quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A Boceta de Pandora

 

Já que o projeto de pesquisa não sai, vamos falar dela: A Boceta de Pandora.
Já faz alguns dias que tenho andado com isso na cabeça, só matutando e matutando.
Alguns meses atrás fui assistir uma peça sobre Prometeu, e a peça era divida em quatro cenários que eram utilizados simultaneamente pelos atores e contavam a mesma historia em versões diferentes.
Por obra do cosmo, fiquei do lado que mostrava que a caixa de Pandora na verdade era a Boceta dela e que dali saíram todas as coisas maravilhosas para os homens mas também a desgraça que se abateu sobre o mundo doravante. Na peça, era encenado que os prazeres e a vida que emanavam da Boceta de Pandora, também seriam motivos de guerras entre os homens. Que para ter todo o conhecimento necessário para o progresso da civilização o homem teria que beber do leite que escorria de Pandora, mas teria que negar o desejo que emanava de sua Boceta.
Quando lembro dessa passagem da peça, fico pensando sobre o "mal" que se esconde em nós. Ou melhor, sobre o mal que a humanidade diz estar em nós.
Em muitas passagens, em todas as culturas e religiões, haverá explicação sobre nossa natureza malévola  e essas explicações servirão de justificativa para a legitimação de nossa opressão.
Se para Adorno, o mito já era uma tentativa de esclarecimento, ou seja, através da mitologia os povos antigos já buscavam maneiras de se esclarecer para superar a barbárie a violência em que estavam imersos através da razão; de certo mitos como o da Pandora e da Eva são formulações que intentam esclarecer alguma coisa.
Fico pensando que poder oculto é esse que descansa entre nossas pernas? Quão subversivo pode ser gerar a vida? Que força é essa que temos que desconhecemos?
Na nossa boceta damos a vida a humanidade, damos conhecimento (grandes cérebros de grandes homens saíram de uma boceta), damos o prazer. 
Marcuse, em Eros e a Civilização, ao analisar do ponto de vista da filosofia os escritos de Freud, elabora reflexões muito profundas sobre a pulsão de Eros (criação) e o prazer: para evoluir o homem teve que abrir mão de seus desejos imediatos e sublima-los, domestica-los, molda-los as necessidades da civilização rumo ao progresso, mas hoje no atual processo de coisificação que vivemos, a dessublimação desses instintos acontece no sexo puramente.
Eu observo as novelas, filmes, series e percebo como esse poder oculto da Boceta é demonstrado de maneira latente: a loira fatal, a amante poderosa, a viúva negra dos contos policiais.
Mas, na vida real nós ganhamos menos, somos vitima da violência domestica, estudamos menos, somos diariamente humilhadas com piadas e assédios moral e sexual, por isso me pergunto onde está todo esse poder, será que de fato ele existe?
Somos privilegiadas por gerarmos a vida, mas também somos malditas por tudo que em potência adormece em nós.
Somos escravas de nossas bocetas: bocetas que hora são sinônimo de libertação, hora sinônimo de opressão. 
Mais uma vez a realidade se demonstra cindida: entre aquilo que se concebeu por ser e aquilo que de fato o é.