segunda-feira, 4 de março de 2013

Vamos todos para Palmares!



Esses dias eu estava pensando, onde seria a nossa Palmares?
Na música, o poeta fala do processo da fuga dos escravos para palmares: do caminhos, dos percalços, dos inimigos e da glória de finalmente chegar a Palmares.
Eu penso, que ir pra Palmares,é se libertar, é encontrar o lugar onde sejamos nós, com a nossa origem, com a nossa raiz.
De maneira geral, se a gente for pensar que os processos de cada um tem muitos pontos em comum com o coletivo, vamos perceber que muito de nós está nesse caminho de libertação.
Mas, para ser livre é preciso primeiro se perceber preso. Para ser livre é preciso saber o que é liberdade.
A maioria dos pretos e pretas que eu conheço não se acha preso, e também pensam que liberdade é poder de consumo.
Mas, para mim, ser livre é poder andar na rua e as pessoas não me olharem de um jeito estranho por causa da cor da minha pele.
Para mim ser livre, é passar no hospital, e o médico me designar a mesma atenção que ele designa para a mulher branca.
Para mim ser livre, é ser o que eu quiser, do jeito que eu quiser,como eu quiser com quem eu quiser.
Nós, todos nós, homens, mulheres, brancos, negros, nós não somos livres. 
E o pior, sem grilhão nos pulsos, achamos que poder usar o cabelo black power e poder comprar roupa com temática africana, nós torna contemplados, incluídos, inclusos e portanto livre.
Qual é a nossa origem, onde fica a nossa Palmares?
Essa semana li um texto do Freud, que eu recomendo para quem se interessa pelas questões de formação dos indivíduos, chamado A Psicologia das Massas e a Análise do eu, onde ele vai discutir o processo de massificação que a sociedade esta inserida e as implicações disso para a formação do individuo.
É mais ou menos assim: os processos de formação da sociedade não permite que o individuo solidifique seu ego (seu eu), fazendo com que ele não tenha uma identidade própria e sim a identidade que a massa determina: ele pode ser hippie, pode ser roqueiro, pode ser alienado, pode ser engajado, mas todos esses tipos são determinados pela massa.
O processo de formação da identidade, se ocorrer de forma correta, se baseará na construção da identidade a partir de um modelo de ego (modelo de eu),e da critica permanente dos outros indivíduos (o processo da diferenciação ou da critica é necessário como elemento que possibilita a capacidade de analise e construção de novas possibilidades de ser do ego).
A falsa democracia que vivemos, onde ser livre se resume em poder consumir, faz com que nosso ideal de liberdade se resuma ao que temos,e o que temos define quem nós somos.
Se você é do Movimento Hip Hop, mas não usa calça larga nem as marcas de produtos ligadas a esse movimento, você não é do Hip Hop. E por ai vai. 
Me lembro, que quando trabalhei numa ong, cujo publico alvo eram os homossexuais, o meu então chefe, que é homossexual, disse que existem lugares, produtos, viagens, alimentos, amigos, baladas especificas que o gay deve frequentar, senão ele é um gay qualquer e não pode privar do acolhimento do grupo dos outros gays que vão nesses lugares e fazem essas coisas. E já dizia o Mano Brown: ninguém quer ser coadjuvante de ninguém.
E assim, se perdendo nas falsas liberdade, na falsa ideia de igualdade, estamos cada vez mais longe de nossa Palmares, de nossa libertação.
Esquecemos quem são os bandeirantes, esquecemos quem foi Raposo Tavares. Esquecemos que do senhor  não se pode ser amigo, mesmo que hoje possamos comer a mesma comida que ele come. Mesmo que tenhamos dinheiro pra comprar essa comida, mesmo que estudemos na mesma universidade da filha dele.
Senhor é senhor e escravo é escravo.
Uma vez senhor, sempre senhor. Uma vez escravo, escravo até que lute pra se libertar.
Mas, quem de nós luta pela nossa libertação?

Ps: Quem não conhece a música Vamos pra Palmares do Dugueto Shabazz, pode clicar aqui e ouvir essa perola negra da nossa musicalidade popular.

Ps 2: a foto deste post, mostra o que espero que seja minha Palmares: um lugar onde possa me encontrar com minha história, com minhas origens, com as minhas negras raízes. Seja na África, seja no Brasil, mas não no capitalismo.