sábado, 1 de dezembro de 2012

Santa Puta



Nem santa, nem puta! É assim que a maioria das mulheres que eu conheço gosta de se auto intitular.
Fico pensando qual o peso que está por trás de cada expressão dessa.
A puta a gente já sabe, afinal a puta é aquela que faz o que quer com seu corpo, inclusive vender o prazer que ele pode proporcionar.
Mas e a santa? O que é uma mulher santa? Existem mulheres santas? As mulheres santas, como elas são?
A maioria das feministas de vanguarda dizem que não querem rótulos, que querem ser o que quiser; mas não podemos desconsiderar o valor da linguagem. O viés ideológico das palavras, e principalmente a relação de poder que marca as palavras e a forma como elas são usadas.
Outro dia, estava conversando com uma jovenzinha evangélica e, que queria se relacionar com um homem casado. Ela dizia que sempre saia com homens casados por que não gostava de se envolver, e que embora fosse virgem, não se considerava nem santa e nem puta. Que sabia fazer um homem sentir prazer, mas embora fosse evangélica e sua religião condenasse o sexo antes do casamento ainda mais com homens casados, não se considerava uma puta, mas também não era uma santa evangélica dessas que não sabem o quer.
Veja, é uma jovem de 20 anos! Depois dessa conversa fiquei pensado o peso ideológico dessa expressão para nós mulheres  para o nosso processo de formação de identidade do ser mulher, a nossa construção de gênero. Ela me disse, que a mulher dele devia ser a santa, porque era casada e tinha um papel a desempenhar, e que ela era livre e podia sair com quem quisesse e quantos quisesse.
De repente, fiquei pensando que o mundinho oprimido das mulheres se resume a 2 grupos:
1º As solteiras - que disputam com as casadas seus machos (portanto as putas)
2º As casadas - que devem se comportar de acordo com sua posição social (portanto a casada)
Eu não pauto minha vida por essa ótica, mas se pensarmos bem, tudo leva a crer que é assim mesmo que a coisa funciona. Algumas pistas: liga no rádio, e espera tocar uma música, o enredo fatalmente vai ser, ela me quer, eu tô na noite, mas eu sou seu! Os homens são o máximo e sempre há mulheres disputando-os, e a que quer tem que mostrar pra ele que é melhor (mas um embate entre a santa e a puta). Abra uma revista dessas para mulheres tipo NOVA, MARIE CLAIRE, GLOSS e tantas outras porcarias, sempre haverão matérias sobre como segurar seu marido, como saber se ele está com a outra, dicas infalíveis de sedução que vai faze-lo esquecer todas as outras.
Isso sem falarmos nos filmes, novelas, romances. Sempre há a tensão entre ele e elas.
Se a santa é socialmente legitimada, a puta é socialmente necessária. E, nessa tensão entre a moral e o prazer vamos formando nossa identidade enquanto mulher.
Eu nunca tive problema nenhum em afirmar minha identidade PUTA, lamento que outras mulheres tenham receio de se assumir e investir nesse discurso falido de que não queremos rótulos. Nós rotulamos o tempo todo: mãe, feminista, médica, faxineira, advogada, amante e por ai vai.
Assumir sua identidade te ajuda a perceber quem você é, qual sua história, quais seus caminhos!
Experimente sair do armário, e assumir quem você é.
Só se liberta, quem se percebe acorrentado!

Ps: no meio dessa tensão politico ideológica presente na linguagem, cabe uma discussão muito pertinente sobre os Relacionamentos Livres, e seu suposto caráter libertador. Afinal, esse papo de ser livre é coisa de Santa ou de Puta?