ai sem querer cliquei em cima para copiar o link e ouvir os gritos da moça e o barulho do choque da madeira contra o corpo dela.

É sabido, que a violência doméstica não é exclusividade dos pobres e negros, mas sim uma praga que corta a sociedade burguesa e patriarcal de ponta a ponta.

Obviamente, as mulheres negras estão mais vulneráveis a violência doméstica, pela sua própria vulnerabilidade e marginalidade.

Recentemente, participei de um debate sobre o feminismo negro e Angela Davis, e sai de lá com um sensação de  E agora?

Me lembro, que a dez meses atrás, quando comecei a ler sobre a Angela, um dos primeiros videos que assisti dela, dando uma entrevista, ela contava como se encontrou com o feminismo. Narrava, que havia conhecido o feminismo quando ainda morava na Europa, e que ao retornar aos EUA, ao se deparar com o feminismo branco, reivindicando o acesso ao mercado de trabalho, pensava: nós, negras, já estamos no mercado de trabalho desde a escravidão, não é disso que precisamos.

A partir de então, grande parte de sua atuação no Panteras Negras (sua tarefa dentro do Partido Comunista), era a de contribuir para a organização e emancipação das mulheres negras dentro do movimento.

Angela, narra, que uma das coisas mais importantes, era a de resignificar e discutir com os camaradas o papel e a relação de opressão (muitas vezes fisicamente) atribuída as mulheres negras.

Castigos físicos, obrigatoriedade do trabalho doméstico, submissão sexual eram (ou são) alguns dos problemas enfrentados pelas negras no interior dos Panteras.

O papel de destaque da Angela, em relação aos Panteras, era devido sua atuação junto a eles, ser uma articulação do PC dos EUA com a direção do grupo. Inclusive, há rumores, que quando a direção, disse a Angela: ou sai do PC ou não poderá mais participar conosco, foi devido uma parte dos dirigentes homens (homens aqui é até redundante), estarem incomodados com sua atuação politica, e a insurreição que ela estava estimulando nas negras dentro da organização. 

Nem todo mundo sabe, mas Marcuse, foi uma figura importantíssima nos processos de mobilização nos EUA e na EUROPA, naqueles anos 60, pois não acreditava que descrever a realidade era o suficiente para muda-la. 

Angela, que foi uma de suas alunas prediletas (senão a favorita), também acreditava nisso, e defendia, que todo conhecimento sobre a opressão da mulher negra, só seria útil, se pudesse instrumentalizar a libertação de todas as negras: as acadêmicas ou as analfabetas, as doutoras ou as domésticas, toda e qualquer mulher negra, de todo o mundo.

Nesse exato momento, outra e mais outra e mais outra mulher negra está apanhando com um pedaço de madeira de seu marido, amante, cafetão, dono. Nesse exato momento, outra e mais outra mulher negra está sendo tratada como um animal na mesa de parto. Neste exato momento, outra e mais outra mulher negra não pode ler esse post, por que não poder ter acesso a escolarização e ter garantido sua permanência na escola. Nesse exato momento, outra e mais outra mulher negra, está presa no fundo de uma cela, por que levou droga na buceta para seu companheiro em alguma prisão, por que tinha medo de morrer....

Nesse exato momento, outra e mais outra mulher negra, chora a morte de seu filho, ocupa o pior posto do mercado de trabalho, está sendo violentada em algum rincão do planeta Terra.

E você feminista negra, acadêmica, letrada, doutora, está fazendo o que para mudar isso?

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Onde queres...


Eu sou uma pessoa, que me mobilizo a partir das coisas que me afetam. Essencialmente na perspectiva dos sentidos e dos desejos. Mas poucas pessoas afetam meu desejo.
Acho que lidar com os sentimentos, é o mesmo que medir o grau do seu nível etílico: é impossível fazer isso sozinho.
Por um lado, sempre que uma sensação nova, um querer me desestabiliza, fico feliz por que sei que ainda sou humana, por outro lado, isso é muito ruim, por que no geral, os quereres me desestabilizam.
Marcuse (esse danado), disse certa vez numa entrevista (parafraseando o lindo do Benjamin), que a força geradora não é a tecnologia é o nosso querer, que nossa vida, a intensidade de nossa vida é medida pelo quanto queremos. Ainda nessa entrevista, Marcuse diz, que o efeito mais nocivo da industrialização em massa, e sobretudo do crescente avanço da tecnologia na sociedade moderna, não era só a destruição da natureza e o acirramento da desigualdade social com o aprofundamento da miséria, mas fundamentalmente o impacto disso tudo em nossa subjetividade.
Ele dizia, que lhe parecia, que quanto mais tecnológica fica nossa sociedade, mais tecnológica serão nossas relações (e veja bem, Marcuse falava em 1962), e mais vazios e robóticos ficaríamos: seja no padrão estético engessado, seja na consciência moldada a imagem e semelhança da industria cultural, seja na sexualização hiperativa, repressora e excessiva (porque sexualidade hiperativa, também é uma forma de repressão do sujeito - daí vem a noção de desejo socialmente construído). 
Marcuse dizia que a miséria, a exclusão e o abismo social é resolvido com mudanças econômicas, politicas e ideológicas, mas o impacto desse esvaziamento na formação do individuo podia deixar marcas que poderiam demorar gerações, gerações e muitas gerações para ser superado.
Ás vezes, invejo as pessoas esvaziadas e guiados pela lógica da cisão razão-sensibilidade. Queria ser alguém, que visse o outro como mero objeto que precisa satisfazer minhas necessidades, por que então, as coisas me abalariam menos, ou simples, não me abalariam.
Fico feliz, quando uma pessoa me mobiliza e transpõe aquilo que julgo ser minha racionalidade. Por outro lado me dói, por que em via de regra o outro não me percebe assim, e normalmente isso me dói.
Ontem fui ver de novo, o filme da Angela Davis, chorei de novo, ontem foi meu aniversário, ontem, minha racionalidade foi transposta.
O mais tocante para mim, no filme da Davis, foi a relação dela com o George Jackson, e o quanto isso a torna mais revolucionária, ao menos aos meus olhos. O amor é a coisa que mais nos humaniza, porém, nossa referencia de amor, é o amor burguês, exclusivista, possessivo, egoísta, mesquinho, controlador, castrador.
Construo minha relação pautado na ideia do amor camarada, e entristeço, quando encontro pessoas que tendem a reduzir tudo a uma racionalização desenfreada e desnecessária.
Que possamos ser livres, que nosso prazer possa ser livre, que nossa vida possa ser livre, que nosso amor seja livre.
Que nos façamos livres.
Obrigada você, que me pôs a refletir e a me humanizar.
Hoje meu voto, é que muitos e muitas de nós possa saber o que é o amor, o que é amar.


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

New York Parte 1 (Bogotá-Colombia)


Uau! É verdade, eu realmente fui para NYC! E realmente encarei os dotô na Columbia University.
Podemos dizer, que essa viagem teve três partes: 1º Bogotá-Colombia, 2º Columbia University, 3º Harlem. Como é muita coisa para contar, vou escrever cada parte num post.
Bora lá?
Saimos de Sp na sexta a noite, a ideia era irmos no show do Ba antes da viagem, porém pegamos trânsito e decidimos ir direto para o aeroporto. Pegamos o voo e tudo tranquilo, com exceção da turbulência na parte que sobrevoamos a Amazonia, eu realmente achei que ia morrer, o avião balançava demais e chovia muito.
Chegamos as 5:30 da madrugada em Bogotá, fizemos os tramites e fomos dar um rolê em Bogotá. 
É uma cidade muito linda, mais achei cara, 50 dolares renderam 95 mil pesos, e mal conseguimos passar a manhã.
Bogotá parece uma cidade de porte médio do interior de SP. As montanhas ao fundo dão um ar mistico a cidade. Fomos de coletivo até o centro histórico, se perdemos no meio do caminho e pegamos um táxi. Levamos um pelé do táxista (normal) que cobrou 4 mil pesos a mais, do que custaria a viagem.
Ao descermos na praça Simon Bolivar, encontramos um cara que disse ser americano falando em inglês (oh coitado) mas quando dissemos que não tinhamos dinheiro ele foi embora. Ah, antes de levarmos um pelé do taxista, tomamos café, eu comi um doce delicioso chamado Mariposa (é massa folhada com a borda coberta de chocolate). Super recomendo. 

Enquanto tiravamos fotos dos prédios históricos na praça Simon Bolivar (na praça fica o centro administrativo do País, como o palácio presidencial), conhecemos um artista de rua, que fez um cartão romantico pra mim e pro Marcos <3. 

Fomos no Museu da Moeda, no Museu do Botero, no Museu de Arte Moderna, passamos na biblioteca Nacional, tiramos foto na faixada do Centro Cultural Gárcia Marques, descobrimos a 25 de Março colombiana, e almoçamos num restaurante local, um prato que não lembro o nome mas que tinha o melhor frango que já comi em 28 anos de existência!


O Museo Botero é uma delicia! Aquele monte de imagem de pessoas gordinhas, me senti em casa. Voltamos para o Aeroporto, e embarcamos sentido NYC. Essa parte da viagem foi tranquila, sem turbulência (graças a Jah!).

Em relação a Bogotá, o que eu recomendo: usar o transporte coletivo, é extremamente rápido, limpo e eficiente. As mulheres colombianas se parecem muito com as brasileiras, e lá também há negros, e segundo o taxista, eles vivem em seus bairros próprios. 
Essa parte do bairro próprio eu não entendi, mas imagino que deve ser o Capão Redondo de lá.
Para quem for passar em conexão por Bogotá, e quiser ir ao centro historico (todos os museus são gratuitos), é só pegar o onibus no portão 7 do Aeroporto Internacional El Dorado, descer no Portal Eldorado (nome do terminal de ônibus) e pegar o onibus sentido Universidades e descer na praça Simon Bolivar, você chega em 40 minutos e paga 5000 pesos ida e volta (por pessoa). Lá também tem bilhete único, então é bem tranquilo.
As fotos abaixo são a vista do pátio interno do complexo dos museus e a vista da rua do centro histórico, onde ficam os museus em Bogotá, a faixada da Cadetral da Sé e a visão geral da praça Simon Bolivar.





No próximo post conto como foi chegar em NYC e as primeiras aventuras na terra do Tio Sam.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

São eles, são elas!



Saudações leitora, saudações leitor!
Obrigado pela paciência de ler essas mal escritas linhas!
Mas, se você veio até aqui, vamos ao que interessa!
Tenho uma tendência incontrolável de escrever sobre coisas que me mobilizam, e, nada tem me mobilizado mais, que os alunxs da escola em que trabalho.
É fascinante a diversidade e a vitalidade, recheada de resistência e sobrevivência daqueles meninos e meninas.
Veja você, a escola é opressora, dominadora, castradora, formatadora (e não formadora), mas ainda assim, eles conitnuam lá, todos os dias esperando algo de novo, algo que lhes dê sentido.
Hoje, eu estava no portão, esperando meu horário, e fiquei ali, olhando aqueles corpos jovens, docializados (ou não?), e pensando na inquietude, na necessidade latente que eles têm de viver desesperadamente a vida.
De repente me dei conta, que talvez essa nessecidade frenética, urgente, desesperada, impulsiva de viver o aqui agora com  maior intensidade possível, esteja ligado ao fato de que, eles sabem que não viverão muito.
Outro dia uma aluna me contou que dois dos seus irmãos tinham morrido em troca de tiro com a PM e um outro estava preso em Salvador, daí o motivo da família ter vindo para São Paulo.
É uma urgência desesperada a deles, e me parece, que isso não tem só a ver com a liquidez dos dias de hoje. É algo viceral, desesperado, sofrido, inadiável.
Diz a crendice popular, que a escola á o passaporte para uma vida melhor, e as vezes me pego pensando, se do jeito deles, não é isso que eles esperam da escola: o passaporte para uma vida sem dor nem drama, com direito a ir ao Mc Donalds e o Habbis (alguns vão dizer que isso é desnecessário, mas, faça o experimento de passar na frente do Mc todo dia, e sempre se perguntar: que gosto isso tem, ou de pensar que lá deve ser um lugar legal, que a felicidade deve morar ali, afinal, todo comercial tem gente rindo, e feliz), de ter uma mãe igual da novela, uma vida igual da Malhação, sei lá, de ter e ser tudo o que a sociedade esfrega na cara deles todos os dias, e diz ser sucesso. 
Talvez, eles tenham a esperança, que na escola encontrarão a solução para o pensamento mais incomodo, a satisfação do desejo mais maluco, ou qualquer outra coisa, que faça valer a pena levantar cedo no frio, e ficar 5 horas num lugar, onde até para ir no banheiro, você deve pedir permissão (segundo eles, até na cadeia ladrão pode cagar sem pagar um sapo).
Que lugar é esse, que é pior que a cadeia, mas que é feito para formar cidadãos de bem e trabalhadores habilidosos? Que lugar é esse, que mesmo não gostando, eles vão todos os dias?

Afinal, o que eles e elas, querem da escola?

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

SÓ MINA CRUEL: ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE GÊNERO E CULTURA AFIRMATIVA NO UNIVERSO JUVENIL DO FUNK



RESUMO:

O presente trabalho é parte integrante da dissertação de mestrado da autora. Têm por objetivo refletir sobre as relações de gênero entre jovens pobres moradores da periferia da Cidade de São Paulo, e parte do discurso narrado nas letras de FUNK escritas e ouvidas por esses jovens. Parte das reflexões de Herbert Marcuse e Theodor W. Adorno (Teoria Crítica da Sociedade) sobre o caráter afirmativo da cultura e formação, buscando considerar as relações de poder e dominação presente na sociedade moderna de base tecnológica, e quais são as formas que a opressão e a exploração sobre a mulher a partir da cisão entre razão e sensibilidade e o controle da natureza, se materializam no discurso presente no FUNK e nos espaços de relação entre os gêneros na nossa sociedade. A metodologia empregada foi a analise de 21 letras de FUNK veiculadas nos meios de comunicação (rádio e televisão) através de programas voltadas para o público juvenil da classe popular e a análise desse material a luz das contribuições da Escola de Frankfurt sobre formação, cultura e racionalidade tecnológica. As considerações apontam no sentido de que tais jovens (produtores e consumidores do FUNK enquanto produto cultural da sociedade de massas) reproduzem em seu discurso as mesmas relações de opressão e submissão em que a mulher é submetida ao longo do processo civilizatório, mesmo que revestido de uma pseudoliberdade aparente na exacerbação da sexualidade feminina e do "direito" das jovens em usufruir do prazer que seu corpo pode lhes proporcionar. Fica evidente, que há então, uma perversão deste discurso em prol da figura masculina no universo do FUNK, o que não difere dos demais espaços sociais, onde apesar do avanço crescente da mulher no mercado de trabalho, seu corpo (seja através da maternidade, da sexualidade ou da estética) ainda está sujeita aos desejos do patrão, do marido, do namorado, do cafetão e do conjunto de toda a sociedade burguesa imersa na ideologia do patriarcado.




Para ler o trabalho completo, clique AQUI

sábado, 2 de agosto de 2014

“A BUCETA É MINHA”: O CORPO COMO SUJEITO NO MUNDO




Quais são as intersecções possíveis entre feminismo, funk e empoderamento da mulher? A pedagoga Jaqueline Conceição se debruçou sobre essa questão em artigo que será apresentado na Universidade de Columbia
Por Marcelo Hailer*
O nome de Jaqueline Conceição circulou nesta semana nos meios de comunicação por dois motivos: primeiro, pela campanha online que ela lançou para angariar fundos para uma viagem aos Estados Unidos, pois o seu artigo “Só Mina Cruel – Algumas Reflexões Sobre Gênero e Cultura Afirmativa no Universo Juvenil do Funk”, que trata da questão de gênero no universo do funk, foi selecionado para ser apresentado em um congresso da Universidade de Columbia, uma referência no mundo. O segundo motivo é que a campanha chegou na cantora de funk Valesca Popozuda, que gostou do projeto e resolveu ajudar Conceição a bancar a sua viagem para a terra do Tio Sam.
Conceição resolveu tratar de um tema que é polêmico nos debates feministas, a questão da mulher e do feminismo no meio do funk. Quando cantoras vociferam frases como “a porra da buceta é minha”, estão praticando autonomia sob seus corpos? “Na minha interpretação é isso, dizer que a buceta é dela é mais do que só dizer ‘que ela dá pra quem ela quer’ e o corpo como nossa unidade, como sujeito no mundo é a coisa mais importante, o que gente tem de mais de imediato é o nosso corpo”, analisa Conceição.
Jaqueline Conceição teve o seu artigo sobre a questão de gênero no universo do funk selecionado pela Universidade de Columbia. (Foto: Arquivo pessoal)
Jaqueline Conceição teve o seu artigo sobre a questão de gênero no universo do funk selecionado pela Universidade de Columbia. (Foto: Arquivo pessoal)
A respeito da polêmica com setores que não enxergam nuances feministas nas performances das cantoras do funk, Conceição não se furta do debate e levanta um questionamento interessante. “Pra mim, sempre que pensei em feminismo, seria algo para garantir a minha liberdade, mas para isso tenho que me livrar do trabalho doméstico e o que a maioria das feministas faz? Pagam outras mulheres, normalmente negras, para fazer o trabalho doméstico que elas não fazem. Então, de certa forma, a liberdade dela não é plena, a liberdade dela está calcada em cima do trabalho de alguém”, comenta a pedagoga.
Revista Fórum – De onde surgiu a ideia de escrever o artigo “Só Mina Cruel”?
Jaqueline Conceição - Escrevi esse artigo pra publicá-lo num evento científico que aconteceu em Marília (SP) no ano passado. Eu queria discutir a questão do feminismo, mas não queria ficar presa à questão da academia. E, na rua de casa, tinha muito pancadão e aquilo me chamava a atenção, foi daí que surgiu a ideia de fazer esse artigo.
Fórum – De que maneira você relaciona a questão do funk e do feminismo? 
Conceição – O funk mobiliza as meninas a pensarem em uma apropriação maior do seu corpo e isso está muito próximo daquilo que as feministas vêm discutindo: o direito ao corpo, ao espaço, ao prazer, da valorização da mulher enquanto sujeito histórico. E na medida em que as meninas que cantam o funk vão protagonizando cada vez mais o cenário cultural, vão também se apropriando de um contexto histórico.
Fórum – O funk é um espaço predominantemente masculino. Acredita que com a ascensão de cantoras e grupos femininos o espaço do funk se torna mais feminino? 
Conceição – Na verdade, acho há uma disputa, mas não uma disputa no sentido formal, e sim dentro das relações sociais, que é um campo de extensão, e isso como em qualquer outro campo social. Na medida em que as mulheres vão se construindo enquanto mediadoras, produtoras, consumidoras e cantoras de funk, vão disputando com os homens esse espaço que está posto.
As mulheres estão conquistando mais espaço no funk?
As mulheres estão conquistando mais espaço no funk? (Foto: 24hNews)
Fórum – Dá pra falar de um empoderamento da mulher no funk?
Conceição – Dá pra pensar em um empoderamento da mulher a partir do funk, inclusive por que o funk abre um debate. Por exemplo, eu estava na sala de aula com os alunos discutindo sexualidade e nós estávamos falando da questão do colo do útero, uma coisa muito pontual e informativa de escola. E um menino falou para uma menina: ‘mas você não se masturba?’, e a menina fez uma cara de desesperada e ela ‘não’, e o menino: ‘mas você tem que se tocar… Assim, pega o espelho, coloca lá e olha’. Na minha geração isso jamais aconteceria e pra mim isso é o advento do funk, ele traz isso à tona e para os jovens que estão em formação é inaceitável que uma mulher não sinta prazer. Isso o funk traz, essa coisa da masturbação, e ele traz um debate que, talvez, na minha geração a gente não tinha o acesso que eles têm hoje.
Fórum – Quando pegamos a frase “a porra da buceta é minha”, podemos dizer que são as meninas dizendo: o corpo é meu e faço o que eu quero?
Conceição – Na minha interpretação é isso, dizer que a buceta é dela é mais do que só dizer ‘que ela dá pra quem ela quer’ e o corpo como nossa unidade, como sujeito no mundo, é coisa mais importante, o que gente tem de mais de imediato é o nosso corpo. Para uma mulher, numa sociedade como a brasileira que controla o processo reprodutivo, que controla o padrão de como ela deve ser vestir, falar e como deve ser, legitimar a posse do corpo e dizer que é dela, é um empoderamento sim.
Fórum – Temos alguns setores feministas que discordam dessa tese. O que pensa disso? 
Conceição – O funk ele é o que ele é. Ele nem só liberta, e nem só aprisiona. Como qualquer produto cultural da sociedade em que a gente vive, uma sociedade massificada, consumidora, onde a própria cultura é mediada pela indústria, o funk é um produto que foi criado e que está sendo consumido, hoje, em grande escala e que ele pode tanto libertar quanto aprisionar.
Por exemplo: pra mim, sempre que pensei em feminismo, seria algo para garantir a minha liberdade, mas para isso tenho que me livrar do trabalho doméstico e o que a maioria das feministas faz? Pagam outras mulheres, normalmente negras, para fazer o trabalho doméstico que elas não fazem. Então, de certa forma, a liberdade dela não é plena, a liberdade dela está calcada em cima do trabalho de alguém. Mesmo sendo uma relação de trabalho, não deixa de ser um trabalho desvalorizado, um trabalho que não é reconhecido e que as próprias feministas desconsideram, que é o trabalho doméstico. É a mesma coisa o funk. Ele traz uma liberdade por que possibilita uma discussão maior sobre a questão do corpo e de lidar com o papel da mulher, mas, como ele está dentro de uma lógica machista, acaba reproduzindo o machismo. O mesmo ocorre com o trabalho doméstico, numa sociedade machista, cabe à mulher fazer o trabalho doméstico. É uma tensão que está posta.
Fórum – Acredita que a vestimenta das cantoras de funk representa o desejo da hierarquia masculina?
Conceição – Totalmente, reforça. Aí é que está o xis da questão. Costumo dizer que o desejo é socialmente construído, a própria concepção do que é “prazer” para nós, mulheres, muito provavelmente foi construído e mediado pelos homens. Quando uma mulher diz que tem vários parceiros, ou que gosta de levar tapa na cara, ou gosta de chupar isso e aquilo, o que a gente tem que perguntar é: ela faz por que é legítimo pra ela ou está reproduzindo aquilo que foi ensinado sobre como deve ser comportar?
Mas quero fazer uma observação sobre algo que sempre me pego pensando. Se por um lado a gente tem um boom de informação pra juventude e eles têm acesso a uma série de coisas, por outro lado a questão da sexualidade ainda é um tabu. Nem a família nem a escola discutem como tem que ser discutido. Essa geração de jovens que consome funk e que tem de 15 a 20 anos, a formação sexual deles provavelmente foi mediada pela pornografia, e a pornografia é repleta de violência. A forma como a pornografia concebe a relação sexual e a sexualidade é violenta.
Muito provavelmente nas músicas eles reproduzem essa formação que tiveram, mediada pela violência.
Fórum – Agora, tem uma questão que é a seguinte: quando um homem canta que “comeu” de várias maneiras, tudo bem. Mas, se a mulher canta que deu pra vários, causa um choque. Isso está inserido num machismo cultural histórico, não?
Conceição – Quando fui fazer a pesquisa entrei justamente na questão de gênero. Não tinha segurança pra dizer que era só machismo, ou só libertário. Tinha a dúvida se não estava no meio dos dois caminhos e no final cheguei à conclusão de que é as duas coisas, às vezes ao mesmo tempo, e às vezes em oposição.
Tem uma música do Catra que ele canta “mama eu”, alguma coisa relacionada ao sexo oral, e na música ele incentiva as meninas a fazerem o sexo oral e a receberem o sexo oral. Durante um show, as meninas cantavam num coro, num frenesi. Em uma sociedade como a nossa, que vive sob um tabu sexual, estar na companhia de outros jovens e poder expressar a sua sexualidade sem que ninguém fique falando pra você, é de fato algo libertador. E como eu disse no exemplo na sala de aula, isso abre precedente para outras coisas, para uma outra geração de homem que vai ter outro olhar sobre o prazer da mulher. Pode ser que ele não seja um olhar emancipador, mas já é um olhar para a emancipação.
Mr. Catra, um dos principais nomes do funk brasileiro. (Foto: Revista Afro)
Mr. Catra, um dos principais nomes do funk brasileiro. (Foto: Revista Afro)



*Entrevista minha, concedida na Revista Fórum - 02.08.2014

domingo, 6 de julho de 2014

O caso do vagão rosa: vagão só para mulheres, sociedade só para homens


Reza a lenda urbana, que numa cidade enorme como São Paulo (aproximadamente 92 milhões de habitantes), onde 52% da população são espécies do sexo feminino, um simples vagão de trem na cor de rosa, por cada composição, livrará as mulheres da violência sexual diaria neste meio de transporte.
Essa mesma lenda, afirma, que dessa maneira, só será vitima de violência quem quiser, já que, embora as mulheres sejam maioria, um vagão por composição será o suficiente para  protege-las.
A mídia, que alimenta essas lendas, mostra em seus programas, diariamente, ora sutil, ora escancarado, as mulheres como objeto: de desejo, de consumo, de decoração, de submissão. Na mídia, as tais mulheres, são sempre novas, e quanto mais novinha melhor. 
Há um programa em especial, um tal de Zorra Total, que não por acaso (ou seria acaso?), tem um quadro onde uma mulher é assédiada, e demonstra gostar, afinal ela é feia, que mulher feia não ia gostar de ser abusada, não é mesmo?
Mas, esse papo de mulher feia sendo abusada é noticia velha, e, na terra tão tão distante onde se passa a lenda do vagão rosa, noticia velha não embrulha nem peixe da feira. 
Nessa terra, os homens, evoluídos e esclarecidos, não conseguem controlar suas pulsões, e o único jeito de proteger os cavalheiros do terrível diabo de buceta, é criar um vagão só para mulheres.
Mas vale a pena dizer, que na terra onde essa lenda se passa, os homens não sabem pensar, e tem dificuldade em entender que uma saia curta, um decote ou um copo de cerveja não são jeitos meigos dizer SIM, POR FAVOR ME ESTUPRE, coitados, são tão ignorantes.
Bem, no fim da lenda, é dito, que nessa terra onde essa lenda se passa, o futuro das mulheres é sombrio, e a moral da história é que mesmo estando uma mulher no comando desta grande nação, mesmo as mulheres sendo a grande maioria, nós só merecemos um vagão, nós só precisamos de um vagão.

sábado, 5 de julho de 2014

Pelo direito a felicidade!


Ando sentindo uma dor esquisita no peito.
É uma dor que fica ali, doendo, doendo, doendo.
Me pergunto, como se sente algo, que não sabe de onde vem ou por quê?
Sabe, essa dor me impede de escrever, de sorrir...
Essa dor as vezes me impulsiona, as vezes me para, as vezes me faz gritar, as vezes me cala...
Vejo essa dor em outros rostos, outras histórias, na minha memória...
Essa dor me faz gente, e eu me pergunto: o que é ser gente?
Gente é levantar cedo, trabalhar, pagar as contas, sorrir ao ver um cachorro, discutir a crise mundial, acreditar que o céu é o limite?
O que nos faz feliz? A propaganda diz que é o Pão de Açucar, ou um cartão de crédito.
Fiz tudo que me disseram: cresci, estudei, casei, tive filhos, militei, e mesmo assim, não me vejo gente, não me sinto gente.
Me sinto carne, a carne mais barata do mercado, a carne negra.
Me sinto multidão, sem rosto, sem nome, sem história, sem passado, sem presente, sem futuro.
Me sinto puta, perdida, largada, sozinha, execrada.
Me sinto nada.
Dói, a dor que sinto dói. Não no corpo, não na alma, não na consicência, é uma dor que dói, sem quê nem porquê, sem lugar ou endereço.
Sinto, e tudo que sinto, é que junto com nossos direitos, deviamos ter o direito a felicidade.
Mesmo, sem saber o é ser feliz, como é ser feliz, como se pode ser feliz... acho mesmo que todos nós, deviamos ter o direito de ser feliz.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Isso me dá falta de ar - parte II



São 6 anos.
6 anos que descem pelo ralo. Em algumas culturas as águas usadas são reaproveitadas e servem para fazer outras coisas. Coisas novas diferentes.
Mas, quando se chega no fundo, para onde mais se pode ir?
Eu cheguei no fundo. Onde não há mais racionalidade, estou onde começa o caminho da mágoa.
Não existe caminho sem volta, eu sei. Podemos tudo que quisermos, recomeçar, começar, refazer, fazer.
Me sinto sem ar, sem chão, sem apoio. Quem me dera poder fazer como na música, e fazer um traje espacial pra na Lua viver.
Mas a realidade é mais concreta que o realismo literário.
Fico me perguntando, qual é doce mágica da convivência. Venho de uma trajetória familiar, onde todos os relacionamentos foram ou são fracassados. Meus pais se separam quando eu tinha seis anos, uma parte da família não conversa com a outra, minha mãe não fala comigo a mais de três meses.
É nessas horas que eu compreendo todos os estudos sobre o fracasso social de indivíduos com trajetória familiar fracassada.
Eu devia lutar para romper com esse estereotipo, amar devia ser a primeira tarefa revolucionária de qualquer sujeito que se proponha viver a revolução.
Assim, me fiz uma pessoa pela metade; e reproduzo minha trajetória familiar de fracasso e projeto nos meus filhos o fracasso social e afetivo.
Só se pode amar em coletivo, em comunhão. Mas as pressões e a dinâmica da vida na modernidade nos aliena da experiência amorosa de tal maneira, que amar passa a ser só mais necessidade capital para se viver num mundo racionalizado e medido.
Assumo aqui, minha semiformação e minha unidimensionalidade. Como fruto desse sistema, sigo pela metade, numa realidade forjada e desumana.
Como diria o poeta, sei lá, essa vida é uma grande ilusão.
É duro, quando vemos em nós mesmos, toda a mutação que essa vida no cativeiro de uma realidade medida pela racionalidade da mais valia (mais valia social, mais valia afetiva, mais valia sexual, mais valia racial), é duro quando reconhecemos que não somos diferentes dos sujeitos alienados e atrasados.
Saber pensar não me torna humana, a única coisa que poderia me tornar humana seria saber amar.
Mas como saber amar, se fui privada da experiência, a única capaz de me ensinar o ato de amar?
Marcuse se aqui estivesse, diria, que aqueles que nunca amaram, são mais capazes de amar, e que justamente por não estarem presos no estereotipo do amor burguês, seriam capazes de negar essa concepção de amor posse, e criar uma forma de amor libertadora e emancipada.
Toda reflexão intelectual, possibilita que avancemos na nossa realidade imediata, como uma especie de portal; portal esse, que ao cruzarmos, podemos superar um centímetro nossa realidade limitada, alienada e cindida, rumo a elaboração de uma nova forma de sermos e estarmos no mundo.
Seria o amor, algo que é subjetivo e abstrato, capaz de pensado e teorizado, a fim de ser objetivado para que então a gente possa superar, a forma alienada do amor burguês?
Poderia ser o amor, algo que nos liberte de nós mesmo, numa perspectiva de nos humanizar e nos tornar mais conscientes de nós e da realidade que nos cerca?
Eu não sei, a única coisa que sei, é que as coisas continuam caindo no ralo.  

Ps: eu, como marxista que tento ser, espero que amor também seja dialético; e, que a dialética, me salve mais uma vez.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sobre o corpo e a maternidade


A coisa mais gostosa, quando nosso filho é bebê, é ficar deitado sentindo a pele macia e novinha do bebê.
Mas, a medida que os filhos crescem, os momentos de contato pele a pele vão diminuindo.
Gosto tanto de ficar deitada com os meninos na cama, brincando, se beijando: a gente brinca de salão de beleza, brinca de massageador, brinca de guerra de coceguinhas...
Sempre fico com a sensação, de que mesmo quando forem adultos, eles saberão que meu corpo ainda é um espaço deles, e que desde o tempo da gestação, não há uma barreira entre nós.
É uma coisa simbólica, mas acredito que no físico, o simbólico se concretize; e que ao poder tocar meu corpo sem pudor, eles sentirão que eu estou sempre ao alcance deles.
Cresci, e me lembro muito pouco de poder tocar minha mãe ou meu pai, nem mesmo depois de adulta. Um simples abraço é motivo de constrangimento.
Demorei muito, para compreender a função afetiva e emocional de tocar o outro. Foi preciso conviver cotidianamente com meu companheiro, que pude vislumbrar a infinitude que é a relação dos corpos.
Que muito antes, de ser um objeto sexualizado, o corpo é um território, onde o outro pode chegar a mim, e eu posso ter o outro, mas aprendi também, que meu corpo é a parte mais importante de mim, da minha existência.
Muito mais do que ensinar meus filhos a não mentir ou não roubar (até por que, um dia pode ser necessário roubar e mentir), muito mais do ensinar a moral e os bons costumes, gosto de pensar que ensino para meus meninos, que o mundo pode ser tudo que quisermos, que o amor começa por se amar e amar sua família, amigos, camaradas.
Permito que meus filhos tenham acesso ao meu corpo, por que assim, no processo de desvelamento da vida, juntos, podemos sentir e ter uns aos outros.
Não existe lugar melhor do que o aperto dos bracinhos pequenos e os beijinhos com gosto de bala de maça verde.
Que um dia, ser mãe nos torne menos escravas do cuidado infantil e doméstico, e sim, mulheres que se constroem e se percebem como sujeitos históricos na dialética da vida com as crianças e os jovens.
Que ser mãe, seja um processo de amadurecimento e fortalecimento da humanidade que há em nós mulheres, e não uma cadeia de obrigações morais e um labirinto de síndromes e traumas.

Ps: Escrevo esse post pensando numa amiga querida, a Iara Domingos, mãe fresca e que sempre me lembra (eu, a mais calejada) da dor e da delicia de se descobrir materna.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Quando lavar o banheiro se tornou um ato político .


Ah, o FaceBook.
Nada como ele para agitar essa tarde quente e monótona. 
Como diria o poeta: dias quentes e longos pagando paixão.
A pessoa que vos escreve, postou lá em terras virtuais (é, a terra dos amores eternos - SQN), que o seu compa tem feito com muito zelo as tarefas domésticas. Algo, como se fosse uma comemoração.
E, de fato, um homem lavar o banheiro, na sociedade machista que vivemos, deve ser muito bem comemorado (e usado de exemplo, para que outros homens aprendam).
Por que afinal de contas, ser feminista liberando a companheira para sair com quantos parceir@s quiser é fácil (até por que, o cara também se beneficia disso). Duro mesmo é cuidar dos filhos por igual, cuidar da casa por igual e assumir seu machismo sem recalque.
Esse papo todo de banheiro e opressão, me lembrou um trecho do livro do Marcuse - A ideologia da sociedade industrial, quando ele explica o processo de dessublimação repressiva.
É mais ou menos assim: para o desenvolvimento da civilização, o homem (ser humano) teve que reprimir suas pulsões sexuais, e sublima-las para outras atividades produtivas, mas hoje, no atual estagio de desenvolvimento tecnológico da sociedade industrial, o homem não precisa mais fazer esse controle excessivo; o problema, é que o processo inverso da sublimação, o que Marcuse chama de dessublimação, acontece de forma arbitrária ao desejo do individuo, e isso devido, a cisão entre o desenvolvimento da cultura (desenvolvimento das forças produtivas) e o desenvolvimento da civilização (desenvolvimento ou formação dos indivíduos). 
Ok, o ser humano vive no espaço, numa realidade completamente artificial (graças ao desenvolvimento tecnológico) mas, aqui na Terra, a humanidade morre de fome, devido a má distribuição e ao mau uso dos recursos naturais e produtivos.
Se, pensarmos no campo da luta feminista, temos a mesma questão posta.
O homem moderno, reconhece que a mulher não é sua propriedade, e que deve ser livre para se relacionar com outros parceir@s, e ai vemos o PoliAmor, As Relações Livres e etc,  e cabe frisar, que toda essa discussão de poliamor e afins, é uma discussão fortemente marcada pela teorização, ou seja, cultura (cultura no sentido que a teorização estaria dentro do campo do desenvolvimento tecnológico, enquanto técnica ou algo teórico, portanto técnico). Mas, as pequenas coisas, ligadas ao cotidiano, não teorizadas, como o trabalho doméstico ou a não garantia de creche nos espaços de militância (porque na maioria das vezes nos espaços de militância, são os homens que dirigem e decidem as coisas), acabam caindo no esquecimento ou sendo banalizadas e naturalizadas.
Obviamente, a libertação da mulher do seu espaço de opressão, está ligada a todos os campos: politico, sexual, emocional, domestico, materno, escolar, acadêmico, econômico, profissional, religioso e tantos quantos surgirem e forem necessário.
Homens, entendam meus queridos, toda e qualquer relação entre um homem e uma mulher (e aqui não estou falando biologicamente, escrevo para qualquer individuo que se reivindique homem ou se reivindiquem mulher) estará fatalmente marcado pela relação assimétrica de poder entre os gêneros. 
Relação essa criada e legitimada em nossa sociedade; no entanto, o que fará essa relação ser o mais igualitária possível é a nossa capacidade de estarmos atentos e de sermos fortes para lidar com a opressão que nos ronda feito um fantasma.
Caminho longo e difícil.  Sejamos honestos com nós mesmos, e vamos nos dando puxões de orelha sempre que necessário.
Para mim, até que se prove o contrário, todo e qualquer homem é meu inimigo (mesmo meus filhos, que saíram das minhas entranhas), é a luta pela libertação, que nos mostra quem é nosso/a compa.
Se precisar dizer será dito, se precisar cobrar será cobrado. Quer gostem ou não.
Já perdi amigos, desfiz laços familiares consanguíneos, e vire e mexe sou olhada de canto de olho em vários lugares. 
Mas isso, faz parte da minha escolha de dizer não a submissão. Pode ser meu pai, meu marido, meu chefe, meu orientador, pode ser DEUS. Sempre que eu me sentir ameaçada ou oprimida, direi não e reagirei a altura.
Que nada nos defina, a não ser a liberdade.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Eu tenho medo.


Eu tenho os mais diversos tipos de medo.
Mas, os que tem me acometido no último período são os medos maternos.
Olho pros meus filhos, em especial pro João, que é o mais velho, e fico pensando que se eu pudesse, o deixaria livre dos males desse mundo.
Ao terminar essa frase, já ouço um certo alguém me dizer, que devo lutar para que ele cresça num mundo humano e justo. Mas aí eu penso: que bom seria se as desgraças desse mundo, só o atingisse na idade adulta.
Amanhã é o primeiro dia de aula dele na escola, digo, no 1ºAno do Ensino Fundamental, e ele está todo motivado, empolgado, ansioso. 
Fico pensando nas possíveis frustrações, desde a professora ou professor ser um profissional estressado (pelos anos de exploração trabalhista), de que as coisas não saiam como ele está imaginando. A escola é pequena, a sala é super lotada (38 alunos!), faltam recursos didáticos.
Mas, ás vezes também penso, que a expectativa dele pode ser bem simples: socializar com outras crianças e ocupar o lugar dele nesse espaço importante que é a escola.
João valoriza muito a escolarização e a leitura. Talvez pelo fato de ambos sermos professores (eu e o pai), então, desde a gestação, ele está inserido no mundo escolar.
Me dói tanto que ele tenha que sofrer, que tenha que vivenciar experiências de racismo, preconceito social. Me dói saber que por mais inteligente que ele seja, a sociedade o olhará e o tratará como se ele fosse menos por que é negro.
Ah, se eu pudesse privar ele dessas coisas feias da vida.
Mas eu não posso, tudo que eu posso fazer, é ensinar pro meus filhotes que só a luta muda a vida, e que somos negros não importa o que haja. Que temos orgulho de nossa descendência africana.
É assim que supero meu medo, supero ele, com fé na luta e de que a nossa luta de hoje será a deles amanhã.
Me sinto, como se eu mandasse o João para um matadouro, por que a gente sabe que a escola pública é terreno ardiloso, e que lá tem de tudo.
Se eu pudesse dizer alguma coisa para a nova professora ou professor do João, eu diria: tenha fé camarada, a sua luta é a nossa luta!
Mas um ano começa, todos nós aprenderemos coisas novas. Sejam os números ou a letras, seja como ser menos egoísta, seja como amar mais e sofrer menos.
Que seja bem vindos os novos aprendizados.
Que sejam bem vindos!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Isso me dá falta de ar...


Me dá falta de ar...
Como fazer uma critica aos outros, sem que essa critica derrube pingos em mim?
Partindo do principio, da unidimensionalidade dos sujeitos, ou seja, que não há mais diferenciação entre os indivíduos, são todos iguais e manipulados pela ideologia da sociedade industrial; tudo aquilo que critico no outro, tenho em mim.
De qualquer maneira, alguma coisa está fora da ordem.
Pequenas impressões do cotidiano, que vão sufocando, sufocando, sufocando... até dar falta de ar.
Enquanto eu preparava o jantar, fiquei pensando sobre como a vida é tão igual e tão contraditória ao mesmo tempo.
Tive a sensação de viver numa gaiola invisível. Presa nos mesmos problemas, igual a música cotidiano do Chico.
Só que ao meu ver, a culpa do cotidiano enfadonho não é só dela (como nós faz crer a escrita poética machista do Buarque), que faz tudo igual, mas dele que não se esforça para construir algo novo. Ela pressiona e ele cede. É como, se o cotidiano fosse algo dado, indestrutível, imutável, e que, essa marcação do todo dia ela faz tudo sempre igual, trouxesse pra ele, um certo conforto, um alívio.
Então, me peguei pensando, o quanto é difícil romper com as velhas práticas, e que volta e meia, também me pego querendo o conforto do cotidiano.
Por mais que a minha rotina, seja não ter rotina (cada dia é um flash), no fundo, as coisas acontecem sempre dentro de uma mesma lógica.
Como disse um professor certa vez, os estereótipos também são necessários. Sem eles ficaríamos perdidos (a segurança de saber que determinadas  coisas são como são), sem eles teríamos que nos reinventar todos os dias. 
Reinvenção é uma delicia no delírio poético, na prática, buscamos a constância, por que ela nos dá segurança, e a segurança é algo que todos nós precisamos.
Precisamos da segurança de um abraço, de uma poupança, do salário, do teto que nos protege das intempéries da natureza, precisamos da segurança de ter um orientador que vai faxinar nossa dissertação, precisamos da segurança da rotina, da segurança do sexo fácil descompromissado, mesmo a loucura é uma espécie de segurança, por que ao ser louco, já se tem noção do que ser, fazer ou esperar.
Ao cabo e ao fim, nossos comportamentos, desejos, frustrações, aspirações estão todas dentro de um mundo altamente previsível e controlado. Senão por nós, por alguém que também é controlado, medido e consumido pela mesma lógica.
Bobagem achar que se pode controlar tudo? Pra mim, bobagem é achar que tudo não é controlado.
E tudo isso, me dá falta de ar.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

As crianças mentem... mas e os adultos?

Hoje, vendo meus filhos brincarem com as crianças da casa ao lado, ouvi o João mentindo.
Sinceramente não tive nenhuma vontade em corrigi-lo. As crianças mentem. Mentem por vários motivos. No caso do João, acho que foi para não fazer feio para o amigo.
O fazer feio, a gente pode entender pela reprodução do valor social de não se passar por menos: menos rico, menos informado, com menos brinquedo, enfim...
Mas o que me deixou pensativa (a ponto de voltar a escrever no blog), é o por quê os adultos mentem?
Tenho uma amiga, linda e querida, que eu amo, mas que vivo acusando de ser infantil (como se ser criança fosse algo condenável), ela me faz pensar muito, sobre a valoração que damos as crianças, e fico pensando até que ponto, os tais defeitos infantis dela, não são só hábitos dos adultos que as crianças incorporam em seu modo de ser e estar no mundo.
E sendo assim, não é ela que é infantil, mas sim o mundo adulto que é perverso demais, e a culpabiliza pelo fato dela seguir a essência dela mesma, o modo dela de ver e estar no mundo.
Tenho dificuldade em ensinar moralidade pros meus filhos. Até por quê pra mim, combater o machismo, o racismo, o sexismo, a homofobia e a exploração não ensinamento moral, e sim revolucionário.
Mas, como vou dizer pro meu filho: olha não minta, se eu minto?
Como dizer pra ele não ter preguiça se eu gosto de levantar tarde?
No fundo, acho que os adultos mentem, por que a gente sofre muito com a pressão pela perfeição estética, moral, sexual, profissional, acadêmica, racial, politica...ai, a gente mente como forma de responder a essas expectativas. E estar sempre ali, junto ao grupo e/ou sendo protegida pelo grupo.
Acho que o maior conflito que vivemos é a luta entre aquilo que somos e aquilo que dizem que temos que ser (ou até mesmo, o que queremos ser).
Outro dia, conversando com a minha cunhada, contei que eu e o Marcos estamos construindo um relacionamento livre da monogamia. Ela se assustou e perguntou de onde tiramos isso? Eu respondi pra ela: na prática, na maioria das vezes é assim, por que então não ser realista e lidar com a questão com respeito e com base na realidade?
Ás vezes a felicidade me parece um copo de café quentinho e um abraço apertadinho dos meus meninos. Tão simples, e tão complexa ao mesmo tempo.

Ps: divaguei, divaguei, e num disse nada. Fazer o que, às vezes é assim mesmo.

Ps2: Aqui caberia uma discussão filosófica sobre ética e moral, e também debater um pouco o que 500 e tantos anos de lavagem mental católica fez conosco. Mas, hoje eu quero sair só.