quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Isso me dá falta de ar - parte II



São 6 anos.
6 anos que descem pelo ralo. Em algumas culturas as águas usadas são reaproveitadas e servem para fazer outras coisas. Coisas novas diferentes.
Mas, quando se chega no fundo, para onde mais se pode ir?
Eu cheguei no fundo. Onde não há mais racionalidade, estou onde começa o caminho da mágoa.
Não existe caminho sem volta, eu sei. Podemos tudo que quisermos, recomeçar, começar, refazer, fazer.
Me sinto sem ar, sem chão, sem apoio. Quem me dera poder fazer como na música, e fazer um traje espacial pra na Lua viver.
Mas a realidade é mais concreta que o realismo literário.
Fico me perguntando, qual é doce mágica da convivência. Venho de uma trajetória familiar, onde todos os relacionamentos foram ou são fracassados. Meus pais se separam quando eu tinha seis anos, uma parte da família não conversa com a outra, minha mãe não fala comigo a mais de três meses.
É nessas horas que eu compreendo todos os estudos sobre o fracasso social de indivíduos com trajetória familiar fracassada.
Eu devia lutar para romper com esse estereotipo, amar devia ser a primeira tarefa revolucionária de qualquer sujeito que se proponha viver a revolução.
Assim, me fiz uma pessoa pela metade; e reproduzo minha trajetória familiar de fracasso e projeto nos meus filhos o fracasso social e afetivo.
Só se pode amar em coletivo, em comunhão. Mas as pressões e a dinâmica da vida na modernidade nos aliena da experiência amorosa de tal maneira, que amar passa a ser só mais necessidade capital para se viver num mundo racionalizado e medido.
Assumo aqui, minha semiformação e minha unidimensionalidade. Como fruto desse sistema, sigo pela metade, numa realidade forjada e desumana.
Como diria o poeta, sei lá, essa vida é uma grande ilusão.
É duro, quando vemos em nós mesmos, toda a mutação que essa vida no cativeiro de uma realidade medida pela racionalidade da mais valia (mais valia social, mais valia afetiva, mais valia sexual, mais valia racial), é duro quando reconhecemos que não somos diferentes dos sujeitos alienados e atrasados.
Saber pensar não me torna humana, a única coisa que poderia me tornar humana seria saber amar.
Mas como saber amar, se fui privada da experiência, a única capaz de me ensinar o ato de amar?
Marcuse se aqui estivesse, diria, que aqueles que nunca amaram, são mais capazes de amar, e que justamente por não estarem presos no estereotipo do amor burguês, seriam capazes de negar essa concepção de amor posse, e criar uma forma de amor libertadora e emancipada.
Toda reflexão intelectual, possibilita que avancemos na nossa realidade imediata, como uma especie de portal; portal esse, que ao cruzarmos, podemos superar um centímetro nossa realidade limitada, alienada e cindida, rumo a elaboração de uma nova forma de sermos e estarmos no mundo.
Seria o amor, algo que é subjetivo e abstrato, capaz de pensado e teorizado, a fim de ser objetivado para que então a gente possa superar, a forma alienada do amor burguês?
Poderia ser o amor, algo que nos liberte de nós mesmo, numa perspectiva de nos humanizar e nos tornar mais conscientes de nós e da realidade que nos cerca?
Eu não sei, a única coisa que sei, é que as coisas continuam caindo no ralo.  

Ps: eu, como marxista que tento ser, espero que amor também seja dialético; e, que a dialética, me salve mais uma vez.