sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Eu acho que ser mulher...



Vi essa foto no Facebook. Fico pensando quem escreve uma idiotice dessa. E o pior, em mulher que compartilha e tem mulher que curte,e ainda posta comentário escrito: somos foda!.
É uma tentativa de valorizar aquilo que nossa sociedade determina como  os traços da personalidade feminina? Por que se for isso, temos sérios problemas nessas frases. 
Ou será essa foto uma tentativa de nos ridicularizar, oprimir e inferiorizar mais?
Será que todas as mulheres são fofas (carinhosas), complexas (complicadas), malucas (mentalmente incapaz), obsessiva ( é, tipo uma patologia psicológica), sentimos frio (isso ficou confuso,porque acho que todo ser vivo percebe as mudanças climáticas, ou não?), viramos onça (ou seja, nunca podemos ser racionais, porque quando deixamos de ser maluca, complexa, confusa, nos portamos como um animal irracional), mas na verdade somos seres movidos por hormônios e emoções ( logo, não temos nenhuma chance de sermos racionais, e se não somos racionais somos objetivamente inferior ao homem,ser dotado da capacidade plena de raciocinar e decidir, correto?), inventamos a doçura (será que foi a mulher que inventou o açúcar?) , e minha preferida: nós gostamos mesmo de criar e recriar (ou seja, nós gostamos de ser mãe,é de ficar em casa criando receitas novas para nossos homens racionais).
Isso me lembrou,um livro que durante anos foi best seller aqui no Brasil, chamado Por que os homens fazem sexo e as mulheres fazem amor? - uma visão cientifica e bem humorada de nossas diferenças, escrito por dois charlatães, quero dizer, pesquisadores  norte americano.
Veja,o livro é uma tentativa de explicar cientificamente as diferenças entre homens e as mulheres e pretende promover a paz entre os sexos, propondo que cada um aceite suas características biológicas, ou seja, a tese central do livro é que homens e mulheres são diferentes biologicamente e que nada pode mudar isso.
De todas as besteiras da foto acima,e de todas as coisas idiotas e absurdas que o livro aborda, a que mais me incomodam é a naturalização da maternidade.
A forma como ambos tratam a maternidade como algo completamente natural a mulher. Como se uma das características das mulheres, ou a principal coisa que faz da mulher mulher é a maternidade, isso claro depois de ter um homem só pra si.
Talvez, eu fique presa a essas duas questões: a maternidade e ter um homem só para si, porque acho que de todas as coisas que me foi ensinado pelas mulheres da minha família e pela sociedade como um todo (novelas, filmes, livros,contos de fada e etc), é que uma mulher de verdade só é mulher quando tem filho e se é capaz de segurar seu homem.
Já discuti isso em outros posts (Santa Puta, Sobre filhos e cachorros),e tenho a impressão que quanto mais tento fugir disso, mais isso me persegue.
Acho muito fascinante,quando mulheres que conhecem meu companheiro, dizem para ele: posso ser melhor que sua mulher! Não seria mais simples,se ela só fosse o que ela é? Porque essa necessidade mortal de competir e ser melhor, ver quem fica com o macho primeiro, quem cuida do filho melhor, quem é mais magra, mais bem vestida, mais descolada? 
Lógico que a competição está na pauta do dia do capitalismo, todos somos competitivos. Mas se um cara perder uma mina pra outro cara, ela era puta. Se uma mina perde um cara pra outra mina, ela não foi mulher de verdade. Somos sempre a culpada.
Em todos os lugares, em cada pedacinho do cotidiano, está lá a dose diária de submissão e subserviência.
Eu acho que ser mulher é algo que precisa ser revisto e repensado pelas próprias mulheres.
Para começar a pensarmos isso, indico três filmes Tomboy, A fonte das Mulheres e A Vênus Negra 
São três histórias diferentes, de diferentes tempos e partes do mundo. Histórias fortes e tristes : dor,sofrimento,perda, angustia, humilhação, violência...
São histórias de mulheres comuns. História reais ou que podem ser reais.
Histórias que dizem o que é ser mulher em qualquer tempo, em qualquer lugar. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Amélia que era mulher de verdade!


Adoro o Facebook! Rola cada preciosidade por lá, uma delicia!!!
Antes de ler este post, sugiro a você car@ leitor/a que veja o vídeo antes (caso você não tenha visto). Você só contextualizará nossa discussão de hoje depois de assisti-lo.
Para quem já teve o enorme prazer em vê-lo no Facebook, podemos começar.
A muito tempo, venho abordando em algumas postagens aqui no blog, o fato de que a mulher é ensinada o tempo todo e por tudo a ser submissa, e que no fundo da alma deles, os homens gostam mesmo é de mulher submissa.
Para que fique bem clara minha argumentação, vou usar três exemplos do cotidiano, para explicar o quanto as abobrinhas que as religiosas do vídeo ai em cima dizem não é tão incomum no mundão fora da igreja e dos templos, e que inclusive, muitas de nós multiplicamos em nosso cotidiano a máxima da submissão, quer consciente ou inconsciente.
Eu como feminista, marxista e revolucionária que sou, fiquei estarrecida logo de cara quando elas dizem: elas tem carreira e não sabem pregar um botão. 
Na hora me lembrei de uma tarde, em que fui participar do curso sobre as Mulheres e o capitalismo, promovido pelo Partido que eu militava. Bem, estávamos todas reunidas, um grupo de mulheres de vários setores e extratos diferentes da classe trabalhadora e num determinado momento conversávamos sobre o trabalho doméstico e seu caráter opressor e explorador (como dizemos o trabalho domestico é a mais valia do patrão sobre a mulher do operário, pois já que existe alguém que lava, passa, limpa, cozinha e trepa com operário de graça, o patrão se isenta de acrescentar essas despesas no custo do salário); lá pelas tantas, uma camarada bancária disse a seguinte frase: nunca aprendi a cozinhar, lavar, limpar a casa ou pregar um botão, e neste momento a dirigente do curso perguntou para ela: mas alguém faz isso na sua casa correto, e quem é que faz, a bancária respondeu: "minha" empregada. E disse isso, com um orgulho inigualável, finalizando assim: eu não sou mulher para fazer esse tipo de coisa, não nasci para isso, nasci para trabalhar (detalhe viu, trabalho doméstico não é trabalho, trabalho mesmo é o dela no banco) e não pregar botão.
Ok. 99% das mulheres que tenho contato no meu facebook se indignaram com essa questão do saber pregar botão como uma das principais tarefas das mulheres, mas nesse mundo, alguém tem que pregar o botão né mesmo? E quem é que prega o botão enquanto as feministas modernas discutem a libertação sexual no boteco entre uma cervejinha e outra????? Uai, as mulheres pobre e negras que por sua condição de lupén fazem do trabalho doméstico seu oficio. E para quem nunca precisou exercer esse oficio, a submissão é principio fundamental: ser piamente submissa aos gostos e desejos da patroa, que certamente acha que limpar o ladrilho com cotonete é algo essencial para a higiene da casa. 
Perceba que no vídeo  todas são brancas, devidamente maquiadas e vestidas com toda a pompa necessária a posição que ocupam, e certamente elas também não sabem pregar um botão; mas cabe a elas como pastoras ensinar suas discípulas, que certamente são de outra classe social ou mais pobres a como sem portar. Claro, que as religiosas do vídeo, defendiam para elas também essa submissão, afinal é um dos principais princípios cristãos. Mas, essa necessidade da mulher submissa, extrapola esse limite do templo e esta muito firme em nosso inconsciente e cotidiano.
Outro exemplo, sobre como a submissão está conosco lado a lado todos os dias de nossa vida, está localizado nas bancas de jornais e revistas e atende por nome de revista de assuntos femininos, também conhecida por NOVA, MARIE CLAIRE, GLOSS, BOA FORMA e afins. 
Bem, quem lê o blog sempre deve se perguntar qual meu problema com essas revistas. E eu digo: a quantidade de merda ideológica que constam em suas páginas e a quantidade de mulheres ditas modernas que leem essas ideologias, e que interiorizam esses conceitos sem nem perceber. E, não por acaso, justamente o conceito de submissão. Nós somos ensinadas a sermos submissas desde o óvulo, passando pela escola com os contos de fadas e isso vai sendo inculcado em nós até a morte: filmes,novelas, livros (poxa, esse tal de 50 tons de qualquer coisa, é um manual horrendo a submissão), series de tv, reality shows, religião, revistas, pornografia e etc.
Absolutamente tudo que for feito pela indústria cultural voltado para homens e mulheres, terá um toque ideológico da submissão como pano de fundo. Absolutamente tudo.
E então, chegamos no terceiro ponto, meu velho e chato argumento que homem gosta mesmo é de mulher submissa. Nem é tão culpa deles isso, afinal, foram educados numa sociedade que diz o tempo todo que a mulher é menos que o homem (mas menos no sexo, não podemos esquecer o poder da Pandora). Musicas como a da Amélia, a pornografia, a publicidade (como na maioria das profissões, o meio publicitário também é majoritariamente masculino), reforçam essa concepção. 
Um bom exemplo? Comercial de cerveja: o foco é os homens, as mulheres estão ali só para azarar. Isso só reforça o imaginário popular que homem vai pro boteco para espairecer, discutir futebol, falar de politica; mulher não, ela vai para paquerar com as amigas. Qualquer reportagem de qualquer jornal que envolva boteco,  é sempre essa a caracterização da matéria. Mais um bom exemplo ideológico da mulher submissa: a mulher submete sua vida, sua rotina ao homem, seja para alimenta-lo, vesti-lo, satisfaze-lo, adora-lo. 
Poxa, a gente não pode ir pro boteco discutir feminismo? Claro que não, se um grupo de mulheres forem vistas desacompanhadas de machos em um boteco, é obvio que elas estão lá para paquerar e são obrigadas a ouvirem as cantadas mais estupidas e nojentas e sorrirem felizes por serem desejadas. 
Qualquer pessoa é contra a forma de submissão proposta pelas religiosas, é ultrajante em pleno século XXI, até os homens são contra. 
Mas, e contra a submissão politica, cultural e econômica? Dessas submissões, quant@s são contra?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Chorei até ficar cansada....


Há um conceito sobre normalidade. Em estatística, esse conceito é estipulado pela média do comportamento das pessoas, que acaba virando um padrão. O problema, é que no capitalismo, os padrões são criações pautadas na necessidade do lucro: aquilo que gera lucro é tido como normal. Embora, cada vez menos, existam pessoas que estejam dentro desse "normal".
Confesso que passo muito longe dele, embora, todos os dias, tome minha dose de normalidade.
Mas sofro, porque volta e meia me pegando imaginando como deve ser feliz a vida de quem é normal.
Você sabe, as pessoas normais ué, todas aquelas que são como a Bailarina do Chico Buarque. Todas as pessoas do mundo, ou a sua grandíssima maioria, são perfeitas como a Bailarina.
No fundo tenho inveja de quem é assim Bailarina: gente que não sente ciúmes, que não tem medo, que não sente dor, que não fica doente, que não desiste, que nunca erra, que sempre tem auto estima, que tá sempre belo, que tá sempre magro, que é sempre confiante!
Eu sou torta, sem começo e sem fim, sem garantia ou validades.
Ás vezes acho que as pessoas deviam ser como flores plásticos: já nascem perfeitas e nada lhe faz mal.
Não há nada mais trágico que uma flor morta... nada mais doído do que uma flor que depois de tanto perfume e esplendor, morreu e secou, sozinha num vaso.
Dias como o de hoje, me fazem pensar na vida. É como se o tempo cinza, me deixasse cinza também.
Penso nas coisas que já vivi, nas pessoas que conheci. Nas pessoas que amei e a vida me levou. Penso nas pessoas que não souberam me amar, e na dor que elas me causaram. Penso nas coisas que perdi: meu pai, minha filha, as ingenuidades que se foram.
Penso o quanto tudo isso foi me deixando mais dura, menos viva.
Por que se vive? Qual o sentido de tanta dor e sofrimento? Fome, guerra, racismo, homofobia,machismo, violência, trem lotado, falta de grana... por que vivemos?
Por que levantamos todo dia e nos olhamos no espelho e pensamos que hoje vai ser diferente?
Sempre que buscamos nos humanizar, criamos a meta de sermos cada vez mais Bailarina e menos gente: não sofrer, não amar, não errar, não sentir, não doar.
Hoje eu só chorei, até ficar cansada e adormeci...
Sem espelho, sem olhos vermelhos, só as flores do canteiro.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Que a Tigresa possa mais que o Leão!


Estava terminado um texto do mestrado, e ouvindo essa música do Caetano (TIGRESA), e fiquei pensando quando existirá um mundo, onde ser mulher não será uma maldição?
Tenho trabalhado em um artigo sobre a educação sexual dos jovens, onde discuto, que essa formação é originada nos filmes pornográficos. 
Há uma lacuna na sociedade sobre quem deve educar as novas gerações em relação a sua sexualidade: desde o próprio sexo em si até o uso ou valor social do sexo, e claro, sobre machismo e homofobia.
Como nem a escola e nem a família assume para si essa tarefa digna, e, a religião mistifica e oprimi,quem faz as vezes de construir tais conceitos e possibilitar as experiências para os jovens acaba sendo a industria cultural (rádio, tv, filme,revistas e agora a internet como um todo).
O problema, é que o conceito de sexualidade da indústria cultural é um conceito violento: o sexo como instrumento de dominação do forte (homem branco - raras vezes o não branco ) sobre o fraco (homossexual,mulher, negr@, animal). E desta maneira, as novas gerações vão construindo sua concepção e sua forma de ver e lidar com a sexualidade.
No texto A Boceta de Pandora, discuto um pouco sobre o pseudo poder que a buceta tem em relação aos homens,pseudo poder esse legitimado pela pornografia como um todo. Desse conceito de poder da buceta, se desdobram muitas coisas, inclusive o fato de que toda puta (prostituta) é feliz e gosta do que faz, que a prostituta é mais emancipada que a mulher que não é prostituta, justamente por gostar de sexo e utilizar esse gosto para obter lucro.
Não podemos dizer, que sejam só os homens que tem sua sexualidade formada a partir da pornografia, muitas mulheres também consomem a pornografia, e de certo, essas mulheres devem concordam com esses homens.
A questão que chama minha atenção, e estou dividindo com os leitor@s do blog, é que essa leitura sobre a sexualidade feminina, pautada pelo fundo de opressão da pornografia é um problema, não só por inculcar que a violência é a única saída para a satisfação, mas por incentivar a alienação dos sujeitos com seus próprios corpos.
Do ponto de vista sexual, homens e mulheres são alienados em relação a sua própria sexualidade.
É mito achar que os homens são sexualmente mais satisfeitos e que conhecem melhor seu corpo por isso são mais capazes de sentirem prazer do que a mulher. O fato é que na loteria biológica  os homens deram sorte e nasceram com o órgão sexual exposto. O fato de ter aquele treco ali balançando o tempo todo, faz com que eles percebam o prazer intrínseco na coisa. 
Mas ao mesmo tempo, nem sempre sabem fazer uma mulher realmente ter prazer, mesmo que passem bastante tempo consumindo a pornografia.
Se a formação em todos os campos da vida é permanente, a formação sexual também o é. Se aprende sobre sexo e a sexualidade o tempo todo e em todos os momentos de nossa vida, e medida que a alienação se aprofunda; a relação do sujeito com seu próprio corpo se aprofunda cada vez mais: desde o uso de acessório, fantasias sexuais, instrumentos,animais, violência.
Cada vez menos, conseguimos estabelecer com nosso próprio corpo uma relação direta de prazer, ou precisamos do outro, e se o outro não quiser, tudo bem, eu forço, porque só se realiza através da violência (quem achar que eu exagero, dá uma olhadinha nos sites de vídeo pornô que 99% dos filmes trabalha com a violência explicita ou implicitamente).
Obviamente, o aprofundamento da alienação e da barbárie no inconsciente dos sujeitos, vai se objetivar nas relações sociais e culturais, uma passada rápida no youtube dá conta de ilustrar a quantidade de videos sobre casos de abusos de filhos e irmãos contra mãe, avós, tias, irmãs. É de arrepiar a alma.
Se nós já chegamos no fundo do poço, a última barreira é o que ainda se tem como sagrado: a família. E, é impressionante o número de videos pornográficos  contos, histórias sobre relações forçadas com mães, irmãs, primas, tias, filhas...
Qual o limite do prazer? Esse limite é ditado pela moral? 
Qual o certo e o errado do prazer?
E, o que mais me inquieta, por que nessa selva, a tigresa nunca pode mais que o leão?
Por que as mulheres sempre devem usar sua sexualidade para satisfazer os homens? 
Afinal sempre é assim, os homens querem ter várias parceiras, mas não querem ofender a moral vigente, então alardeiam o fim da monogâmica, e pressionam as mulheres (suas parceiras e possíveis parceiras) a serem livres também, criam regras e regras sobre isso, mas poucos se preocupam de fato com a libertação sexual, social, econômica, politica e cultural da mulher. O que eles querem mesmo é gozar sem culpa!
Agora, quero deixar bem claro para os homens feministas pós modernos: liberdade sexual sem igualdade cultural, acadêmica  econômica (principalmente), política e racial se chama bordel e não liberdade.
No bordel sim, as mulheres vivem sua liberdade sexual (já que para os homens liberdade sexual é sinônimo de quantidade de parceiras), mas continuam submissas aos gostos de seus clientes e as ordens de seus cafetões.
Faço minhas as palavras do poeta: [...] Ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar, e que vai poder ser o que quis inventando um lugar. Onde "a humanidade" e a natureza feliz vivam sempre em comunhão... e a Tigresa possa mais que o Leão[...]

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Espelho, espelho meu...



Sempre que eu ando de trem, gosto de observar as pessoas.
Desde que escrevi o Post "No Brasil a pobreza tem cor, sexo e idade!" , fiquei pensando sobre a estética. 
No livro  " A situação da classe operária na Inglaterra" do Engels, ele descreve como vivem os operários nos bairros pobres da Inglaterra, em um capítulo ele descreve os operários fisicamente e dá detalhes dos malefícios do trabalho escaldante (jornadas de 16 horas diárias para os adultos e de 12 horas para as crianças) na constituição física e na aparência dos trabalhadores, sobretudo das mulheres.
Hoje no trem, fiquei imaginando o que Engels escreveria sobre a aparência das mulheres trabalhadoras (pq afinal, elas trabalham em média 18 horas por dia, entre o trabalho assalariado,o trabalho domestico,a maternidade e o transporte coletivo).
Veja, o ideal de beleza ensinado a muito tempo para meninos e meninas, desde os contos de fada, é ser branca, com cabelo liso, se possível de olho claro, jovem (se der pra ter peitão e bundão os homens agradecem). 
Existem alguns artifícios que podem fazer qualquer mulher bonita, porque afinal não existe mulher feia, existe mulher desarrumada  ,mesmo que ela trabalhe igual uma escrava e sofra com o calor no coletivo lotado na ida ou na volta entre sua casa e trabalho.
Fiquei olhando para as mulheres a minha volta, e pensando que de repente a forma como os programas de comédia retratam as mulheres pobres não é caricatura, pode ser real. Vi mulheres com o corpo deformado pela maternidade e pelo trabalho pesado (ao contrário do que as feministas da Gloss e Nova pensam, trabalho doméstico é bem pesado, por isso que elas pagam uma miséria pra outra fazerem o que é degradante demais para elas). Vi mulheres que tentam se enquadrar nesse padrão doentio de beleza - o padrão burguês), que compram roupas e sapatos da moda, usam maquiagem mesmo sem saber como usar os acessórios, se preocupam em manter seus cabelos lisos e tudo isso se torna cômico porque eu via mulheres descabeladas depois de um dia de labuta e com o rosto maquiado, derentendo de tanto calor, já que no trem, o ar condicionado nunca funciona.
Fiquei pensando porque fazemos isso? Porque nos desesperamos para alcançar esse padrão que nunca será nosso?
Hoje de tarde estava numa reunião, só com professoras doutoras, todas refinadíssimas em seus saltos, seus cabelos lisos e suas maquiagens perfeitas, e fiquei pensando na diferença entre os dois mundos.
Lembrei também sobre as luvas brancas: no período colonial e escravocrata no Brasil as damas que tinham condição de ter escravas, usavam luvas brancas como sinal de distinção e poder econômico  As luvas deviam estar sempre branquíssimas, pois quanto mais branca, mais evidente era que elas não realizavam o trabalho doméstico e portanto tinham posses para terem escravos domésticos.
Essa analogia da luva, me lembra muito a cena do trem e da reunião: obviamente as doutoras de maquiagem impecável, unha perfeita, saltos finíssimos são as mulheres da luva branca  e as trabalhadoras de maquiagem derretida as escravas. 
Porém, hoje estamos no capitalismo, a aparência é tudo: ninguém quer parecer escravo né mesmo. Então hoje, as escravas do Século XXI se esforçam para parecer com suas senhoras: se elas não sabem falar francês e comer um sushi, elas tentam usar a mesma roupa, o mesmo corte, a mesma maquiagem. E pensam, que assim, a fria distância entre o patrão e o trabalhador se desfaz na loja de departamento ou na concessionária de carro.
Nos falta espelho, para nos olharmos e vermos quem realmente somos, para descobrirmos quem podemos ser.
No fim, já dizia Engels em seu excelente livro de 1800 e algumas décadas: a diferença entre os proletários e a burguesia já começa no berço, e, eu acrescento:  só termina com a revolução.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Filme Indicação: J. Edgar (2012)


Não sou uma especialista de cinema (na verdade male mal sou especialista em alguma coisa, talvez em vagabundice).
Mas, mesmo assim, gosto muito de cinema, e escolho filmes para assistir como quem escolhe a melhor comida pra ser devorada. 
Este filme do Di Caprio é muito bom. Uma das melhores atuações dele que já assisti. A dobradinha Clint Eastwood e Di Caprio ficou muito boa.
De fato,o que me chamou a atenção no filme (além das ótimas cenas, envolvente história e excelente atuação), é o conflito secundário (ou não), que envolve o J. Edgar (protagonizado pelo Di Caprio).
Antes deixa eu explicar a história do filme: esse cara o J. Edgar foi o criador do FBI, isso, nos anos 10 do século passado. O filme inicia com os ataques dos anarquistas italianos a alguns políticos norte americanos (a mesma situação do filme Saco e Vanzzeti), a ameaça revolucionária era tão grande ao EUA naquele período, que eles criam uma divisão secreta para combater tais ameaças; e é ai que surge a figura do J. Edgar. Poderosíssimo,  chantageava todo mundo pra ter o que queria e poder estruturar tudo o que hoje sabemos ser o FBI.
O conflito secundário a que me referi,é o fato dele ser homossexual. Não é uma coisa explicita no filme, mas a medida que a história se desenvolve, torna-se nítida a homossexualidade do personagem principal.
Tem uma cena do filme, em que o J. Edgar está num quarto do hotel com seu assistente e ele diz pro assistente que vai se casar (ah,os dois estão de roupão e parece que acabaram de tomar banho), rola uma briga feroz por ciúmes, e o final o J. Edgar grita: não vá embora, eu te amo!
Ali, naquele momento, eu me dei conta o quão terrível é o conceito de heteronormatividade: ele amava sinceramente o outro, mas não podia manifestar este amor, não podia tocar ou beijar o ser amado em público e não podia vivenciar a experiência completa desse amor.
Ao longo do filme ele cria formas de manifestar esse afeto sincero, são formas confusas e doloridas.
Pela primeira vez na minha vida, entendi, o conceito de "sair do armário" - porque o armário sufoca, esconde, nega, oprime.
Não sou homossexual, e nem imagino o horror que deve ser negar a si mesmo, mas penso que vale a pena ver o filme, observar essa questão e pensar: e se fosse comigo?
Fica a dica para as férias!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

No Brasil a pobreza tem cor, sexo e idade!

Essa foto é muito emblemática!
Proponho aqui, o exercício de analisarmos esta imagem e compreender os significados implicitosna mesma.
Uma mulher negra, esteticamente feia (sim, é tão engraçado porque até nós negros, a achamos feia) com elementos esterotipados sobre a mulher pobre: desdentada, que tenta manter os cabelos penteados, exageradamente enfeitada (seja na maquiagem, nos acessórios ou na roupa muito florida). Atrás dela, uma mulher feia também, mas, politicamente emancipada (afinal ela representa a mulher que é presidenta da república). E em volta das duas, mulheres brancas e esteticamentes agradáveis e muito suculentas para os machos espectadores.
Podemos dizer que é uma imagem machista e racista? Machista com a mais absoluta certeza, agora racista... temos que considerar algumas questões primeiro.
Nas minhas andanças academicas pesquisando sobre a juventude brasileira, pude identificar algumas coisas; a primeira delas é o que perfil da juventude pobre brasileira se traduz da seguinte maneira: jovens entre 15 e 24 anos, marjoritariamente feminino, negro e pobre.
Fiquei me perguntando, afinal os negros são pobres, por que são mulheres e jovens? As mulheres jovens são pobres, porque são negras? Os jovens pobres são pobres, porque são negros e mulheres?
Claro, que aqui no texto estou trabalhando com a tendência populacional, mas de toda maneira os dados são bem claros quando descrevem o perfil dos pobres brasileiros e vão incluindo: baixa escolaridade (as mulheres são a maioria quando se trata de fracasso escolar e abandono da escola), por ter baixa escolaridade acabam sendo absorvidas pelo mercado informal e pelo subemprego, por estarem no sobemprego estão mais vulneravéis a violência e a criminalidade.
Além disso, não são contempladas com politícas de saúde, portanto acabam tendo muitos filhos, contraindo doenças como a AIDS e o HPV, e por terem dificuldade em bancar sua autonomia financeira, sofrem da violência doméstica por parte de seus companheiros.
Por mais estúpido que pareça, uma foto como aquela lá em cima, não é racismo: é o retrato da realidade.
Os dados oficiais sobre a população brasileira, sobre a violência em territorio nacional, sobre empregabilidade e escolaridade vão apontar que o Brasil pratica o racismo insitucionalmente (pois desde as leis abolocionistas vai excluindo o negro da sociedade e o empurrando para a miséria) quanto ideologicamente, pois a partir do discurso (seja televisivo, politico, cultural, sexista) vai legitimando o racismo e naturalizando -o.
Tomando as analises do Marcuse: quando a realidade deixa de ser alvo da critica e se normatiza, quando as consciências de opressor e oprimido tornam-se uma só, é sinal que estamos imersos na barbárie.
Penso que só nós resta o socialismo, como única saída viavél e necessária para o caos que vivemos.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Santa Puta



Nem santa, nem puta! É assim que a maioria das mulheres que eu conheço gosta de se auto intitular.
Fico pensando qual o peso que está por trás de cada expressão dessa.
A puta a gente já sabe, afinal a puta é aquela que faz o que quer com seu corpo, inclusive vender o prazer que ele pode proporcionar.
Mas e a santa? O que é uma mulher santa? Existem mulheres santas? As mulheres santas, como elas são?
A maioria das feministas de vanguarda dizem que não querem rótulos, que querem ser o que quiser; mas não podemos desconsiderar o valor da linguagem. O viés ideológico das palavras, e principalmente a relação de poder que marca as palavras e a forma como elas são usadas.
Outro dia, estava conversando com uma jovenzinha evangélica e, que queria se relacionar com um homem casado. Ela dizia que sempre saia com homens casados por que não gostava de se envolver, e que embora fosse virgem, não se considerava nem santa e nem puta. Que sabia fazer um homem sentir prazer, mas embora fosse evangélica e sua religião condenasse o sexo antes do casamento ainda mais com homens casados, não se considerava uma puta, mas também não era uma santa evangélica dessas que não sabem o quer.
Veja, é uma jovem de 20 anos! Depois dessa conversa fiquei pensado o peso ideológico dessa expressão para nós mulheres  para o nosso processo de formação de identidade do ser mulher, a nossa construção de gênero. Ela me disse, que a mulher dele devia ser a santa, porque era casada e tinha um papel a desempenhar, e que ela era livre e podia sair com quem quisesse e quantos quisesse.
De repente, fiquei pensando que o mundinho oprimido das mulheres se resume a 2 grupos:
1º As solteiras - que disputam com as casadas seus machos (portanto as putas)
2º As casadas - que devem se comportar de acordo com sua posição social (portanto a casada)
Eu não pauto minha vida por essa ótica, mas se pensarmos bem, tudo leva a crer que é assim mesmo que a coisa funciona. Algumas pistas: liga no rádio, e espera tocar uma música, o enredo fatalmente vai ser, ela me quer, eu tô na noite, mas eu sou seu! Os homens são o máximo e sempre há mulheres disputando-os, e a que quer tem que mostrar pra ele que é melhor (mas um embate entre a santa e a puta). Abra uma revista dessas para mulheres tipo NOVA, MARIE CLAIRE, GLOSS e tantas outras porcarias, sempre haverão matérias sobre como segurar seu marido, como saber se ele está com a outra, dicas infalíveis de sedução que vai faze-lo esquecer todas as outras.
Isso sem falarmos nos filmes, novelas, romances. Sempre há a tensão entre ele e elas.
Se a santa é socialmente legitimada, a puta é socialmente necessária. E, nessa tensão entre a moral e o prazer vamos formando nossa identidade enquanto mulher.
Eu nunca tive problema nenhum em afirmar minha identidade PUTA, lamento que outras mulheres tenham receio de se assumir e investir nesse discurso falido de que não queremos rótulos. Nós rotulamos o tempo todo: mãe, feminista, médica, faxineira, advogada, amante e por ai vai.
Assumir sua identidade te ajuda a perceber quem você é, qual sua história, quais seus caminhos!
Experimente sair do armário, e assumir quem você é.
Só se liberta, quem se percebe acorrentado!

Ps: no meio dessa tensão politico ideológica presente na linguagem, cabe uma discussão muito pertinente sobre os Relacionamentos Livres, e seu suposto caráter libertador. Afinal, esse papo de ser livre é coisa de Santa ou de Puta?