domingo, 2 de outubro de 2016

Precisamos falar sobre nós... e sobre eles também




Ai o amor!
Ai o amor cantado pelo Jorge Ben!
Ai o amor de tantos nomes, de tantas bocas, de tantos acordes... Ai o amor!
Eu tenho ouvido muito Jorge Ben, e ele tem me feito pensar muitas coisas. Mais ele tem me feito pensar muito sobre relacionar-se de novo.
Sobre todas as possibilidades de amar de novo (supondo que um dia amei).
O amor têm cor? O amor têm cheiro ou sabor? O amor têm idade ou classe social? Poderia um burguês amar um trabalhador ou um trabalhador amar um burguês?
Pode um homem amar uma mulher? Pode uma mulher amar um homem?
Podemos nos amar?
Uma vez conversando com uma amiga, eu lhe disse que ela devia rever seu conceito de amor, mais qual é o meu conceito de amor?
Tenho pensando que amor é liberdade, por isso não deve ter cor, classe, cheiro, conta bancária ou sobrenome.
Mais pra mim amor também é politico, logo quem eu amo, diz muito sobre o que penso e acredito.
Se por um lado, para mim enquanto mulher preta, me relacionar com um homem que apenas me vê como mulher (desconsiderando todos os estereótipos e estigmas sócio históricos e culturais) é libertador, por outro lado me relacionar com um homem que compreende todo o processo de tornar-se mulher negra e reconhece que nosso amor é sobretudo politico, e portanto eleva a possibilidade de ser e fazer o ser livre, à uma dimensão concreta e não só simbólica; apresenta-se aos meus olhos como algo revolucionário.
O problema é que ele, o homem negro, ainda não entendeu o que é ser mulher negra. Parece que só o Jorge Ben sabe alguma coisa sobre isso.
A minha pergunta é: o que nós homens e mulheres negros faremos? Para onde iremos? Como faremos?
Poligamia, amor livre, amor inter racial, amor afrocentrado, monogamia, solidão da mulher preta, solidão do homem preto... Antes de entendermos, pensarmos, fazermos, vivermos tudo isso, a gente têm que aprender a ser gente, GENTE que é feliz e brilha, sonha, é livre, deseja e finalmente ama.
Eu só sei, que enquanto escrevo esse post, ouvindo Jorge Ben, sinto uma inveja desgraçada das mulheres do Jorge.
Que pena! Que pena!


sábado, 13 de agosto de 2016

Quando se é o que é...



Engraçado como a perspectiva é sempre a mesma, só mudamos o foco. Tenho pensado muito sobre isso.
Ontem, eu fui almoçar com um amigo, e conversávamos sobre meu ex casamento, ele me perguntou: "você não projeta no próximo parceiro as frustrações do seu casamento?". Eu de pronto disse que não, mais hoje, analisando como troquei o comunista pelo moço bonito, eu acho que é o que mais tenho feito: projetar no futuro a dor da perda de 8 anos de relacionamento afetivo com o pai das crianças.
Eu não sei quais são as perspectivas da vida, por que as relações estão cada vez mais mecânica, cindidas e alienadas.
Você já se perguntou o que é o amor? É o calor bom que dá no peito? É o frio na barriga quando se pensa na pessoa, é recostar a cabeça no peito do outro e ouvir musica juntos? (eu fazia muito isso com o ex marido). É rir junto da caibra na hora do sexo?
É tudo aceitar, tudo perdoar, tudo relevar mesmo que isso te mortifique?
O que é o amor? O que é amar para nos negros e negras da classe trabalhadora?
É o pãozinho quentinho que a mãe requentou e serviu junto com um copo de leite?É o salario que cai no quinto dia útil? O abraço apertado do filho pequeno? É conseguir pagar o aluguel em dia? O que é o amor?
Nove meses atras eu fiz minha iniciação no candomblé, e tenho me dito todos os dias que amor é o que sinto pelo orixá e ele por mim, e todas as outras experiências são meras aparências do cotidiano.Por que o que eu sinto pelo orixá e eu sinto que ele sente por mim, não tem explicação, e eu sempre acreditei que o amor não se explica, não se racionaliza.
Ai, eu conheci o comunista, e projetei que seria possível, se eu tivesse paciência, se eu tivesse sagacidade, se eu... E no fim, restou a rejeição, e  a dor da decepção, de mais uma vez, ter acreditado em algo que nem sequer existiu. Como sentimos falta do que não temos?
Então, resolvi esquecer e deixar passar. Essa semana, o caçador me deu um presente lindo, que também não vai ficar. Mais eu queria muito que ficasse, sabe, igual aquela musica da Tulipa Ruiz: "vou ficar mais um pouquinho para ver se acontece alguma coisa nessa parte do caminho". Mais que nada! Certamente ele já foi, tá indo ai, bem longe. 
Todas essas maluquices, o Marcuse explica. Isso eu sei. Lá no texto "Algumas implicações sociais da racionalidade tecnológica" ele vai dizer que o modo de produção industrial e o crescente avanço da tecnologia, molda cada vez mais as consciências e por consequência as relações, tornando-as mecânicas e vazias de significado, e que muito pouco pode se fazer sobre isso.
Ou seja, somos pessoas frias, vazias, desprovidas de afeto e sentimento. Mais, e os casais dengo e felizes do Facebook?
Aparência ou também essência?
Não sei, sei lá.
Acho que na pós modernidade, a essência se tornou aparência e a aparência se aprofundou de tal maneira que se tornou o espelho da Alice do pais das maravilhas.
Afinal, nos dias de hoje tudo é nada e nada é tudo. Sexo virou a linguagem universal para a troca de afeto, e afeto virou fetiche de musica ruim.
Não sei se existe saída ou salvação. Talvez, se um dia, eu puder amar um humano de novo, eu acredite que é possível. No demais, é barbárie que nos brinda e é ela que nos brindamos.
Só pra frisar, eu me arriscaria amar com o moço bonito, mais sei que penso assim, por que como diria Freud: eu me auto saboto o tempo todo, crio situações perversas marcadas pelo fracasso,para que depois eu mesma possa me dizer: tá vendo, eu falei que não ia dar certo. E não deu, não dá e não daria de jeito nenhum.
Boa noite.

terça-feira, 8 de março de 2016

Negra, mãe, macumbeira e mestre em educação

"Quero abrir passagem para outros negros”, diz Jaqueline Conceição 

da Silva, educadora da periferia.

Postado por: Da Reportagem em 08/03/2016 às 17:37     |   
 Última atualização: 08/03/2016 às 17:38
Jaqueline  (1)
Assumir-se! Negra, mãe, macumbeira, moradora de uma ocupação na zona norte de São Paulo e mestre em educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Jaqueline Conceição da Silva assumiu e venceu muitas batalhas ao longo dos seus 31 anos, mas, firme para encarar a realidade adversa, titubeia quando é questionada sobre seus sonhos.
“Sonho é aquilo que quando a gente vai deitar, fecha o olho e nos faz bem, né?”, reflete e, logo, pontua: “Eu tenho metas e um desejo de ver meus filhos homens adultos, com famílias constituídas e de preferência com filhos. Que eles tenham suas companheiras, companheiros, filhos biológicos ou adotados, e eu possa ver isso. Igual família de filme norte-americano, com patriarca e matriarca sentados reunidos”, emociona-se a pedagoga.
Nascida e criada no Jardim Damasceno, bairro periférico da zona norte, Jaqueline desviou-se dos caminhos profissionais trilhados pelas mulheres da sua família, a maioria empregadas em serviços domésticos, e foi pioneira na conquista de um diploma acadêmico. Agora, cultiva como umas das suas metas principais transformar outras realidades. “Quero abrir passagem para que outras mulheres, homens e jovens, e cada vez mais os negros, consigam furar a bolha e o paradigma de ser negro no Brasil”.
A inspiração para a vida acadêmica teve início a partir da convivência com as educadoras do Espaço Cultural do Jardim Damasceno, um galpão na entrada do morro, ponto de referência histórico na vida cultural e social dos moradores do bairro. Lá, Jaqueline participou como educanda dos 10 aos 18 anos e depois trabalhou como educadora e oficineira até os 22.
Casou-se com um professor de filosofia. Teve três filhos. A primogênita morreu logo após o parto, há aproximadamente 12 anos. Formou-se pedagoga, mas foi durante o mestrado em educação que encarou um dos processos mais transformadores da sua história: descobriu-se negra.
O processo
“Acho que na PUC foi a primeira vez na minha vida que eu vivenciei situações de racismo explícito, a ponto de eu querer desistir de tudo. Tive muitas crises. Ia asseada, limpa e maquiada, tentando reproduzir as normas sociais de convivência daquele ambiente e mesmo assim era rejeitada”, relembra.
Jaqueline conta ter vivido em um ambiente familiar com formação preconceituosa. “Cresci com uma referência de que ser negro era algo muito ruim. Olhava no espelho e via que eu não era branca, mas ao mesmo tempo eu não me achava tão negra assim”.
Filha de uma mulher negra com um descendente de polonês, Jaque, como é conhecida, tem uma irmã paterna loira, com quem não convive harmonicamente. Em uma noite na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, ouvindo uma canção do músico Ba Kimbuta, Jaqueline colocou-se a refletir.
“A música falava das dores que a travessia da África para cá causou e a dor de ser negro, da rejeição, solidão, medo, fome, miséria e esquecimento, mas também fala de beleza, força, resistência. Foi a primeira vez que entendi o que é ser negra e vi que eu não estava sozinha. Não tinha motivos para negar a minha dor, uma dor legítima e era ela que tinha que me dar força para seguir em frente”.
O candomblé a ajudou nesse processo de identificação. “Eu me sentia perdida, sem origem e isso o candomblé me deu. Agora, eu sei que sou filha de Xangô, tenho minha ancestralidade na cidade de Oyo, na Nigéria, no reino de Oyo, o maior reino dos Iorubás. Isso me deu uma sensação de localização no mundo e de força muito grande, porque eu sei onde está a minha raiz e sei pra onde ir”, diz. Não tem problemas com o termo macumbeira quando se autodenomina.
Em 2014, a partir da observação da realidade em que vivia na região do Capão Redondo, na zona sul, a pedagoga escreveu o artigo “Só Mina Cruel – Algumas Reflexões Sobre Gênero e Cultura Afirmativa no Universo Juvenil do Funk”, que foi aceito em uma conferência na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.
A jovem, que utilizava os R$ 1500 da bolsa do mestrado para complementar o orçamento doméstico, e muitas vezes não tinha dinheiro para pagar os xerox ou a condução, fez uma vaquinha on-line para a viagem internacional. A história, contada no Blog Mural (Professora cria ‘vaquinha on-line’ para apresentar artigo sobre funk, nos EUA) ganhou repercussão na mídia e chegou aos ouvidos da funkeira Valeska Popozuda, cujas músicas eram citadas na pesquisa.
Valesca ajudou (leia Valesca Popozuda vai bancar viagem de pesquisadora aos EUA) com os custos. Jaqueline viajou e viveu uma experiência que disse ter sido “revolucionária”. “Eu sou uma pessoa de quebrada, uma favelada. Até hoje não consigo mensurar o impacto de ter apresentado um artigo na Columbia. Às vezes parece ter sido um sonho. Foi muito significativo e reforçou a ideia de que eu posso, e se eu não posso, eu tenho e preciso ter força para conseguir”.
Crescer e multiplicar
Todas as mudanças e a valorização da sua identidade fizeram com que Jaque criasse o seu negócio social chamado Coletivo Cultural di Jejê.  O projeto tem como objetivo a produção e difusão de conhecimento sobre os negros no Brasil, em especial as mulheres negras e a juventude. A mestre, que está agora a caminho do doutoramento na Universidade Federal de Santa Catarina, viu surgir na UFSC uma nova inspiração.
Entre setembro e outubro do ano passado, Jaque resolveu aplicar um curso sobre Angela Davis, intelectual negra norte-americana, para os coletivos negros e alunos de graduação e pós na instituição. “Percebi uma angústia muito grande por eles não terem esse conteúdo dentro da universidade, essa referência. Os professores são brancos, os autores, o pensamento é branco, e senti um alívio muito grande porque era uma mulher negra falando sobre uma mulher negra para os negros”.
Não satisfeita, ela voltou para São Paulo pensando na possibilidade de difundir esse conhecimento em uma linguagem acessível para a periferia e foi assim que Jaque voltou para o Espaço Cultural do Jardim Damasceno. Aos sábados, ela desenvolve mini-cursos com temáticas como feminismo negro, direitos humanos, intelectuais negros, racismo, cultura, violência doméstica, complexo prisional e genocídio da juventude negra.
“Sem o espaço não teria conseguido viver e suportar a minha adolescência nos anos 90, no Damasceno, na Brasilândia, na periferia. Então, tem um valor afetivo, político, histórico pessoal e educativo. A retomada com os cursos tem a ver com uma sensação de débito também”, conta.
Os cursos custam R$ 40, incluindo alimentação, material e certificados. Os moradores do bairro são isentos da taxa. Retirando as despesas, as aulas geram o seu salário atual em torno de R$ 600. O retorno pessoal é multiplicado. “Me sinto realizada enquanto pessoa, naquilo que eu defendo de possibilitar outras mulheres negras refletirem sobre a sua realidade e avancem sobre ela, rompendo o ciclo cada vez mais”.
Por Cleber Arruda, 34, correspondente da Agência Mural em Brasilândia

Fonte: https://www.portaldajuventude.prefeitura.sp.gov.br/noticia/negra-mae-macumbeira-e-mestre-em-educacao-pela-puc-sp/

O que precisa ser dito... mais a maioria de nós não gosta de dizer



No começo desse ano, em Fevereiro, Francisca uma líder sindical campesina, negra e moradora de uma cidade do Maranhão, foi brutalmente assassinada e estuprada.
Seu corpo negro e gordo, foi encontrado nu e ensanguentado, marcado pela tortura e jogado numa poça de lama.
Na época do fato, não vi nenhum textão indignado de nenhuma feminista aqui do sudeste, nem muito menos de nenhuma feminista, nem mesmo das feministas negras da da high society virtual das revistas de esquerda e textões, ou da geração tombamento.
O que a morte de uma trabalhadora do campo, negra e gorda pode ter de glamoroso para nos? Quantos likes e um textão sobre isso no Facebook pode ter?
Ás vezes, tenho a impressão de que ser feminista negra em nosso mundo pequeno burguês onde as pessoas letradas e politizadas circulam, se resume a holofote e elogios, e um bocadinho de brigas virtuais e dramas pós modernos marcados por ser bloqueada no Facebook.
Hoje, dia 08 de Março, dia da mulher (sobretudo das mulheres brancas), eu me pergunto, afinal de contas: o que quer o feminismo negro?
Claro, que o capitalismo nos ensinou que os conceitos se consolidam a partir da noção de opostos, mas, muitas vezes nos vejo num permanente processo de negar o feminismo "branco", mas não nos vejo pensando e realmente elaborando nossas pautas e bandeiras.
É como se nosso feminismo negro, fosse um feminismo branco feito por mulheres de pele preta e quiçá desejando as mesmas coisas.
Mais no fundo, a gente não se olha, não se conhece, não se cumprimenta, não se pensa e sobretudo, não avança sobre a realidade.
Tenho nas minhas redes sociais muitas feministas negras atuantes nos círculos acadêmicos e culturais, mais nenhuma delas sequer escreveu um textinho sobre sermos todas Francisca.
Sabe o que têm de me deixado angustiada? É que no final das contas, somos e reproduzimos exatamente aquilo que questionamos: somos feministas negras que reproduzem o pensamento branco fantasiado de uma retórica preta, mas que tem pouco eco e reflexo na realidade.
Será que estas linhas são exagero da minha parte?
A imagem do corpo negro, gordo de uma mulher camponesa e não acadêmica, jogado em meio a lama, ensanguentado e torturado, me diz que não.
Se queremos emancipar as pretas, e por consequência os pretos, temos que repensar nossas táticas e estratégias, por que se ser diva fosse solução para opressão, as grandes atrizes e cantoras negras nunca teriam sofrido com o racismo.
Pé no chão e cabeça na luta.
Francisca presente! E todas nos também!




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Deixe - me ir, estou por ai a procurar....


Eu podia começar esse post chorando mil fitas, mil trutras e mil tretas...
Mais eu sou uma mulher feita no orixá, filha de Xangô com Oxum, não choro, eu luto.
Luto por mim e por todo mundo, luto pela beleza e pelo amor. Eu luto.
Se canso?
Sim, quase sempre. Canso quando me traem, por que sou fiel a minhas ideias, crenças e sentimentos.
Não faço nada que não seja visceral, genuíno e único pra mim. Especial de verdade.
Já sofri muito, já fui traída, esquecida, negada, passada para traz.
Mais hoje, não me levo mais por isso.
Na minha cabeça têm um rei e uma rainha. O rei mais forte e mais belo dos Yorubas, a rainha mais doce, feiticeira e bela dentre todas. Não há nada que Xangô queira que ele não consiga ter; não há nada que Oxum queira, que ela não vai conseguir ter. Sou feita pedra. Sou pedra.
Sou guerreira, não se espante. Faço meu caminho e sigo por ai a procurar aquilo que conforta meus olhos e meus corpo, por que meu coração é quente e repleto de amor e vitalidade.
Você deve estar se perguntando o que você tem haver com isso tudo?
Não sei, se está me lendo, deve ter um por que ou não.
O x da questão é que cheguei longe demais pra aceitar que aquilo que não acredito, nego e renego seja o que vai me determinar.
Quero relações por inteiro (ao menos as que eu posso escolher), mais do que relações de confiança, relações de ancestralidade.
Em qualquer aspecto. Me nego ser vista apenas como uma mulher preta inteligente, que serve para isso ou aquilo. 
Ou me têm como parceira, ou não me tem. Fim de papo.
Sabe aquele ditado: farinha pouca meu pirão primeiro? Então, bem isso.
Eu prometi a mim mesma, que ninguém, nunca mais ia me usar ou tirar proveito da minha capacidade com minha permissão. Não mais, ninguém mais vai fazer isso.
Ano passado, foi um ano horrível. Não passei fome por que não deveria ter passado, mais vários dias não havia dinheiro nem pro pão. Você sabe o que é ouvir seu filho te pedir pão, e voc~e não poder dar?
Passei, sobrevivi, eis me aqui.
E agora, ninguém mais se aproveitará de mim. Mesmo sabendo que vivemos numa sociedade marcada permanentemente por relações de poder, sejam de gênero, classe, raça, religiosa, econômica, cultural, seja qual for, a vida se baseia numa eterna exploração, nunca cooperação; enquanto eu puder e tiver forças para resistir, a meta é sempre dividir, multiplicar e acrescentar, nunca tirar nem deixar que me tirem.
Eu estou aberta ao mundo, a vida, a sonhos novos e antigos, parcerias novas e antigas, desde que fique muito claro que ou caminhamos ao lado, ou não caminharemos juntos.
E acredite, estar comigo é sempre o melhor, pois trago em mim o brilho e o dinamismo de meus ancestrais.
Eu acredito em mim e nas potencialidades que todos os dias o sistema e seus representantes me fazem crer que não existe longe deles.
Sim, esse é um texto auto afirmativo. Sim, precisamos nos auto afirmar...
Por que todos os dias aprendemos que não somos nada, nem ninguém, a menos que sejamos aquilo que o sistema quer que sejamos.
Lutamos e resistimos diariamente, mais como não estamos semanalmente na Revista Fórum, nem no Super Bowl ou no último barraco do grupo x do FB não somos nada pras pessoas que alimentam o sistema.

Sim, nós podemos.
Sim eu posso.
Eu, continuo por ai a procurar, por que como disse o Kayne: eu vou tocar o céu. 
Pela primeira vez na minha vida, eu literalmente mandei um racista calar a boca e se limitar ao seu espaço. E vi outra mulher preta, encorajada por mim, fazer a mesma coisa. Isso é relação de poder, isso é empoderamento. Isso é legitimar nosso saber, nossa história, nossa trajetória, nossa ancestralidade.
Isso é ser por que somos.
O resto? 
O resto é glamour de quinta categoria, roupa cara e alienação.
E, fim de papo.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ela uni todas as coisas...


Eu comecei esse blog, em 2013, para poder escrever sobre as minhas angústias. 
Desde que eu me entendo por gente, eu tenho uma necessidade muito grande de falar, e preciso ser ouvida.
De 2013 pra cá, aconteceu muita coisa. Pessoas entraram e saíram da minha vida, algumas permaneceram, algumas poucas coisas mudaram, outras foram esquecidas, outras permanecem vivas e ativas nas minhas memórias.
Mais têm uma coisa que ao que tudo indica, não vai mudar nunca: a necessidade que tenho de dizer o que penso, sobretudo para as pessoas que se negam a me ouvir.
Sabe, eu tenho pensado, por que temos tanta dificuldade em se relacionar? Será que é por que o mundo é cheio de regras e normas malucas e inatingíveis?
É como se a vida fosse um jogo, onde temos que seguir um roteiro, e tudo precisa estar milimetricamente definido pelas normas e etiquetas desse jogo.
Mulher precisa ser assim, homem precisa ser assado, gay precisa ser cozido, trans precisa cru e se a gente tenta não ser o que vem de fora, mais sim o que pulsa de dentro, acabamos causando sofrimento em nós mesmo.
Mais sabe, eu tô cansadinha disso tudo. Acho que eu e um monte de gente que conheço, mais é tão difícil. 
Outro dia, vi aquele filme da Ingrid Guimarães, acho que chama Loucas para casar. A história é a seguinte: a personagem central, interpretada pela Guimarães, é uma mulher que cresceu vendo a mãe sofrer pelo pai que deixou a família para ficar com a amante, e então, desenvolveu esquizofrenia, e desenvolveu várias personalidades femininas diferentes, mais todas elas representam o ideal da mulher perfeita na lógica do machismo:  a mulher bem sucedida, a religiosa casta e submissa e a puta gostosa. Na lógica do filme, ela reunia todas as mulheres numa só, porém ela era louca!
Olha a mensagem sinistra que a cultura industrializada vendida pela burguesia passa para nossas crianças!
Sabe, eu não culpo a maioria dos manos machistas que eu conheço, por que na maioria das vezes, eles estão sendo homens tal qual foi dito que eles deveriam ser. Alguns são acomodados demais para sair desse lugar de privilegio, outros simplesmente nunca pararam para pensar sobre, outros nem sabem que é possível ser de outro modo.
Outro dia, conheci um cara, e conversávamos sobre sexo e coisas afins, e ficava evidente na fala dele a visão machista e limitada do mundo dele, e eu, uma feminista experiente, insisti que seria possível qualquer dialogo, por que eu realmente acredito na experiência como forma de aprendizagem.
Resultado? O mano simplesmente sumiu, como se eu fosse o própria Ebola ambulante.
Do meu ponto de vista, a única possibilidade que temos de avançar na barbárie, é se intensificarmos cada vez mais a vivência através da experiência mediada pela relação com o outro e pelo outro. Errando, aprendendo, sentindo, construindo, desconstruindo, fazendo e desfazendo, só assim vai ser possível.
Mais a gente tá fechado em nós mesmos, que qualquer coisa ou pessoa que nos tire do lugar comum, faz com que continuemos na mesma logica de sempre: o auto boicote na busca por uma felicidade pasteurizada.
E a gente, segue tentando ser todas as coisas numa só, mesmo sem saber ser somente nós mesmos.
Que além de abrir nossos caminhos, Esù abra nossa cabeça para o crescimento e a revolução!


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Por que somos contra a redução da maioridade penal: a situação das unidades de internação para adolescentes infratores no Estado do Ceara



"Há um cenário de colapso, com superlotação de até 400%. Nem no sistema prisional tem esse número. Os internos não têm atividades socioeducativas, atividades de lazer e esporte. Eles passam praticamente 24 horas em celas lotadas. Isso forma o contexto das rebeliões", diz o membro da Cedeca.
                                                                         Fonte: http://g1.globo.com/ceara/noticia/2015/11/jovens-fazem-rebeliao-e-incendeiam-centro-para-menores-infratores-no-ce.html


Desde as 16 horas de hoje, 06 de Novembro de 2015, a mídia local vem noticiando diversas rebeliões nos Centros para Adolescentes Infratores em Fortaleza, no Ceara.
Os números são alarmantes: segundo a mídia local, desde o mês de Outubro desse ano, essa é a sétima rebelião. Uma pesquisa rápida pelos sites de busca, onde noticias são vinculadas sobre o levante dos jovens internados, fica evidente o cenário de colapso e calamidade.
Superlotação e condições desumanas são as principais alegações apontadas pelas matérias que retratam o assunto.
O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo, e a população juvenil em sistema de internação também é grande. Embora nosso país tenha desde 1990 uma lei especifica para pautar as questões da infância e adolescência, sendo o Estatuto da Criança e do Adolescente um modelo para diversos países, inclusive da Europa; ainda temos muito que avançar, inclusive no que diz respeito ao tratamento e reeducação dos adolescentes autores de ato infracional.
Desde 2012 está em vigor o SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socio Educativo), cujo objetivo central é a regulamentação e adequação dos programas de atendimento voltados para os adolescentes infratores que cumprem suas medidas sócio educativas em regime fechado.
É importante dizer que programas de atendimento, são ações planejadas com o objetivo de possibilitar ao adolescente que ele reconstrua sua trajetória de vida, rompendo de vez com o paradigma da criminalidade, buscando outras alternativas para si em conjunto com sua comunidade e família.
Os Estados e Municípios não têm demonstrado vontade política suficiente para implantar um sistema nacional de atendimento socioeducativo que afaste cada vez mais os jovens da criminalidade, possibilitando que eles tenham outra perspectiva de vida.
O resultado? Rebeliões consecutivas, em unidades hiper lotadas, com tratamento desumano, sem acesso a educação, cultura, lazer, esporte e rotina de tortura, vexação, humilhação, privação emocional e sofrimento psicológico.
As noticias acompanhadas por fotos das rebeliões, deixa bem claro que tais unidade socioeducativas, são mini presídios, onde os adolescentes vivem a mesma rotina de ócio e violência dos presídios convencionais, onde seus familiares, sobretudo suas mães, são submetidas a exames vexatórios para as visitas, onde as atividades de lazer e socialização, são como banhos de sol dos presídios adultos.
A cada rebelião que se segue nas unidades de internação do Ceara, a situação dos adolescentes pioram. Dessa vez, com a destruição parcial das unidade, há indicações nas materias veiculadas pela mídia, que os adolescentes serão transferidos para presídios militares.
Nós, sociedade civil, não podemos aceitar tamanha afronta ao direito de nossa adolescência, seja ela de qual parte do país for.
Nós, temos que denunciar essa brutal violação dos direitos humanos, e reforçar conjuntamente com os Conselhos de Direito da Infância e Adolescência, principalmente com o Conselho Nacional da Criança e do Adolescente e a Secretaria Nacional de Direitos Humanos que as violações parem!
Que os adolescentes em conflito com a lei, cumprindo medida socioeducativa de privação de liberdade, tenham ao menos, seu direito básico à vida garantido.
Chega de violação!
Não a Redução da Maioridade Penal!

Jaque Conceição
Rede de Comunicadores e Comunicadoras Contra a Redução da Maioridade Penal
Coletivo Di Jejê – SP


Para mais informações acesse: http://www.cedecaceara.org.br/