quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O famigerado mercado de trabalho, visto por nós meras mães trabalhadoras.

Antes de falar sobre o Tropa de Elite 2, sobre o aborto ou ate mesmo sobre o segundo turno das eleições presidenciais; eu gostaria de compartilhar minhas angustias sobre o meu retorno ao mercado de trabalho.
Não pense que minhas angustias são sobre o bebê: com quem deixa-lo, se vão cuidar bem, se ele vai me esquecer. Isso meus caros, é café pequeno perto da maior de todas as questões: nós, mulheres trabalhadoras não somos queridas pelo mercado de trabalho. As dificuldades são muitas, infinitas. 
Já é conhecido de todos que nos mulheres ganhamos menos que os homens para realizar a mesma tarefa, e mesmo nos locais de trabalho onde os salários são igualmente baixos, isso é devido ao fato de tais locais de trabalhos serem notadamente ocupados em sua maioria por mulheres (aqui se aplica muito bem a regra do vale quanto pesa).
As contratantes, preferem mulheres que não tem filho,caindo por terra a noção da necessidade do trabalho para as mulheres que são mães. Além do preconceito conosco, e das criticas por nos chamarem de desalmadas por deixar o filho tão pequeno na creche, ou a critica por ter tido filhos, e por ter deixado ele na creche.
Ao contrario do que parece, a maternidade nos escraviza, nos aliena, nos oprime. A única coisa que depende somente da mulher, é algo que cabe aos outros decidir.
A nos, cabe aceitar pacificamente as determinações sociais, politicas, economicas e culturais sobre a maternidade.
Duvida? Então te proponho uma simples reflexão: historicamente as politicas de planeamento familiar caminharam de acordo com as necessidades da mão de obra, "no Brasil, a saúde como questão social surgiu na década de 20 durante a expansão da economia cafeeira, período de formação da sociedade capitalista. Nessa época, o aumento da população era necessário para expansão da economia. Ao longo do processo de consolidação da sociedade capitalista o Estado brasileiro adotou uma postura pró-natalista, mas, principalmente, a partir dos anos 60, pressões americanas forçaram a entrada de entidades internacionais no Brasil, que tinham como principal objetivo controlar o crescimento populacional dos países pobres. Assim, os anticoncepcionais entram no mercado e as mulheres, uma vez conseguindo dissociar sexualidade de procriação. No final da década de 70, passam a defender a regulação da fecundidade como direito de cidadania reivindicando o controle sobre o corpo e contestando os interesses controlistas." (fonte: http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v34n1/v34n1a05.pdf)
Esse dados são oficiais, e penso que isso confirma a ideia da determinação economica sobre a escolha da mulher a cerca da maternidade, somado as questões da mão de obra, tem se as determinações culturais, com toda a herança judaico cristã que atrela a função social da mulher a maternidade, e por consequencia aos sofrimentos físicos, sociais, emocionais da maternidade na sociedade capitalista como resultado da atitude da EVA em comer o fruto proibido (vide Génesis capitulo 3 versículos 16-19), o que na pratica se traduz a mulheres gravidas de filhos indesejados aceitando a função de mãe por obrigação,  como forma  de reafirmar a função feminina na sociedade.
No centro de todas essas questões, há a mulher do século XXI que é magra, autonoma financeiramente,tem filhos  ( mas só um, no maximo dois, mais do que isso é irresponsabilidade e falta de autoestima), é uma deusa sexual, clamorosa e,que só existe na capa das revistas Claudia e Mari Clare.
A gente que vive na periferia sabe que o buraco é bem mais em cima, e que a realidade por aqui é outra. 
A gente sofre com o machismo, quando vê diariamente na televisão piadas ridículas sobre nossa condição feminina (a de hoje foi o repórter do Globo Esporte satirizar com o goleiro de um time europeu por sua péssima performance em um jogo com a frase: o que a gente pode esperar de um homem com o nome de Amélia?), além de programas ridículos de comédia que seu único recurso para ter audiência é utilizar o corpo seminu de mulheres. 
A gente que vive na periferia sofre com a opressão: tem que voltar a trabalhar, mas não tem creche para nosso filhos. Enquanto a gente, que na periferia quando vai voltar a trabalhar sofre com a distancia do local de trabalho de nossas casas e com a jornada tripla de trabalho: trabalho fora de casa, trabalho dosmetico, e o cuidado com filhos.
A gente que mora na periferia, a gente que é mulher,  sofre com a discriminação porque os empregadores acham que vamos faltar no trabalho porque como não tem vaga na creche, quem vai cuidar de nossas crianças.
Essa semana li um artigo na Revista Cláudia sobre o trauma de retornar ao trabalho, o artigo falava sobre o que é melhor fazer: deixar o bebe com a baba? Ou por na escolinha, e sobre todos os traumas que  envolvem a situação.
Eu fiquei pensando:  quem me dera, se todos os meu problemas fossem esse. Hoje o meu maior medo é: será que terá trabalho para mim?
 Sexta feira fui fazer uma entrevista, e não fui selecionada. A candidata ao lado tinha menos qualificação, mas não tinha filhos.
Quem vocês acham que ficou com a vaga?
Esse é o Brasil que terá uma mulher como presidente. Será que nossa exclusão, será que nossa opressão, será que o machismo vai acabar? Bem, para sabermos a resposta, basta perguntarmos para os negros americanos, ou os negros da África do Sul, se depois de terem presidentes negros a condição de vida melhorou. Se acabou a exploração, a exclusão, o racismo, a segregação.

Fica aqui a pergunta, fica aqui a reflexão.
Grande Abraço
Jaque Odara.